Nunca tivemos uma geração tão triste

A sobrecarga escolar e social das crianças é uma preocupação crescente para os pais e educadores. Dos diversos artigos de especialidade que li, a opinião da maioria dos educadores e psicólogos é unânime: as crianças precisam de menos  brinquedos e mais tempo com os pais, precisam de menos trabalhos de casa e mais tempo de brincadeira, precisam de menos individualismo e mais tempo para sociabilizar com os amigos, menos tempo entre paredes e mais tempo no exterior.

Em primeiro lugar, as crianças precisas de ser crianças.
As crianças precisam de ser felizes para poderem crescer saudáveis e terem capacidade de assimilar uma educação sólida que começa em casa, continua na escola, e passa por todos os hobbies e experiências vividas. As atividades extracurriculares, principalmente quando são escolhidas pela criança, são também extensões desta aprendizagem. Mas não nos prendamos à ideia de que as crianças têm imenso tempo de brincadeira porque têm atividades todos os dias. Essas atividades, e que considero de extrema importância para o desenvolvimento da criança (mais uma vez reforço que parto do principio que a criança gosta e quer realizar a actividade e não lhe é imposta pelos pais) fazem parte de uma rotina associada às obrigações e afazeres. O meu filho adora as suas aulas de teatro, mas quando chega a casa, antes de fazer os TPC quer brincar um bocadinho porque sente que teve o dia todo preenchido com obrigações. De seguida, as tarefas de casa a realizar antes do dia acabar: os banhos, os TPCs, o Jantar, a hora de ir para a cama que já começa a atrasar… Tudo isto causa algum stress nas crianças principalmente quando nós, pais, começamos a ver a rotina a descarrilar e, inconscientemente, pressionamos (nem sempre da melhor forma), os nossos filhos a viverem num ritmo que não é aconselhável para a idade.

Depois, quando temos tempo, muitas vezes, queremos que os miúdos se entretenham com gadgets ou televisão (porque de outra forma estão aborrecidos) para podermos, também nós, fazer qualquer coisa que andamos a adiar há tempo demais, nem que seja relaxar cinco minutos! E que exemplo transmitimos aos nossos filhos? Será que com tanta obrigação estamos a criar reféns de uma educação programada e dependente dessas rotinas? Ou saberão os nossos filhos fazer uma pausa e usufruir dos pequenos prazeres do dia a dia?

O famoso psiquiatra brasileiro Augusto Cury, que lançou recentemente uma versão do  livro Ansiedade – Como Enfrentar o Mal do Século, numa conversa sobre os desafios de se criar filhos hoje em dia, não poupou críticas à forma como a família e a escola têm educado os miúdos.

Deixo-vos os 8 pontos essenciais assinalados pelo especialista:

«Excesso de estímulos
“Estamos assistindo ao assassinato coletivo da infância das crianças e da juventude dos adolescentes no mundo todo. Nós alteramos o ritmo de construção dos pensamentos por meio do excesso de estímulos, sejam presentes a todo momento, seja acesso ilimitado a smartphones, redes sociais, jogos de videogame ou excesso de TV. Eles estão perdendo as habilidades sócio-emocionais mais importantes: se colocar no lugar do outro, pensar antes de agir, expor e não impor as ideias, aprender a arte de agradecer. É preciso ensiná-los a proteger a emoção para que fiquem livres de transtornos psíquicos. Eles necessitam gerenciar os pensamentos para prevenir a ansiedade. Ter consciência crítica e desenvolver a concentração. Aprender a não agir pela reação, no esquema ‘bateu, levou’, e a desenvolver altruísmo e generosidade.”

Geração triste
“Nunca tivemos uma geração tão triste, tão depressiva. Precisamos ensinar nossas crianças a fazerem pausas e contemplar o belo. Essa geração precisa de muito para sentir prazer: viciamos nossos filhos e alunos a receber muitos estímulos para sentir migalhas de prazer. O resultado: são intolerantes e superficiais. O índice de suicídio tem aumentado. A família precisa se lembrar de que o consumo não faz ninguém feliz. Suplico aos pais: os adolescentes precisam ser estimulados a se aventurar, a ter contato com a natureza, se encantar com astronomia, com os estímulos lentos, estáveis e profundos da natureza que não são rápidos como as redes sociais.”

Dor compartilhada
“É fundamental que as crianças aprendam a elaborar as experiências. Por exemplo, diante de uma perda ou dificuldade, é necessário que tenham uma assimilação profunda do que houve e aprender com aquilo. Como ajudá-las nesse processo? Os pais precisam falar de suas lágrimas, suas dificuldades, seus fracassos. Em vez disso, pai e mãe deixam os filhos no tablet, no smartphone, e os colocam em escolas de tempo integral. Pais que só dão produtos para os seus filhos, mas são incapazes de transmitir sua história, transformam seres humanos em consumidores. É preciso sentar e conversar: ‘Filho, eu também fracassei, também passei por dores, também fui rejeitado. Houve momentos em que chorei’. Quando os pais cruzam seu mundo com os dos filhos, formam-se arquivos saudáveis poderosos em sua mente, que eu chamo de janelas light: memórias capazes de levar crianças e adolescentes a trabalhar dores perdas e frustrações.”

Intimidade
“Pais que não cruzam seu mundo com o dos filhos e só atuam como manuais de regras estão aptos a lidar com máquinas. É preciso criar uma intimidade real com os pequenos, uma empatia verdadeira. A família não pode só criticar comportamentos, apontar falhas. A emoção deve ser transmitida na relação. Os pais devem ser os melhores brinquedos dos seus filhos. A nutrição emocional é importante mesmo que não se tenha tempo, o tempo precisa ser qualitativo. Quinze minutos na semana podem valer por um ano. Pais têm que ser mestres da vida dos filhos. As escolas também precisam mudar. São muito cartesianas, ensinam raciocínio e pensamento lógico, mas se esquecem das habilidades sócio-emocionais.”

Mais brincadeira, menos informação
“Criança tem que ter infância. Precisa brincar, e não ficar com uma agenda pré-estabelecida o tempo todo, com aulas variadas. É importante que criem brincadeiras, desenvolvendo a criatividade. Hoje, uma criança de sete anos tem mais informação do que um imperador romano. São informações desacompanhadas de conhecimento. Os pais podem e devem impor limites ao tempo que os filhos passam em frente às telas. Sugiro duas horas por dia. Se você não colocar limite, eles vão desenvolver uma emoção viciante, precisando de cada vez mais para sentir cada vez menos: vão deixar de refletir, se interiorizar, brincar e contemplar o belo.”

Parabéns!
“Em vez de apontar falhas, os pais devem promover os acertos. Todos os dias, filhos e alunos têm pequenos acertos e atitudes inteligentes. Pais que só criticam e educadores que só constrangem provocam timidez, insegurança, dificuldade em empreender. Os educadores precisam ser carismáticos, promover os seus educandos. Assim, o filho e o aluno vão ter o prazer de receber o elogio. Isso não tem ocorrido. O ser humano tem apontado comportamentos errados e não promovido características saudáveis.”

Ler também O pricípio da Caneta verde

Conselho final para os pais
“Vejo pais que reclamam de tudo e de todos, não sabem ouvir não, não sabem trabalhar as perdas. São adultos, mas com idade emocional não desenvolvida. Para atuar como verdadeiros mestres, pai e mãe precisam estar equilibrados emocionalmente. Devem desligar o celular no fim de semana e ser pais. Muitos são viciados em smartphones, não conseguem se desconectar. Como vão ensinar os seus filhos e fazer pausas e contemplar a vida? Se os adultos têm o que eu chamo de síndrome do pensamento acelerado, que é viver sem conseguir aquietar e mente, como vão ajudar seus filhos a diminuírem a ansiedade?”  »- Liliane Prata, em M de Mulher – 

imagem@psychone

5 thoughts on “Nunca tivemos uma geração tão triste
  1. Sem dúvida que há espaço para melhorarmos as condições psicológicas e sociais das novas novas gerações e seguintes (é deve ser uma das prioridades). Mas historicamente já tivemos gerações mais tristes, mergulhadas em (maiores doses de) violência, injustiça, ignorância e probreza.

    1. É um facto! Mas tendo em conta a sociedade atual…

  2. Jussara Nascimento diz:

    Concordo com a maioria das questões. Tenho 3 filhos , eu e meu marido nos preocupamos muito em brincar com eles e o fazemos todos os dias. Existem atividades fora da escola, porém não são cheios de atividades e têm bastante tempo para brincar em casa. O tempo de TV e demais entretenimentos virtuais são bem controlados.

    Porém discordo com o ponto que coloca esta geração como a mais triste. Sem dúvidas, passamos por uma mudança drástica, que envolve maior capacitação e resultados o tempo inteiro, causando ansiedade e depressão, que se apresentam como o mal do século.

    Porém até pouco tempo atrás, ainda no século XX, as crianças não podiam falar, os pais pouco conversavam com elas, apanhavam com frequencia, eram repreendidas o tempo inteiro e curiosidade era visto como uma coisa errada (vide o filme Alice no Pais das Maravilhas). Minha mãe que nasceu em 1933 era uma criança curiosa. Vivia ficando de castigo. Somente o professor dela esclarecia suas dúvidas.

    Hoje as crianças têm voz, conversam, discutem e certamente são muito mais felizes do que as que nasceram da década de 40 para trás. Provavelmente as doenças que detectamos hoje como de maior frequencia não eram detectadas com facilidade antigamente.

  3. Ricardo Santos diz:

    E no entrando aqui estou eu no meu smartphone a consumir esta informação 🙂

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