A realidade de ser psicomotricista em contexto escolar

A realidade de ser psicomotricista em contexto escolar

A realidade de ser psicomotricista em contexto escolar

“Olá! Bom dia! Então e estás a ir para onde agora?”

É assim que invariavelmente os meus dias começam. Integro dois projetos: o projeto SER e o projeto Mente Brilhante. Tenho a sorte de em ambos os projetos trabalhar com pessoas incríveis. Pessoas que têm a mesma visão que eu sobre a infância. Pessoas que se esforçam ao máximo para que as crianças com que trabalhamos sejam a nossa prioridade no seu todo. Estes são projetos que se focam sobretudo no contexto escola, com alguns domicílios e algumas parcerias com clínicas, mas o meu dia-a-dia é sem dúvida na escola.

Isto faz com que tenha de intervir sobretudo com crianças em meio escolar. Óbvio, e sobretudo que me tenha de deslocar à escola em questão.

Apesar de ambos os projetos terem uma área primordial de intervenção e parcerias, a verdade é que nenhuma criança fica de fora. Assim sendo, se alguma família ou escola nos contactar para o início de intervenção, desde que exista horário e que as condições sejam garantidas, a intervenção começa. Ora, esta para mim é a primeira grande vantagem. Eu sei que na minha intervenção as crianças não ficam de fora por estarem numa zona com menos clínicas ou com menor acesso a recursos ou pelos horários dos pais. No entanto, apesar de efetivamente ser uma vantagem, tem também um lado não tão positivo.

Existem dias em que estou no carro a módica quantia de 3 horas. Entre sair de casa, transporte entre sessões e deslocamento para casa de novo, e sim, é cansativo… Pelo menos é o suficiente para não querer conduzir nada durante o fim de semana. O facto de as crianças mudarem de escola, de residência ou dos pedidos virem de sítios diferentes é enriquecedor pelos profissionais e famílias com que nos cruzamos, mas por outro lado, também significa que temos grande parte do nosso horário laboral passado na estrada e que temos de estar constantemente num exercício de corte e costura, para não interferir com as restantes atividades da criança.

Isto leva a um outro ponto tanto positivo, como negativo.

Os materiais de intervenção.

Todas as escolas têm recursos diferentes ou espaços de intervenção diferentes. Apesar de nas sessões de psicomotricidade a criança poder ter um papel decisivo na escolha de atividades e planeamento de decisão, o psicomotricista deve saber o que tem à disposição para a orientação da sessão. O facto de algumas sessões serem dadas numa sala de aula comum faz com que tenha de existir um investimento grande em materiais de intervenção. Há que transformar todos os espaços em espaços terapêuticos. Isto requer acima de tudo um custo adicional para o terapeuta. Significa que o seu meio de transporte se parece com uma loja de brinquedos. Mas também dá um grande poder ao terapeuta sobre os materiais que usa e quais coloca ou não à disposição em cada sessão.

Não só os materiais disponíveis diferem de escola para escola, como a própria escola em si é variável.

Existem escolas com exigências específicas para a entrada de pessoas externas e que podem ou não facilitar a entrada de terapeutas. Existem escolas que são uma porta aberta a quem quiser prestar serviços.

Existem escolas que têm salas específicas para intervenção. Outras que são privadas desses recursos, levando a exercícios de criatividade para criar um espaço terapêutico para as crianças. Mesmo a nível de necessidades.

Existem escolas que apresentam todos os recursos possíveis para intervenção e com poucas crianças que o necessitem. Existem escolas privadas de recursos, ou com espaços já antigos e a necessitar de serem reestruturados. Mas que têm muitas crianças a necessitarem de intervenção. A junção de horários e o jogo de cintura necessário para todos co-existirem é uma tarefa que requer muito tempo, aceitação e adaptação dos diversos profissionais.

A escola é um lugar de intervenção

A escola é um local de intervenção privilegiado no sentido do conhecimento do ambiente em que a criança se insere.

Ao ir à escola em vez de ir para uma clínica estou, no fundo, a rentabilizar o tempo da criança. Assim, não é obrigada a andar em deslocamentos desnecessários. Por outro lado, estou a evitar que a criança entre no ambiente clínico. Este é muitas vezes difícil de dissociar de um ambiente médico e de doença. Depois, estou a conhecer a criança num dos ambientes em que passa mais tempo sem invadir a sua privacidade.

O domicílio também tem diversas vantagens. Além do mais permite um trabalho num ambiente ecológico e natural. No entanto, para algumas crianças, torna-se difícil estabelecer limites e aceitar a presença do terapeuta num ambiente que a criança sente como só dela. Não é o mesmo na escola. Na escola a criança aprende e molda-se segundo o que é expectável para a sua faixa etária e fase do desenvolvimento, sendo mais fácil a aceitação do tempo para “trabalhar” terapeuticamente, no espaço que a criança já vê seu como de trabalho.

As necessidades das crianças

Claro que esta questão não é linear, e por vezes a terapia em contexto escolar expõe, por exemplo, as necessidades da criança perante os colegas. Pode ainda não permitir uma separação das suas dificuldades do contexto escola para os restantes contextos, e ainda, caso a vivência escolar seja negativa, pode ser visto como um entrave para o estabelecimento de relação.

Contudo, é na escola que estão grande parte dos intervenientes educativos, é na escola que os pais vão pôr e buscar, facilitando a comunicação, e é na escola que a criança passa grande parte do seu dia. Apesar de ser algo que está em constante debate, e sobre o qual ainda há tanto a dizer, para mim trabalhar na escola é tanto um desafio como um privilégio, e sou uma sortuda pelas escolas que me abrem as portas.

 

Com uma vontade de saber interminável e uma vontade de partilhar ainda maior sobre a temática infantil, educação e saúde mental.

Da necessidade de comunicar com os pais, educadores e restantes intervenientes nasceu a plataforma Terapeuta Ana Fonseca que não é nada mais do que uma forma de comunicação sobre a temática mais fascinante do mundo: as crianças.

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