desenvolvimento da criança

Desenvolvimento da criança: a mania da comparação

Desenvolvimento da criança: A mania da comparação

Há dias, numa comunidade de mães de gémeos, falava-se da idade com que as nossas doses duplas (ou mais) começaram a andar.

Senhores! Foi a loucura total e aposto um dedinho em como houve gente a mentir com os dentes todos (postiços ou naturais). Deu-me logo vontade de responder que, de facto, como belos exemplos de mamíferos que somos, se as nossas crias não começarem a andar até 6h depois de nascerem, é para abate. Por isso, sim, nesta ótica, as minhas gémeas começaram a andar às 5h de vida (vá, para não ser ali no limite).

Outra maravilha da natureza infantil é o começar a falar.

Senhores! Mais uma vez, isto é algo extraordinário! Já havia primeiras palavras quase 24h depois de nascerem! Inédito e digno de estudo! Mais uma vez se vê aqui, que, se de facto, não acontecer até x tempo depois do parto, há de vir um animal selvagem qualquer comer-nos as crias.

As mães são os seus piores inimigos.

Devíamos ser fonte de experiências REAIS e dignas de entreajuda umas para com as outras, em caso de necessidade. Se não fosse o meu conhecimento prévio de desenvolvimento de gémeos – porque os meus vizinhos da frente passavam quase tanto tempo em nossa casa como em casa deles e eu vi-os crescer – eu não iria saber aplicar esse desenvolvimento às minhas gémeas. O desenvolvimento gemelar, em especial de gémeos prematuros com necessidade de incubadora – como era o caso deles -, não é igual ao desenvolvimento de um bebé singleton (um bebé que não partilha o ventre com outro). E desse desenvolvimento tinha eu conhecimento que sobejava; eu precisava era de comparação de desenvolvimento de gémeos.

Muitas mães recorrem a outras nesta esperança: encontrar nas parceiras mais experientes algo que as ajude. Mas, na realidade, encontram é uma competição feroz, exagerada e pouco realista, como se o desejo humano maior fosse a sobredotação da criança – que, aviso desde já, é também uma neurodivergência: ser sobredotado não é algo típico do desenvolvimento da criança e nem sempre é algo maravilhoso.

Eu, sinceramente, lamento que assim seja.

Na altura em que me virei para outras mães, falando das minhas gémeas, poucas me davam crédito ou ajudavam. Sim, havia coisas extraordinárias que elas faziam (como distinguir cores aos 3 meses e encaixar peças geométricas aos 7 meses) mas foram não verbais quase até aos 4 anos e tal, começaram a andar tarde (pelos 14 meses), tinham hiperatividade, e um desfasamento de desenvolvimento muito atípico. Ninguém viu isto, apenas de focaram no que era superior. E, pouco ajudada e sem paciência nenhuma para competições parvas entre mães de crianças neurotípicas, saí de todos os grupos de mães, afastei-me das redes sociais por alguns anos e votei-me ao isolamento.

Não há pachorra para isto.

O desenvolvimento, o crescimento, a maturidade não são uma corrida desenfreada para ver quem chega ao final da grelha do pediatra com os certinhos todos no sítio certo. E, seguramente, não há nenhuma taça ou medalha para quem lá chega em primeiro ou em último. Não façamos disso uma coisa tola, sem nexo e irrealista. Ninguém acredita que uma criança possa falar aos 3 meses de idade – a menos que tenha alguma perturbação neurológica – ou que comece a andar aos 6 meses. Isto não é uma corrida, não tem de ser uma competição.

Ah, e para quem gosta tanto de grelhas de desenvolvimento, deixo só esta informação, vinda de quem já levou com bastantes ao longo destes 13 anos: todas elas se regem pelo que é padrão, comum, típico, standard. A menos que a vossa criança precise de uma grelha de avaliação específica para determinada condição. E isso, senhores, acredito que ninguém quer.

Um T2. Uma família que passa de 2 para 4. Um duplo diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo.

O esforço de manter uma vida normal em tempos difíceis, a vários níveis… Em suma, uma aventura vivida a 4.

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