Aluga-se T3 | Excelente oportunidade (de negócio)
A vida é uma constante.
Constantemente repleta, vazia, sorumbática, alegre, duvidosa, extremamente improvável, e vezes demais, um tormento.
O sonho colectivo é fácil de adivinhar. Uma vida melhor.
É muito por culpa deste sonho que somos permanentemente acordados, sobressaltam-nos as possibilidades e as oportunidades que através dele julgámos possíveis de acontecer, e por vezes, o impensável acontece: os sonhos trespassam o sono, ganham vida, cor e luz, e põem-nos à prova.
E tudo o que sonhámos acontece deveras.
Foi o que aconteceu a Sofia.
Há vidas óptimas agarradas a pessoas descontentes, e pessoas descontentes com uma vida óptima.
No caso de Sofia, que nasceu com ambas as bipolares variantes, um problema agudo e crónico, dir-se-ia, um sonho recalcado que nunca teve o ímpeto de sair da cama, saltou-lhe uma manhã do peito. Muito acelerado para quem dormiu durante tantos anos, muito desperto para quem permaneceu fechado numa caixa bolorenta onde fechamos todos os sonhos de uma vida melhor, que por uma razão ou outra, nunca chegamos a ter.
Por razões diversas – a principal diretamente relacionada com proximidade da família chegada -, levou Sofia a uma decisão inabalável de permanecer no mesmo local onde crescera, mesmo depois do casamento. A decisão de ficar no bairro, tornando-se parte da curta franja de pessoas que não chegaram a partir, sobretudo para Lisboa ou para a zonas rurais de moradias a preços baixos, não a perturbou. Mudou-se para a sua própria casa depois do casamento, e depois de algumas obras de remodelação e restauro, a nova casa cumpriu o sonho colectivo dos noivos e descansou a família.
Casa boa, grandes assoalhadas, um tanto fria no inverno, é certo, mas com uma renda pagável, tendo em conta as condições bancárias da altura, e as suas próprias condições económicas.
Quando a Inesinha nasceu, a opção de ter permanecido no bairro revelou-se a mais certeira.
Viver perto dos pais é uma vantagem enorme que todos deveriam ter, sobretudo na altura dos filhos pequenos. A Inesinha teve a sorte de crescer num bairro que se tornara pacato, sempre acompanhada pelos avós, incansáveis e amigos, que foram durante 9 anos o verdadeiro pilar do casal e da menina.
A vida é também uma constante de mudanças, e cedo vieram as alterações laborais, as alterações materiais e sobretudo uma vagal mas incisiva alteração de humor. Por força desse sonho de vida melhor, o que antes era uma rotina das 9h às 17h num emprego ao pé da porta, depressa se tornou em chegadas tardias, horas extraordinárias, pedidos diários de ajuda nos banhos e no jantar, nos castrantes e intermináveis TPC, a vida social do casal a descolar-se das fraldas e das sestas às horas certas, as noites fora com os amigos, o desporto ao fim de semana, os momentos a dois, e tudo isto, de forma saudável e racional, foi sempre acompanhada e apoiada pelos avós da Inês. Mas o sonho comanda a vida.
Dez anos passam a correr.
Dez anos depois e a casa revelou-se fria demais, as horas perdidas no trânsito tornaram-se um tormento diário e mais não faziam do que roubar tempo e tempo ao já pouco tempo disponível. A súbita realidade do bairro, agora tão diferente (ou tão igual) espelhada na Inês, envolvida com a Inês, parecia demasiado pesada e limitativa.
Uma casa não pode ser um obstáculo à felicidade, uma casa deve ser o ninho dessa felicidade, o local de planeamento, o local de onde se parte de manhã para todas as conquistas, e onde se regressa à noite para todas as partilhas.
Não vale a pena prender os sonhos dentro de grandes assoalhadas se eles ali não medram.
E a vida é uma constante que constantemente nos coloca à prova, também perante os sonhos.
A ideia de mudar de casa, com a Inês a meio do ano lectivo, pareceu a todos uma loucura. Primeiro que tudo a estabilidade da criança, que fala alto e dispara em todas as direções, que deve ser ponderada.
Que reacção poderá ter a Inês se de repente, ao fim destes anos todos de rotina familiar e escolar, se vir numa casa diferente, numa rua diferente, numa escola diferente, sem os avós?
Será mais fácil esperar que as oportunidades que vemos nos outros nos cheguem na altura certa?
E se as oportunidades chegarem mesmo em cima do Natal? E se for mesmo ali pegada aos exames do 1º período, e se o agora ou nunca falar ainda mais alto?
A família é mutável, abalável, desdobrável e adaptável. A família deve juntar-se num abraço, combinar cabeça com cabeça a nova estratégia, e largar a correr, com força, com velocidade, fazendo cumprir aquilo a que se propôs desde o primeiro dia: ser feliz, numa vida melhor.
Sofia, embalada pela possibilidade de ganhar tempo, pela certeza de que é inútil lutar contra a natureza dos sonhos, contra a mutabilidade da vida, dos sítios, da cabeça, decidiu mudar-se.
A decisão de se mudar chegou muito antes da possibilidade de se mudar verdadeiramente.
O Universo é inteligente e conspira a nosso favor. As ideias e os sonhos – é um mistério ainda por desvendar – materializam-se e põe-nos à prova. Tem cuidado com o que sonhas torna-se numa realidade palpável e as coisas acontecem.
Apareceu uma casa para alugar em Lisboa, mesmo a poucos dias do Natal.
As condições eram únicas, e se deixassem fugir a oportunidade tão cedo não encontrariam outra. A zona permitia-lhes uma poupança de tempo útil de mais de 3 horas diárias. O automóvel diariamente utilizado nas deslocações de ambos para o trabalho e da Inês para a escola deixaria de fazer parte da equação, e a utilização da bicicleta nos percursos da cidade, um sonho antigo do casal, era uma possibilidade bastante viável.
O melhor de tudo era a nova escola da Inês.
Um belíssimo liceu mesmo à porta de casa, um belíssimo liceu que poderia acolhê-la e prepará-la para o futuro, um belíssimo liceu onde poderia, também ela, começar tudo de novo
Foi de resto o ponto de partida.
Uma escola em bom, muito diferente da escola do bairro, onde apesar do enorme esforço dos professores e funcionários, se agudizam os problemas sociais da comunidade envolvente, da precaridade da vida, do envelhecimento dos sonhos, e de onde chegam constantes relatos de agressões e assaltos, fez com que Sofia entendesse a desnecessidade de repetir o ciclo. Não havia necessidade de submeter a filha às mesmas condições da sua infância e juventude.
A formação escolar é tudo na vida de uma criança.
A escola é a sua principal fonte de energia e aculturação depois da família. É preciso pensar e repensar se a criança está a ser ‘bem preparada’ numa escola de grande diversidade cultural mas de grande inconstância do corpo docente, como são tantas das nossas escolas, ou se está só a ser instigada a preparar-se para se defender. Será mesmo bom pô-la à prova, envolve-la nas coisas menos boas, ou salvá-la? A Sofia pensou friamente: deve a Inês passar tanto tempo numa escola complicada e ainda ser privada da família nuclear por questões laborais dos pais, ou deve ter uma escola melhor, à mesma com as suas heterogeneidades, mas com tempo disponível com a família, menos correria, menos stress?
O laço com o bairro ficará para sempre.
A permanência da família no bairro é que estava totalmente condenada.
A resposta não se fez tardar, e a decisão foi tomada.
Como por mares nunca dantes navegados, também a família da Sofia tem de enfrentar os obstáculos.
Quanto custará à família esta mudança tão radical?
A escola nova terá horário completo? Sem avós para apoiar quem ficará com a Inês no caso de sair antes das 18h? E se de repente os inquilinos da casa bairro resolverem deixar de pagar a renda; e se não se conseguir de todo alugar a casa; e se alguém perde o emprego; e se a Inês não se adapta?
E se a casa nova for fria, pequena, e estranha?
Muitas serão as novidades e os desafios que Sofia e a família terão de enfrentar, mas o sonho colectivo é fácil de adivinhar. A vida melhor é apenas aquela que somos capazes de imaginar como se fosse a única verdadeira.
imagem@thewoodgraincottage
Dedica grande parte do seu tempo livre à escrita, à leitura e à arte. É casada e mãe de uma menina de oito anos, a frequentar a escola pública.
Um dia vai ser escritora, mas por enquanto continua a trabalhar.






