Carta a uma neta

Carta a uma neta

Carta a uma neta

O tempo, implacável no seu caminhar, rouba de mim a jovialidade de outrora e oferece-me maior discernimento e tranquilidade para olhar 0 meu estatuto de avó.

Sempre ouvi dizer que ser avó é ser mãe duas vezes. Que o estatuto de avó vem carregado de açúcar porque poderemos usufruir com os nossos netos situações de partilha onde, muitas vezes, esquecemos as regras e podemos pincelar os moldes da educação dada pelos pais, de cores suaves, mescladas de amor acriançado.

Todas as relações se constroem ao longo do tempo e as relações avós/netos é de uma importância extrema para a construção das crianças enquanto seres individuais e completos.

Quando eu for mais velha, sim, porque a velhice ainda não me chegou quero poder sentar a Inês no meu colo e dizer-lhe: Desculpa as vezes que a avó se zangou, sempre que fazias birras, desculpa quando não acedi aos teus pedidos de “Vamos brincar” ou de fazer parte ativa nos teus jogos de ”faz de conta.” Desculpa, por todas as vezes que “o educar” esteve à frente do “deixar fazer”, provocando momentos de choro em ti. Momentos de profunda dor, pois as tuas lágrimas são rasgões na minha alma. Desculpa

Mas sabes, meu amor pequenino?

Ao longo da vida aprendi que nem todos os dias são de sol, mas só poderei ver o arco íris se aceitar a chuva. Aprendi que só colhemos o que semeamos. Que a vida é para ser vivida e para isso precisamos de sonhar e que não são os obstáculos que me farão parar, que não será a visão da pele enrugada e flácida que me roubará os sonhos. Porque a minha alma continua saudável, com contornos de alma criança e acima de tudo, aprendi que nada é mais importante que SER FELIZ!

Eu vivi, ensinei, aprendi, caí, levantei-me, (re) comecei, sonhei e cheguei a algumas conclusões.

Por isso, meu amor esta Carta a uma neta.

Porque tenho de te dizer algumas sabedorias que só as avós sabem!

É preciso muita coragem para se ser feliz, meu amor pequenino! Então segue sempre o teu coração, pois é ele o fio condutor de tudo. Na incerteza de uma tomada de decisão segue o coração.

Eu vivi (o) sempre com a preocupação de ensinar à tua mãe e ao teu tio, todas as formas de poderem alcançar a felicidade. Mesmo tendo a consciência de que este mundo é um labirinto onde muitas vezes nos perdemos. O caminhar com eles de mãos dadas para que não se perdessem foi o meu objetivo principal. Contigo, Inês, eu quero percorrer esse mesmo caminho.

Não deixes nunca de sonhar. Luta para a concretização desses sonhos.
Não há impossíveis, há dificuldades.
Rege a tua vida pelo respeito por ti e pelos outros.
Valoriza as pequenas coisas. Como o sol, a folha nova que nasceu, a formiga que hoje capta a tua atenção.
Não te esqueças de estender a mão e segurar as que te pedem ajuda.
E principalmente, não te esqueças NUNCA … de SER FELIZ!

imagem@tumbrl

2 thoughts on “Carta a uma neta
  1. Feliz da Inês que pode usufruir da companhia e do amor de uma avó como tu. Feliz de mim que posso assistir a isso. Que a vida seja mansinha e nos proporcione muitos momentos juntas. Obrigada MÃE! Beijinho

  2. Na realidade ser avó ou avô é tudo o que acabei de ler!!!!! Na qualidade de avó de 13 netos, cujas idades estão compreendidas entre os 13 meses aos 17 anos, sinto e sei que tudo o que faça e que possa interagir com eles será gravado nas suas mentes para toda a vida. Ensinar as pessoas a serem felizes é uma tarefa que parece fácil…. Tive uma infância muito feliz, rodeada por múltiplos amigos/as com quem ainda hoje falo. Tive sempre imensa pena de ser filha única até porque sempre gostei de crianças. Tentei dar aos meus 3 filhos o amor, a compreensão e a ajuda de que eles precisavam. Os meus pais foram uns avós fantásticos e muito presentes nas suas vidas e, vejo agora, como foi tão bom para os meus filhos poderem contar com eles. Sempre. Quando as pessoas nos perguntam como é que temos tantos netos (sabendo que hoje em dia a vida não é nada fácil) a única coisa que respondo é que “naturalmente eles gostaram de ser filhos e netos”…… Parabéns pelo seu artigo! É muito mais importante do que alguém (que ainda não é avó) possa pensar.

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