E se pudesse voltar a ser quem era antes de ser mãe, antes do autismo?

E se pudesse voltar a ser quem era antes de ser mãe, antes do autismo?

E se pudesse voltar a ser quem era antes de ser mãe, antes do autismo?

Não aceitaria. Não quero voltar a ser o eu que eu era antes de ser mãe, antes de o autismo nos ter entrado porta dentro.

Vi, no outro dia num programa daqueles de consumo imediato (na TLC, pois claro), uma mãe que se orgulhava muito de ter voltado a ser o que era antes. Fiquei a pensar naquilo e concluí, sem esforço, que mesmo que eu pudesse, não o faria.

O eu de agora é mais sensível ao que me rodeia, mais atento, mais informado e consciencializado, mais empedernido, mais formado, mais forte.

Acima de tudo mais forte.

Olho para trás e mal posso crer que aquela miúda de vinte e poucos anos foi capaz de segurar o mundo nas mãos. Arregaçar as mangas e ir à luta, contra quase tudo e quase todos e até sem apoio de alguma família direta, capaz de se meter em grupos de pais igualmente ferozes e lutar pelos direitos dos seus filhos até na Assembleia da República frente (ou contra) líderes partidários e deputados. Juro que nem acredito que eu sou essa pessoa e que fui capaz de tanto, às vezes, com tão pouco.

Por isso, voltar ao que era, não.

Voltar atrás com o que sou hoje, não hesitaria.

Talvez tivesse começado mais cedo a minha busca de respostas e imposto a nossa presença mais afincadamente onde deveríamos ter estado desde logo, desde os primeiros sinais.

Talvez tivesse tomado outras opções mais cedo e com resultados mais cedo, talvez não tivéssemos feito um esforço financeiro atroz, talvez tanta coisa.

Mas não foi assim que se passou, é água passada debaixo dessa ponte, siga para a frente que atrás vem gente. Somos capazes de aguentar dores que nunca imaginaríamos existir. E somos capazes de uma força hercúlea que duvido que o próprio Hércules a tivesse. E somos capazes de encontrar conhecimento e saber o que se passa com os nossos filhos, às vezes, antes até de um clínico dar conta disso.

Somos capazes de tanto… Tudo pelos nossos. Tudo.

E voltar atrás, ao que se era antes do mundo ter dado uma volta de 180 graus, parece errado, parece desvalorizar tudo por que se passou, aprendeu, viveu, sofreu, adquiriu, evoluiu. Podia voltar a ser eu mas o eu de agora. Este eu.

Um T2. Uma família que passa de 2 para 4. Um duplo diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo.

O esforço de manter uma vida normal em tempos difíceis, a vários níveis… Em suma, uma aventura vivida a 4.

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