Aborto: a importância de viver o luto

Aborto: a importância de viver o luto

Aborto: a importância de viver o luto

O sonho de ser mãe juntamente com a notícia da gravidez traz associadas um grande conjunto de expectativas. Qual o sexo do bebé, o nome, o tipo de parto, o temperamento… À medida que as semanas e meses passam e a barriga cresce, estas expectativas vão aumentando. A presença de um novo elemento da família torna-se mais evidente a cada momento. A relação mãe-bebé é desenvolvida desde o primeiro momento e torna-se mais forte à medida que o bebé vai crescendo dentro da sua barriga.

A interrupção da gravidez involuntária (aborto) é uma perda significativa que traz consigo muitos desafios. A dor e sofrimento são as emoções que pautam esse período, e o processo de luto é, na maioria das vezes, complexo e muito doloroso.  A dor e a perda é sentida por toda a família: mãe, pai, avós, tios… Contudo, para a mulher é um processo muito mais difícil e de lenta recuperação do que para os restantes.

Qual a importância do processo de luto?

O luto tem de ser feito e respeitado pelos familiares. Cada mulher leva o seu tempo a recuperar e a família e o companheiro têm um papel essencial neste processo. Atitudes como “podes sempre engravidar outra vez” são comuns, e mesmo que estejam carregadas de boa intenção, a superação desta fase difícil, passa pela vivência de todas as fases necessárias que o luto envolve, de modo a levar à restruturação que permite que a pessoa siga em frente com a sua vida e não fique presa à mágoa do passado.

1.Negação

“Não pode estar a acontecer, tem de ser um erro!”  – É o pensamento mais comum depois da perda. A negação surge devido à dificuldade de acreditar e aceitar o que aconteceu.

2. Raiva:

“Porquê eu? O que fiz para merecer isto?” – Esta é a fase onde as emoções da perda se tornam mais exacerbadas.

3. Depressão

Esta é a fase onde muitas vezes o sentido da vida é questionado, onde a possibilidade de um futuro feliz não é possível. É uma fase onde o distanciamento social é comum, mesmo da família nuclear e dos outros filhos, se houver

4. Aceitação:

É a última fase do processo e é definida pela aceitação do que aconteceu e investimento no futuro. Chegar a esta fase pode ser um processo bastante demorado, com avanços e retrocessos pelo meio.

A mulher terá de sentir toda a tristeza e dor associadas à perda do feto para de seguida avançar com a sua vida de forma saudável e ajustada. Mas muitas vezes a vivência do luto é dificultada pela família, instalando-se a conspiração do silêncio: a tentativa de evitar o assunto, de forma a “proteger” a mulher da dor. Esta é a atitude provavelmente mais tóxica que as pessoas à volta de uma mãe que perdeu o seu filho podem ter. Ela tem de ser incentivada a expressar o seu sofrimento, lamentar-se e chorar. Se não for incentivada a faze-lo, pode sentir uma pressão para seguir em frente e não fazer um luto saudável.

Por vezes, a mulher após um aborto tentar engravidar de novo na tentativa de substituir a gestação e não ter de lidar com todas as emoções associadas. Contudo, há necessidade de lidar com perda, reformular as expectativas, e após o processo, iniciar uma nova gravidez.

Quando procurar ajuda?

Procurar ajuda profissional é muitas vezes necessário quando:

  • Não sente apoio por parte dos familiares e amigos;
  • Não está a saber gerir as emoções associadas à perda;
  • Se sente dominada pela culpa: “Será que fiz algo errado? A culpa foi minha!”;
  • Sente mudanças na sua forma de lidar com ela mesma: pensamentos recorrentes relacionados à incapacidade, infertilidade, a não ser merecedora, a não ser boa suficiente…

O luto após um aborto é esperado e necessário.

A tristeza e dor são normais, seja esta uma gestação de meses ou poucas semanas. Deixar de lado a sua imagem “de mãe” mesmo que de forma breve e colocar os planos em pausa, não é fácil. Mas o processo de luto tem um início, meio e um fim e com a ajuda necessária, é possível seguir em frente.

 

Imagem@freepik

Sou Psicóloga Clínica e da Saúde, Pós-Graduada em Psicoterapias Cognitivas e Comportamentais e Hipnoterapeuta.

O meu principal objetivo é, e sempre será, em conjunto com a pessoa que se encontra à minha frente, trabalhar para a sua evolução e melhoria, tendo em conta os seus próprios objetivos de vida, para que possa viver uma vida mais leve e feliz.

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