Herdamos a nossa inteligência da mãe e não do pai falta de inteligência

Dificuldades de aprendizagem não são sinónimo de falta de inteligência

Dificuldades de aprendizagem não são sinónimo de falta de inteligência

Imagine que na escola se fazia um concurso:

Vamos todos copiar do quadro, o mais depressa possível, sem erros. Mas nenhum aluno pode usar óculos.

Era injusto, não era?  

Então o que é que acontece se no dia-a-dia escolar todas as crianças, independentemente de terem uma dificuldade de aprendizagem identificada, terem de aprender da mesma maneira? Ou terem de fazer exatamente o mesmo teste? Terem de atingir os mesmos objetivos no mesmo tempo? Era injusto não era?

Quais serão os “óculos” que as crianças com dificuldade de aprendizagem precisam? Ou seja, quais as estratégias que elas ou o professor podem usar para conseguirem partir do mesmo ponto de partida das outras crianças quando fazem uma tarefa? 

1º O que é a dificuldade de aprendizagem? 

Demorar mais tempo a aprender a ler, fazer um grande esforço para raciocinar e acertar nas contas, cometer muitos erros a escrever ou não perceber as perguntas e textos não é sinónimo de falta de inteligência. Aliás, esse, é o primeiro mito que as crianças com uma dificuldade de aprendizagem específica enfrentam (até mesmo pelo olhar dos outros colegas), quando não atingem os objetivos no tempo esperado. 

Uma Perturbação Específica da Aprendizagem resulta de uma disfunção neurológica no modo como o cérebro recebe, processa, armazena a informação e a comunica, o que se traduz numa diferença na aprendizagem, ou seja, a criança aprende de modo diferente ou demora mais tempo que os colegas a aprender determinada coisa. Assim, isto apenas significa que o seu cérebro funciona de modo diferente das restantes crianças, e que a aprendizagem dos conteúdos da escola é possível e alcançável. Muitas crianças com PEA possuem até inteligência acima da média e não falta de inteligência.

2º Qual a importância de detetar precocemente? 

Quanto mais cedo for identificado e avaliado, mais precocemente se podem adotar estratégias para que a criança consiga aprender de outra forma – ou melhor, “à sua maneira” e superar ou minimizar os desafios que enfrenta e irá enfrentar ao longo da vida. 

Logo no pré-escolar devem ser detetados os primeiros sinais de modo a realizar-se uma intervenção precoce que permita que a criança inicie a escolaridade num patamar muito mais próximo ao dos colegas sem dificuldades. 

O que fazer? 

A) Procure ajuda, procure um diagnóstico, exija que a escola desenvolva medidas e, sobretudo, procure os “óculos” do seu filho. 

Vamos procurar os teus “óculos”. É o que eu digo às crianças, incluindo-as no seu próprio processo de aprendizagem e fortalecendo a sua auto-eficácia. Elas, com a ajuda de profissionais, conseguirão melhor que ninguém, perceber porque é que não estão a conseguir aprender, o que parecem confundir:

  • São as letras? É o sons das letras?
  • São os números?
  • É não entenderem o que está escrito?
  • É o lerem devagar?
  • Não processarem bem o que ouvem?
  • É não conseguirem contar sem ser pelos dedos?  

A criança irá ganhar ferramentas e encontrar estratégias para superar todas estas questões através do trabalho dos técnicos incidindo sobre as competências em défice.

Deste processo, também fazem parte os professores que, em sala de aula, devem adaptar o modo como ensinam, arranjar estratégias pedagógicas para contornar as dificuldades da criança, bem como adaptar as avaliações de modo a que esta consiga mostrar todo o seu potencial de aprendizagem. Isto implica, por exemplo, descobrir formas de aprender (usando todos os sentidos!), usar material de apoio (como se fossem “óculos” ou “muletas”) ou garantir que, nas avaliações, se a criança erra não é por não ter conseguido perceber o que lhe é pedido para fazer. 

B) Desenvolva habilidades sociais e emocionais do seu filho  

Estas crianças, ao longo do seu percurso escolar, terão de fazer o dobro do esforço ao realizar tarefas onde incide a sua dificuldade (seja a ler, a escrever ou a calcular) e terão de se confrontar constantemente com o erro. Facilmente elas podem sentir-se frustradas, desanimadas, desmotivadas e ansiosas. Facilmente também podem inventar desculpas ou mostrarem-se mais agitadas para fugirem às tarefas que lhes são difíceis. Por este motivo, é muito importante desenvolver as habilidades emocionas e sociais e a confiança da criança.

Ajude seu filho, fornecendo amor e apoio, reconhecendo que aprender é difícil porque o seu cérebro aprende de uma maneira diferente. Tente perceber quais são os pontos fortes ou as habilidades da criança e desenvolva-as para que se sinta capaz, valorizada e talentosa. Inscreva-a em atividades onde ela possa mostrá-las. 

C) Não se esqueça de celebrar todos os pequenos progressos e de partilhar momentos de ternura, carinho e brincadeira – não ralhe, não exija, não pressione, não compare com os colegas, não pense que é falta de inteligência. 

A criança deve ser comparada consigo mesma e todos os avanços devem ser intensamente celebrados. Não seja impaciente, dê-lhe apoio, mostre-se orgulhoso/a pelo seu esforço. Não se foque apenas nos estudos – não é por ela estudar mais que vai conseguir superar alguma dificuldade que tenha. Em casa, procure que a criança seja criança e brinca e se divirta consigo, para compensar o esforço diário que ela tem de fazer na escola. 

Por fim lembre-se e ensine… é nas dificuldades que descobrimos as nossas forças! 

Ana Santos – Psicóloga Clínica 

O Centro Catarina Lucas nasce na sequência do trabalho desenvolvido pela psicóloga Catarina Lucas ao longo dos anos, na área da psicologia e desenvolvimento.

Conta com uma equipa multidisciplinar de cerca de 30 profissionais especializados em diversas áreas da psicologia e do desenvolvimento humano, prestando serviços nas áreas da psicologia para adultos, infantil e juvenil, aconselhamento parental, terapia de casal, terapia familiar, sexologia clínica, neuropsicologia, hipnose clínica, orientação vocacional, psiquiatria, terapia ocupacional, terapia da fala, nutrição, naturopatia, osteopatia, entre outros.

2 thoughts on “Dificuldades de aprendizagem não são sinónimo de falta de inteligência
  1. Artigo muito interessante, deparo-me com o problema todos os dias com o meu filho que tem PHDA, mas celebramos sempre as conquistas.

    1. O artigo é da autoria da Psicóloga Clínica Ana Santos, que nos explica que as crianças só devem ser comparadas com elas próprias e mesmo assim, há que perceber que há dias e dias. Celebrar as conquistas é muito importante, celebrar o esforço mesmo quando não se alcança o esperado, é igualmente importante. Obrigada

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