A bussola do nao

A bussola do nao

A bússola do “não”

“O Henrique tem 4 anos acabados de fazer e, como tal, uma persistência gigante para alcançar o que quer. Hoje, no jardim-de-infância, o dia não lhe correu muito bem … Numa ida com a sua turma a uma feira temática, o Henrique encantou-se por um carrossel e quis, de imediato, andar nele. A senhora do carrossel disse-lhe que era só para meninos a partir dos 5 anos e o Henrique retorquiu, de “cara feia”: “Mas eu já sou crescido! E tenho quase 5 anos!”. A Educadora explicou-lhe, então, que sim, ele era crescido, mas que havia meninos ainda mais crescidos e que aquele carrossel era perigoso, poderia magoar-se. Além disso, havia um outro carrossel para meninos igualmente crescidos como ele, no qual os meninos mais velhos não podiam andar – era especial só para os meninos de 4 anos. O Henrique lá aceitou. No final do dia, quando a mãe do Henrique o foi buscar, ele prontamente lhe contou o sucedido, choramingando que a Educadora não o havia deixado andar no carrossel que queria. A mãe, abraçando-o e olhando para a Educadora, respondeu: “Pois é, meu fofinho, já és crescido! Sabe, nessas situações, eu costumo dizer que ele já tem quase 5 anos, porque assim pode ser que eles deixem… Depois, voltamos lá noutro dia e vemos se a senhora te deixa andar, está bem meu fofinho?”.

As crianças são muito espertas, mas isso já nós sabemos.

Sabemos também que têm um dom particular de nos levarem a fazer o que querem, a lutar com “unhas e dentes” (por vezes, literalmente) para marcar a sua posição. Conseguem levar-nos ao extremo do nosso limite de paciência, deixando-nos “à beira de um ataque de nervos”, com os cabelos em pé. Conseguem também fazer pairar na nossa cabeça um “eu queria dizer que não, mas não consigo” (cantarolado ao jeito da canção conhecida que passa nas rádios) a cada “olhar de Gato-das-Botas do Shrek” que nos lançam. É relativamente fácil sentirmos culpa cada vez que temos de as contrariar.

As palavras “Sim” e “Não”

Queremos, fundamentalmente, que as “nossas” crianças cresçam felizes, sejamos pais, cuidadores ou educadores. As palavras “sim” e “não” pertencem a essa esfera. Porém, parece-nos muito mais fácil utilizar o “sim”. Então, porque é que a palavra “não” custa tanto a aplicar? Numa perspetiva lógica e racional, a palavra “não” tem tantas letras quanto a palavra “sim” e ocupa exatamente o mesmo tempo de discurso. Já o impacto emocional e comportamental de cada uma delas é diferente.

A Bússola do “Não”

O “não” funciona como uma excelente bússola. As suas coordenadas ajudam as crianças, e também os adultos, a situarem-se a nível emocional e comportamental. Enquanto adultos, temos o dever de encaminhar as crianças no caminho certo para o seu “norte”, para os seus objetivos, para que o seu desenvolvimento ocorra da forma mais equilibrada e saudável possível. Aliás, as crianças pedem-nos essas coordenadas de crescimento a cada birra, a cada comportamento de oposição, a cada finca-pé.

Aprender a ouvir e a lidar com o “não” é tão essencial como a água para o nosso corpo. Aprendemos a relacionar-nos de forma mais adequada com o mundo que nos rodeia, melhorando a nossa tolerância à frustração (um dos segredos para seres humanos mais felizes).

Os benefícios do “Não”

São vários os benefícios que daí advêm:

  • maior resiliência
  • maior capacidade de adaptação aos inúmeros desafios da vida, em diversos contextos
  • maior autoestima
  • maior conhecimento dos limites na relação Eu-Outro
  • maior respeito pelo mundo envolvente
  • maior inteligência e equilíbrio emocional

No geral, a nossa tendência natural é querermos colocar as nossas crianças num redoma de vidro, numa espécie de “bolha de proteção mágica” para protegê-las de todo o mal do mundo. Muitas vezes de forma inocente, sem nos apercebermos das consequências futuras. Sabemos o quão desafiante pode ser a tarefa de ajudar uma criança a crescer, no meio de uma vida atarefada, agitada e igualmente exigente para nós, adultos.

Quantas vezes nos sentimos cansados depois de um longo dia de trabalho, que a nossa vontade é dizer que “sim” a tudo, talvez para compensar a nossa ausência física e afetiva e também para não termos de nos “chatear”, porque a paciência se esgota? Quantas vezes cedemos, mesmo depois de uma decisão tomada, porque nos “dói a alma” ver a criança chorar? E quantas vezes já nos apercebemos das “manhas” a que a nossa pequenada recorre para “levar a água ao seu moinho”?

As consequências do “sim”

As consequências da nossa dificuldade em dizer “não” far-se-ão sentir a cada etapa de desenvolvimento até à idade adulta, passando por adolescentes rebeldes, adultos infantilizados e desconhecedores dos limites do Outro, para quem tudo é negociável e tem de corresponder às suas exigências e expectativas, e ainda adultos acomodados às pressões exteriores, que cedem facilmente.

Colocar em prática

Como colocar, então, em prática a bússola do “não” de forma consistente e equilibrada?

Eis algumas sugestões (ter em atenção a idade da criança):

  • ser consistente, coerente e firme: não ceder constantemente à insistência da criança. A incoerência do adulto leva ao desenvolvimento de magníficas artimanhas de manipulação emocional.
  • desdramatizar ou o chamado “keep it simple: quando algo não corre como o desejado, evitar atribuir um peso emocional muito forte, conversando tranquilamente sobre o que não correu bem e pensando em estratégias para que, futuramente, corra melhor.
  • ensinar a esperar: ensinar que tudo tem o seu tempo e que, nem sempre, podemos ter o que queremos e quando queremos.
  • lembre-se: enquanto Adulto é o exemplo para a criança – é o seu modelo, funciona como espelho. A tendência natural das crianças é imitar, seguir o exemplo de quem é importante para si. É essencial adoptar um comportamente congruente, ensinando que os “nãos” e a frustração fazem parte da vida e, como tal, não são “o fim do mundo”.

É importante termos em mente que não há soluções mágicas e universais e que cada criança é uma criança e que todas merecem crescer com respeito e afecto. Merecem (e precisam!), igualmente, de balizas emocionais que as ajudem a ser mais equilibradas … porque serão, certamente, mais bem sucedidas ao longo da sua vida!

 

Por Alexandra Pinto, Psicóloga Clínica da Horas de Sonho, apoio à criança e à família, crl

 

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