pai desempregado

Carta de um filho ao pai desempregado

Carta de um filho ao pai desempregado

Pai, hoje recebi na minha Escola um convidado. Foi uma atividade organizada pela Biblioteca, pelas Professoras de Português. Às vezes até tenho muitas dúvidas sobre se tu e mãe têm noção da quantidade de atividades que há na Escola.

Mas não era sobre isso que queria falar contigo hoje.

O senhor falava de uma forma muito intensa, às vezes falava baixo, para logo depois levantar a voz. Não entendi se estava a fingir, ou se sentia sempre aquilo que dizia. Acho que gostei. Pelo menos, ainda me lembro da sessão e de algumas coisas que ele dizia. O problema foi quando ele falou no desemprego. Sei qual era a ideia. A ideia era dar-nos algumas pistas sobre quais são as profissões do futuro, dizendo também que nos dias de hoje são tão importantes as atitudes como os comportamentos. E foi aí que fiquei triste. E baralhado. Será que tu estás desempregado porque estás a falhar?

O senhor ainda não tinha ido embora e falei com ele. Ele tentou tranquilizar-me. Falou das dificuldades vividas até pelos grandes profissionais. O desemprego está a tocar a todos. Licenciados, não licenciados, homens, mulheres, pessoas com e sem capacidades de “comunicação interpessoal”…ele falava muito nestas palavras. Comunicação interpessoal…

Gostava de te dizer que é natural estares triste. É natural estares zangado. É comum essa mistura de sentimentos. E toda a nossa família está em choque com a situação. Acredita pai. Mas há uma coisa que gostava de te pedir. Nunca me mostres que estás “descontrolado”. Preciso que tenhas esperança. Vou alimentar a minha esperança na tua esperança. Vou ter força na tua força. Vou ter fé na tua fé.

Gostava de te dizer que é uma injustiça. (Carta de um filho ao pai desempregado)

Depois de tudo o que passaste, depois da tua dedicação. Mas há outro pedido. Vamos sair juntos desta situação? Por favor levanta-te cedo e veste-te bem bonito como só tu sabes. Faz a tua barba e põe aquele perfume que a mãe te deu. Se puderes, levas-me à Escola. E depois fazes o teu trabalho! O teu trabalho agora é, infelizmente, procurar trabalho.

Procura pai! Com força! Com brilho nesses teus olhos castanhos. Sei que não é fácil. Ou melhor, não sei. Mas acredita, tento imaginar.

Gostava de te dizer que o mundo parece estar de cabeça para baixo. Porquê a nós? Vai ser para sempre? Sei que gostas de ver o Benfica, sei que é importante teres algo com que te distrair mas procura organizar-te, pesquisa mais uma vez. Preciso que sejas o meu farol, o meu abrigo.

Gostava de te dizer que às vezes me apetece chorar. E também já vi a mãe a chorar. Caramba! Mas também preciso lembrar-te da tua frase preferida. Dizes que a mãe é a mulher da tua vida. Ajuda-a a ajudar-te pai. Lá em casa também há coisas que podes fazer.

Sei que deve ser aborrecido, mas depois quando o emprego vier, vais sentir falta do tempo disponível para arranjar o candeeiro do meu quarto, a minha escrivaninha, ou a casota do cão.

Gostava de te dizer que não concordo com o avô quando ele diz que “as pessoas não querem trabalhar”. Tu esforças-te tanto. Mas é importante teres essa firmeza e esperança. Acho que até pode ser bom para as entrevistas de emprego. Não achas pai?

Vou tentar ser ainda melhor aluno, vou tentar ler mais.

Vou tentar desenvolver também os meus valores, aquelas coisas capazes de nos dar norte quando estamos perdidos. Aprendo tanto contigo pai. E não gosto de te ver triste. Também não concordo com a tia Dolores quando ela diz “os homens não choram”. Choramos. Mas não quero chorar mais por te ver desorientado. Preciso de segurança.

Gostava de te dizer que às vezes nos sinto sozinhos. A quem podemos pedir ajuda? Sem medo. Sem orgulho. Vamos por o orgulho de parte e vamos pedir ajuda. Talvez, como uma boa conversa, o avô Geraldes possa ajudar.

Já agora, quero também agradecer-te. Sei que nem é preciso. Mas o esforço que fizeram para eu poder ir à visita de estudo, foi excelente. O empenho quando me ajudas a fazer a mala para a escola. As perguntas “vê lá se te falta algum livro”, “vê lá se é preciso dinheiro para o lanche” dão-me um conforto gigante. Assim do tamanho do meu amor por ti.

Sei que ainda pensaste abrir um negócio. Será mesmo verdade que os bancos só emprestam aos ricos? Bem, se isto for verdade, fico desmotivado.

Será por seres um pai desempregado? Só por seres um pai desempregado?

Se mesmo estudando posso vir a ser um sem abrigo (eu sei que posso) então de que adianta? Preciso de esperança. Se os bancos só emprestarem aos ricos, se estivermos “tramados” como ouvi no outro dia, se a única solução “é sair o euromilhões”, se a única saída for “sair do país”, como vou ter força para estudar e para ultrapassar as minhas dificuldades?

Sonhei que domingo de manhã fomos dar um passeio em família. A mãe tinha feito refresco de café e levámos umas batatas caseiras. Sonhei com o teu sonho recuperado, a tua fé restabelecida, essa montanha escalada, esse sorriso de novo no teu rosto. Sonhei com raiva, com tristeza, mas nunca com desorientação. Sonhei com o céu pintado de um azul esverdeado. Azul esperança. E eu que até nem gosto do verde. Nem do azul. 🙂

 

Gosto de iniciativas “sem tretas” e com alma. Como a Up to Kids, por exemplo.

A criação do Mundo Brilhante permite-me visitar escolas de todo o país e provocar os diferentes públicos para poderem melhorar. Agitamos. Queremos deixar marcas.

8 thoughts on “Carta de um filho ao pai desempregado
  1. Pode ser pai como pode ser mãe… E o passar dos dias, semanas, meses e anos a fio vão trazendo tanto desanimo, falta de esperança, desalento e por fim revolta. E os mais prejudicados são sempre os filhos, cujo horizonte fica negro e a esperança no futuro é tão pequena senão nula. Que sociedade iremos ter daqui a 5, 10 anos? Que cicatrizes irão sulcar as mentes e os corações? Infelizmente deixei de acreditar no futuro e nada destrói mais um ser humano que esse sentimento…

  2. A interpretação que faço é de um pai que faz apenas o mínimo para sair da situação que está. A espera que o governo lhe de a oportunidade que ele acha que merece.
    Não estou com isso a dizer que não existem muitas coisas que precisam e devem ser feitas para melhorar o país, mas não é só o governo que precisa mudar de mentalidade.
    Em situações difíceis temos que ser positivos, criativos e ter a mente aberta a novos desafios. Engenheiros, professores, médicos e etc são capazes de exercer outras atividades para além destas..
    Não é fácil, nem é garantido que seja apenas isto o necessário, mas é um bom começo

  3. Infelizmente esta é uma realidade que bate à porta de muitas famílias. Esta situação é o pão nosso de cada dia … os filhos a ver os pais impotentes ..

  4. Sendo uma história fictícia e nada tendo que ver com futebol, tinha que dizer-se não se gostar do verde e do azul. Santa paciência,

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