Aquisição e desenvolvimento de linguagem mês a mês

Desde sempre que o processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem tem sido alvo de inúmeros estudos, não fosse a linguagem vista por muitos como “a janela do conhecimento humano”. Muitos foram os que a consideraram como uma capacidade inata. No entanto, actualmente sabe-se que o seu desenvolvimento depende de questões neurobiológicas e sociais, isto é, da interacção entre as características neurobiológicas de cada criança e a qualidade dos estímulos do meio em que está inserida (Mouzinho et al, 2008).

É incrível a capacidade do ser humano de, sem esforço e em apenas 40 meses, evoluir de um simples choro (como forma de comunicar que tem fome) para a frase “Gostava tanto de comer um gelado!”, provida de sofisticação gramatical e pragmática. Embora rápido, é um processo dotado de grande complexidade (Sim-Sim, 1998). Mas afinal, o que é isto da linguagem? Entende-se por linguagem “um sistema complexo e dinâmico de símbolos convencionados, usado em modalidades diversas para [o homem] comunicar e pensar”(A.S.H.A., 1983). Se pensarmos bem, falar implica uma vasta diversidade de processos. Necessitamos de ouvir, processar o que ouvimos, pensar, recorrer a símbolos para expressar o nosso pensamento, escolher as palavras adequadas, construir frases, utilizar de forma correcta os músculos para articular as palavras e ainda regular a capacidade respiratória… E tudo isto numa fracção de segundos.

À semelhança do que sucede no desenvolvimento das outras áreas, também na linguagem o desenvolvimento é gradual e o ritmo não é o mesmo em todas as crianças. No entanto, existem alguns marcos deste processo. Assim:

  • 1/4 meses
    Começa a palrar, produzindo vogais e posteriormente algumas consoantes como p, b, k, g. Reage aos sons e dirige o olhar e/ou cabeça na direcção dos mesmos;
  • 4/6 meses
    Começa a reconhecer o próprio nome e entende quando está a ser chamado. Começa a distinguir os rostos conhecidos dos rostos estranhos. Responde com tons emotivos à voz materna e inicia a fase do balbucio. Produz uma maior variedade de vogais e consoantes, produzindo sílabas do tipo consoante-vogal sem mudar a consoante (por ex: “dudadá”);
  • 6/8 meses
    Começa a fazer jogo vocal, aumenta o reportório de sons e experimenta diferentes combinações de sílabas (por ex: “pabada”);
  • 8/12 meses
    Começa a tentar repetir e imitar tudo o que ouve, desenvolve a sua intenção comunicativa e começa a utilizar um discurso aproximado do real, usando a entoação e um conjunto de sílabas com diferentes funções comunicativas (chamar a atenção, questionar e protestar) e já reconhece algumas palavras do seu quotidiano (por ex: bola; carro; rua; não);
  • 12/18 meses
    Uso repetido do mesmo som para um determinado significado, produz as primeiras palavras, reconhece o nome de pessoas próximas, objectos e partes do corpo, compreende ordens simples (por ex: diz adeus; dá o carro). No final desta etapa, a criança já imita palavras e os sons de objectos e animais e utiliza cerca de 8/10 palavras relacionadas com o seu dia-a-dia;
  • 18/24 meses
    Utiliza uma linguagem simples e directamente ligada às descobertas sensório-motoras, começa a utilizar algumas regras de comunicação (entoação e turnos de comunicação) e recorre a diferentes formas de comunicação não verbal para chamar a atenção (apontar, olhar e tocar). Utiliza a linguagem enquanto brinca, frequentemente fazendo monólogos com uma linguagem própria e de difícil compreensão. Compreende e responde a perguntas simples (por exe: tens fome?; o que é aquilo?), faz pedidos e o seu vocabulário aumenta de forma explosiva.No final desta etapa, surgem as primeiras combinações de palavras, dando origem a um discurso telegráfico (por ex: “João rua”; “João dá”);
  • 24/36 meses
    Compreende cerca de 300 palavras e a cada dia que passa o seu vocabulário aumenta, começa a adquirir regras e padrões básicos da organização da estrutura frásica da linguagem, utiliza frases de duas ou três palavras e começa a generalizar enunciados de três palavras, formando frases na ordem correcta (sujeito/verbo/objecto), como por exemplo “Maria quer água” ou “mãe dá colo”;
  • 3/4 anos
    Utiliza frases mais complexas com 3 ou mais palavras, adquire regras de concordância (número e género), começa a questionar tudo (idade dos “porquê’s”);
  • 4/5 anos
    Expressa-se bem através de um discurso mais complexo, utilizando frases mais elaboradas. A articulação verbal pode ainda não ser totalmente correcta.Embora todo este processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem seja natural, podemos e devemos estimulá-lo.
    Como? Proporcionando experiências interactivas mais ricas.
    Eis algumas ideias:

    • Falar e associar alguns gestos do quotidiano (por ex: olá; adeus; vem cá; ali; em cima);
    • Dizer o nome do que está à vossa volta, para que serve e alguma característica observável (por ex.
      cor, tamanho);
    • Descrever as actividades do dia-a-dia, diversificando e adequando o vocabulário;
    • Ler livros e contar histórias;
    • Incentivar o brincar e o cantar;
    • Ir ao teatro ou ao cinema e depois discutir a história.Em síntese: Fale! Fale muito com a sua criança!Se identificar uma criança cujo desenvolvimento da linguagem não esteja de acordo com a sua idade, deverá recomendar uma avaliação em terapia da fala.

 

Por Joana Firmino, Terapeuta da Fala, para Up To Kids®
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