E se ouvíssemos os nossos filhos?

E se ouvíssemos os nossos filhos?

E se ouvíssemos os nossos filhos?

Leiam até ao fim, sff. Só assim fará sentido.

Não gosto que me gritem. 
Fico a sentir-me assustada. Triste. Que não valho grande coisa. E acho que essa pessoa não gosta de mim. 
Não gosto que me afaguem depois de dizer que não quero. 
Se só tem piada para um, qual é a graça de continuar? 
 
Não gosto de dormir sozinha.
Não gosto. Só me sinto segura quando tenho quem me protege a meu lado. Mesmo que não haja nada do qual eu tenha de ser protegida.
Não gosto que me digam que não sem me explicarem porquê.
É uma falta de respeito. Só faz com que eu pergunte mais vezes até me darem alguma coisa que faça sentido. Dizerem-me que não é pedirem-me que não seja simpática a seguir. Só porque sim.
 
Não gosto de ir para a cama quando não tenho sono.
Às vezes não tenho sono à hora do costume e, se for para a cama, morro de seca. Estou cheia de energia e não tenho nada para fazer. Além de não ter ninguém que me faça sentir mais segura.
 
Odeio comer sem ter fome.
Nunca o faço. Para quê? Como depois. Não tenho fome porque, provavelmente comi bem antes, o que for. Se tivesse de comer sem ter fome, passaria a odiar a comida e quem me obrigasse a comer. 
 
Odiei as vezes em que adormeci depois de ter passado toda a noite a chorar.
Quando sofremos desgostos é o que fazemos. Acabamos por chorar até adormecer. Piores noites de sempre. Odiaria que todas as noites fossem assim.
 
Não admito que me acordem sem motivo.
Acordo com super mau feitio e mesmo muito muito virada do avesso se me acordarem sem motivo. Ou por mero capricho.
 
Às vezes preciso de chorar e de espernear.
É normal sentirmos coisas. Termos emoções. É bom exprimi-las. Com a idade aprendemos a controlar-nos melhor, às vezes até “bem demais”. 
 
Odeio que não me dêem o meu espaço.
Às vezes quero estar na minha vidinha a ler as minhas coisas, a mexer no computador, a ver as minhas séries. Não quero companhia. Quero sentir-me independente e descansar.
 
Odeio que não me liguem nenhuma.
Toda a gente gosta de miminhos e eu não sou excepção. Adoro que me dêem sem que eu tenha de pedir. Ou de inventar uma discussão para chamar a atenção.
 
Não gosto de fazer todos os dias as mesmas coisas.
Fico deprimida e aborrecida se não sair de casa com alguma frequência, se não fizer coisas diferentes.
 
Fico muito muito cansada se andar todos os dias a passear.
Gosto de ficar em casa, de me sentir confortável, de estar calminha e de poder descansar. 
 
Não gosto que me substimem.
Gosto que puxem por mim, gosto que me tratem de acordo com o meu potencial.
 
Não gosto que me vejam a chorar e que não se preocupem comigo.
Mesmo que não pareça nada de importante. É-o para mim. Não se preocuparem comigo é mostrarem que não gostam de mim. 
 
Não gosto de chamar por alguém e que não me respondam. 
Além de falta de educação, parece que a outra pessoa não quer saber de mim.
 
Não gosto que agora me digam uma coisa e depois outra.
Deixo de confiar nessa pessoa e fico confusa.
 
adoro que me oiçam. adoro que me dêem atenção. adoro que me deixem estar. adoro que me dêem de comer com vontade. gosto que venham logo assim que eu chamo. gosto que sorriam de volta quando eu sorrio. gosto que se riam das minhas piadas. gosto de não levar por tabela. gosto de adormecer no quentinho. não gosto que me deixem sozinha. gosto de miminhos. gosto de sentir que gostam de mim. gosto de adormecer contente com o dia que passou. gosto de acordar e de me sentir feliz, bem recebida. gosto de beijinhos. gosto de abraços. gosto de fazer as coisas com calma. gosto que falem comigo educadamente, com carinho. gosto que me façam festinhas até adormecer. gosto muito de comer as minhas comidas preferidas. gosto de tomar banho e de desfrutar do banho. gosto. gosto. gosto.
 
Isto sou eu que tenho quase 30 anos e que já consigo dizer claramente o que gosto e não gosto. 
 

Por que é que não tratamos os nossos filhos como pessoas, só por não saberem “chegar até nós”?

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imagem de capa@iefap.br

1 thought on “E se ouvíssemos os nossos filhos?
  1. Tudo muito bem. Porém, na minha opinião, pessoas somos todos nós, seres humanos; o que existe, sim, são bebés, crianças, jovens e adultos e cada uma destas classes etárias deverá ser tratada consoante a sua idade, caso contrário nenhuma delas terá o prazer, sim o prazer, de viver cada etapa do crescimento natural do ser humano. O texto é merecedor de reflexão, mas quando o acabei de ler todo, todinho, pensei: “a criança pede, quer, não quer, gosta, não gosta, e os pais têm de obedecer a tudo, sob a ameaça de a melindrar, de a recalcar, criar traumas, etc.?!” E os valores, e a disciplina, e os bons hábitos, ou até o respeito para com o próximo, a começar pelos pais que de todo são perfeitos? Como será a criança em adulto, quando nada lhe é negado em criança? Nem oito, nem oitenta, penso eu, claro!

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