As crianças estão mais violentas por causa da pandemia?

As crianças estão mais violentas por causa da pandemia?

As crianças estão mais violentas por causa da pandemia?

No início do ano letivo, da escola da minha filha da minha filha chegaram relatos de brincadeiras violentas entre os mais novos.

Sendo uma escola de primeiro ciclo, os alunos têm entre 6 e 10 anos. Havia queixas de empurrões frequentes, rasteiras, pontapés fortes quando um grupinho ia a passar…

Naturalmente, os pais falaram.

Sabemos que as crianças destas idades são muito físicas, que as brincadeiras envolvem empurrões sem maldade e outro tipo de contacto físico, mas quando é que uma situação se torna preocupante?

Para mim é quando envolve violência gratuita.

Um dos colegas da minha filha estava a correr no recreio, fizeram-lhe uma rasteira e partiu a clavícula. Foi intervencionado. Faltou semanas às aulas presenciais (tão essenciais nesta época, como sabemos), fez terapia.

Muitas pessoas dizem “ah, no meu tempo…. Isto agora não se pode fazer nada que é bullying, os meninos são florzinhas de estufa”, etc. Entendamos uma coisa: lá porque algo acontecia há 20 anos e se aguentava, isso não significa que o que acontecia fosse correcto, legítimo e, acima de tudo, que não se possa evoluir positivamente dessa situação.

Odeio violência e brincadeiras violentas, mas sei que elas existem e que existe uma fase por que quase todas as crianças passam em que as fazem. Para testar os seus limites, os dos outros, a sua força e o seu poder sobre o seu corpo e o dos outros.

As crianças estão mais violentas?

No caso da escola da minha filha identificou-se que os alunos mais velhos muitas vezes abusavam do tamanho e da força para as ditas brincadeiras parvas – onde soubemos que havia inclusive empurrões no escorrega, que é altíssimo – o que poderia resultar em lesões graves.

O diálogo que surgiu na turma da minha filha foi no sentido de perceber se não seria importante falar com algumas crianças para que percebessem que há brincadeiras que não se podem ter, porque alguns miúdos andavam a bater e a apertar o pescoço uns dos outros, etc. Falou-se de algo também muito relevante: com a pandemia e a criação de bolhas nos recreios, o espaço que os nossos filhos têm disponível para brincar é diminuto. Estão cercados por faixas. Todos amontoados. Não há praticamente espaço para brincadeiras livres. Não se pode jogar à bola. O contacto, que existe, é físico e entre eles. Concluímos que sim, este é um facto que aumenta a frustração, transforma as brincadeiras e os faz andar mais reactivos.

Este ponto assente, passou-se ao seguinte: nenhuma brincadeira violenta é aceitável. E é preciso que as crianças o entendam.

Uma mãe falou sobre violência de género, sobre se ensinar aos rapazes que bater faz parte (“ah, são rapazes, o que é que se pode fazer?”) e às raparigas para aguentarem e dizia que fazia questão de ensinar ao filho rapaz que não se bate em raparigas.

A violência de género é algo que me é muito caro, foi alvo de vários dos trabalhos que desenvolvi e como mulher e mãe de uma rapariga é algo que não levo levianamente.

Compreendi o que aquela mãe estava a dizer. Mas não concordo. Acho que esse tipo de discurso faz com que se perpetue o comportamento violento contra as raparigas, que continuam a ser vistas o como sexo fraco, a quem não se deve bater. Defendi, na altura, que o que se pode dizer de mais importante a uma criança, independentemente do seu género, é isto: não se bate. Ponto final. Não é “não se bate nas meninas”, não é “se vires que estão a bater numa menina faz queixa ou vai defendê-la”. É “se vires que alguém que está a bater em alguém intervém, independentemente de ser uma menina ou um menino”.

Foi sempre isto que foi ensinado à minha filha. Ela não se sente mais frágil que os colegas por ser rapariga nem sente que merece um tratamento diferente quando estão a brincar.

No grupo de amigos mais próximo, que veio da escola anterior, muitas vezes assisti a brincadeiras em que também ela dá empurrões e pontapés, envolvida no momento. E aí foi chamada à atenção. Foi-lhe pedido e aos amigos, que fossem ter outro tipo de brincadeiras em que todos se divertissem.

A minha filha nunca aprendeu a levar e calar.

Assim como não aprendeu a resolver nenhum conflito levantando a mão. Isto é a pedra basilar da relação com os outros.

Sabe que se vir alguma injustiça deve intervir. Que se deve defender e tentar resolver o seu conflito ou situação de disputa com os seus pares em primeiro lugar antes de ir fazer queixa ou chamar ajuda.

Isto também é importante, porque uma das mães cuja filha se tinha queixado de lhe terem batido, dizia “avisem os vossos filhos para não lhe tocarem, senão…. Eu ensino-a a bater de volta”. E que tal ensinar a não recorrer à violência? Claro que se nos estão a dar pontapés repetidamente não vamos erguer o braço, pedindo a fala e dizendo ”olhem, desculpem, está a ser absolutamente aborrecido o que me estão a fazer, se pudessem parar…”, mas ensinar uma criança a valer-se da sua força para criar abrigo e não para ferir também é importante. Se conseguir dar um empurrão para que se afastem dela e a oiçam em vez de começar logo às caneladas, talvez o assunto se resolva de outra maneira. E se não se resolver então vai pedir ajuda.

Muito pais querem resolver as disputas entre si em vez de responsabilizarem os filhos.

É importante que sintam responsabilidade no que fazem, estejam de que lado do conflito estiverem.

Lembro-me perfeitamente de a Mariana ter uns dois anos, estarmos no parque infantil e uma avó estar com um menino por lá. Esse menino foi brincar com outra menina que tinha brinquedos, um regador, ancinho, etc (lembra-se destes tempos, no parque infantil, a brincar no chão com brinquedos? Ah, as saudades…). O típico esticar de mão para o mesmo brinquedo aconteceu. Começou o puxa-puxa. A mãe da menina estava lançada para ir arbitrar a disputa. A avó colocou a mão no braço da mãe e disse “deixe-os tentar resolver primeiro. Se estivermos sempre a intervir eles crescem com essa sombra, sempre à espera que alguém venha resolver os seus problemas”.

E eu nunca mais me esqueci.

Ela estava absolutamente certa.

Concluindo, é importante não banalizar a violência.

É importante explicar que, como em todas as brincadeiras, se está só a ser divertido para um dos intervenientes, então algo se passa e é preciso parar. É essencial ensinar as nossas crianças a força do “pára”. Se alguém o diz, então é para parar. Vai escudá-los de ferramentas essenciais para as suas relações adultas. É essencial também que o façamos quando estamos a brincar com eles. De nada adianta ensinar isto se, depois, lhes fazemos um ataque de cócegas e nos dizem para parar e não o fazemos.

O exemplo começa em nós.

Nisto como no resto.

Somos o exemplo para tudo.

É importante que sejamos um exemplo sólido.

Não nos esqueçamos.

 

imagem@weheartit

MÃE DE UMA MENINA, É PARA E POR ELA QUE ESCREVE SEMANALMENTE, PASSANDO PARA PALAVRAS OS MAIORES SEGREDOS DO VERBO AMAR.

Autora orgulhosa dos livros Não Tenhas Medo e Conta Comigo, uma parceria Up To Kids com a editora Máquina de Voar, ilustrados por aRita, e de tantas outras palavras escritas carregadas de amor!

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