A empatia: O nosso momento mágico

São infinitos os momentos que podemos ter e construir com as nossas crianças.

Sou professora mas o que mais me orgulho é de ser mãe de duas meninas de nove e dez anos. Todos os dias a magia entra em nossa casa, através do nosso momento, o último momento que partilhamos antes de nos deitarmos – é apenas uma pergunta, uma pergunta especial diária:

“Qual foi o teu momento mágico de hoje?”

O mais bonito é que, algo tão simples, faz com que diariamente sejamos obrigados a rever o nosso dia e a sentirmo-nos agradecidos por tudo o que vivemos. Obriga-nos a ser capaz de selecionar, escolher e descrever aquilo que nos faz sorrir.
Desta forma, com este exercício, tenho a esperança que sejamos mais conscientes do presente, do agora e da nossa capacidade de sermos felizes.

Não existem momentos mágicos errados. Os momentos mágicos podem ser os que nós quisermos. Um segundo na natureza onde tudo nos pareceu perfeito, um sorriso, uma palavra no momento certo, um olhar, algo que fizemos, uma música especial, qualquer momento que por alguma razão foi diferente e ganhou peso dentro de nós.

Como mãe e professora é muito curioso constatar que a grande maioria destes momentos relatados pela minha família são momentos de pura empatia.

  • “ Quando tu (mãe) dançaste comigo e pareceu que não existia mais ninguém”,
  • “ Quando a professora disse que tinha gostado muito do meu texto, e o Sebastião (o rapaz que costuma gozar com tudo o que digo) disse que estava mesmo giro”,
  • “ Quando estava no trânsito e de repente passou uma borboleta, que pousou na flor mesmo ao lado do carro e a minha música preferida estava a tocar”, 
  • “Quando a Maria sorriu para mim”….

Podia aqui descrever vários significados que foram dados à empatia, mas preferi escolher a do dicionário de forma a simplificar o tema.
Empatia: a faculdade de compreender emocionalmente (pessoa, objecto), capacidade de se identificar com outra pessoa; entendimento.

 

A importância de criar partilha através da empatia

 

A empatia é sem dúvida a grande palavra mágica. Aquela que nos faz ligar ao mundo, ao outro, a tudo e que intensifica e fortalece o nosso sentimento de pertença.

São afortunados aqueles que nascem com muitos quilos de empatia, os que conseguem agradar a gregos e troianos, contudo a empatia pode ser desenvolvida. Como adultos podemos ensinar às nossas crianças a desenvolver esta característica ou em muitos casos aprender com elas como fortalece-la.

Quanto mais autoconscientes formos, quanto melhor conseguirmos identificar e conhecer as nossas próprias emoções mais facilmente iremos conseguir identificar, ver e sentir o outro.

Com base nesta ideia, comecei a trabalhar com crianças do 1º e 2º ciclo com o objetivo de desenvolver determinadas competências e a gerir conflitos, e para que tal acontecesse a empatia era fundamental. Em cada aula, o momento de partilha ajudava a aumentar a empatia entre todos.

As crianças são excelentes alunos e professores, e capazes de ouvir com os seus três ouvidos. Os três ouvidos são uma brincadeira que é real. São os nossos dois ouvidos e o terceiro é o do coração. Ninguém ouve tão bem como as crianças, mas muitas vezes é preciso provocar esses momentos de escuta real. Momentos onde a nossa atenção está realmente focada no outro, não só no que nos diz com as palavras mas também com o corpo.

Experimentem fazer em casa o exercício das caretas que correspondem a determinadas emoções e peçam aos vossos filhos, família, amigos para identificarem as mesmas e preparem-se para momentos no mínimo engraçados. A empatia pode começar por aí, em sermos capazes de identificarmos as expressões do outro. Se conseguirmos identificar corretamente a emoção, o que o outro sente, mais facilmente vamos agir de acordo com o que o universo nos pede.

Como um dos meus autores preferidos, Daniel Coleman escreveu: ”Na educação dos sentimentos, as emoções são simultaneamente o meio e a mensagem”

Nas aulas do IUPI Be nestes últimos anos, é maravilhoso constatar que foram os momentos de empatia que transformaram verdadeiramente as relações entre as crianças, e nunca os famosos sermões ou castigos.

Foram muitos os casos, contudo um deles está bem presente na minha memória: passou-se há dois anos, onde a melhor aluna da turma e também uma criança com muita empatia, fantástica com todos com muitas habilidades a todos os níveis e de quem todos gostavam, foi durante três meses alvo de brincadeiras. Tudo começou com piadas que rapidamente se tornaram diárias e contínuas, onde tudo o que fazia era questionado: a hora que chegava, o que vestia, o que trazia para o almoço… são só alguns exemplos do que levou esta criança, que adorava aprender, a pedir à mãe para ficar em casa. Numa das nossas aulas, do IUPI Be, trabalhamos esta questão. Criámos uma actividade com o nome “Máquina de lavar”, onde em círculo cada criança dizia o que gostaria de resolver com os colegas. Essa criança ficou sentada ao meu lado e foi a última a falar. Durante as “lavagens” todas as crianças desabafaram e resolveram as suas questões. Quando falamos de coração aberto tudo se resolve. Quando chegou à última aluna eu pedi para ela falar sem medo e dizer o que andava a sentir. Ela desabafou e quando acabou, mais de dez colegas levantaram-se para lhe pedir desculpas. Muitos disseram que não imaginavam que a estavam a magoar. Perguntei se sabiam o porque de terem tido aquelas atitudes com aquela aluna e as respostas foram “ela é perfeita demais, é boa em tudo…” o que gerava neles sentimentos “maus” contra aquela criança.

Depois do “programa da máquina ter acabado” fizemos uma festa, onde todos riram e se divertiram. Acabamos a aula como todas as outras, com cada um a dar um auto-abraço.

Felizmente nesta situação bastaram duas horas letivas para tudo se resolver, as coisas boas passaram a ser vistas e valorizadas como coisas boas que eram e muitas destas crianças, até ao fim do ano, tiveram atitudes de grande amizade para com esta criança. As famosas “ brincadeiras” desapareceram por completo e sobretudo, em toda a turma, as relações estreitaram-se e fortaleceram-se.

São muitos os jogos que fazemos nas aulas, muitos deles repetidos em casa, jogos e brincadeiras que fazem a diferença, contudo nada mais valorizo do que os momentos de partilha. É nestes momentos onde criamos magia, onde a empatia cresce e nos torna pessoas melhores, com mais um sentido, o do coração. Este que sabe ouvir, falar, sentir e tocar como ninguém independente da nossa idade e tamanho.

Brinquem muito, joguem muito, falem muito, mas principalmente vejam e oiçam o outro com o vosso coração, pois a empatia nasce aí!

Muitos momentos mágicos para todos!

Por Filipa Cunha, StartIupi
para Up To Lisbon Kids®

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3 thoughts on “A empatia: O nosso momento mágico
  1. Pura e simplesmente adorei este texto. Pode ser uma óptima enxada para algumas famílias e educadores (de infância e professores). Realmente, a empatia gera uma enorme cumplicidade e torna tudo muito mais fácil. Agora já sou avó mas lembro-me que, quando tinha os filhos todos em casa, situações havia de uma grande alegria e às vezes hilariantes pela enorme empatia que sentíamos uns pelos outros. À mesa, durante o jantar, era hora de se trocar informações e de esclarecer dúvidas sobre coisas do quotidiano. Havia muitos momentos fantásticos e posso dizer que sinto hoje (e sempre senti) enorme orgulho dos meus filhos. Eles são pessoas bem “resolvidas” e uns excelentes Pais. Em parte, acho que a “empatia” foi também a pedra-chave na educação que lhes demos. Parabéns pelo rico texto que aqui nos deixou, Filipa Cunha da Starlupi (atavés da Up to Lisbon Kids)

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