Tu vais escrever tudo o que dizemos, no quadro?

O Tiago estava curioso com a filosofia. Tem 9 anos e consta, lá em casa, que só as pessoas mais crescidas é que têm aulas de filosofia. Em conversa com a sua colega de turma, a Mariana descobriu que há quem goste de filosofia: “A minha irmã diz que é uma coisa que a inspira muito”, dizia a Mariana , em voz alta, para todos ouvirem.

Uma das coisas que acontecem nas minhas aulas de filosofia – e que se recomenda na prática da filosofia para crianças – passa pelo registo, no quadro ou em folhas de papel de cenário – dos diálogos que acontecem em sala. As crianças acabam por ver o processo de pensamento a acontecer – coisa que é muito abstracta e por isso deve ser assinalada de forma palpável/visível. Além disso, acontece uma magia ao escrever os pensamentos das crianças no quadro: é que a rotina escolar já lhes ensinou que aquilo que se escreve no quadro deve ser mesmo muito importante. Sejam os textos a trabalhar, as contas que estamos a aprender ou a indicação dos TPC a fazer. É algo que é importante e por isso fica num sítio que todos podem ver: o quadro.

Por isso, a dada altura, o Tiago levantou o braço.

“Tenho uma pequena pergunta para ti”, disse-me.

Muito bem. E a tua pergunta tem a ver com aquilo que estamos a falar na aula ou é outra coisa?

Tem mais a ver com a aula. Posso?

Claro que sim, disse eu. Há coisas que só se percebem pela expressão dos meninos, a postura. E era nítido que havia uma perguntar a “incomodar” o Tiago.

Tu vais escrever tudo o que dizemos, no quadro?”, perguntou.

Obrigada pela pergunta, Tiago. Posso propor-te uma coisa? Vais observar, tal como fizeste até agora, aquilo que eu escrevo no quadro. Daqui a umas semanas voltamos a falar neste assunto e eu vou dar-te uma resposta. Pode ser?

E o Tiago disse “Combinado”.

O que estou a mostrar ao Tiago, com este exercício de espera é, por um lado, estimular a sua vontade natural de observar o que acontece na sala, por outro, mostrar-lhe, pela experiência, que há respostas que poderão ser óbvias, mas cuja resposta podemos ter que esperar um pouco. Até para permitir que nos demoremos na pergunta, que consigamos perceber se ela é importante ou não, para nós.

Confesso que é um exercício que pratico diariamente, como se fosse um movimento do yoga ou um mantra, uma oração. Nos tempos que correm, a agitação e a pressa são uma característica obrigatória e exigida pelos nossos pares. Se estivemos descontraídos, a observar o que se passa, a parar para pensar – até parece que não estamos a fazer nada, verdade? Ou melhor, que mentira!

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