A influencia dos elogios no desempenho das crianças

Elogios reais: crianças esforçadas. Elogios fracos: crianças desistentes

A influencia dos elogios no desempenho das crianças

Os pais, regra geral têm tendência a elogiar os filhos pelos seus feitos. Tudo começa quando eles são bem pequeninos, e fazem cocó sozinhos (sem bebé gel) aos 3 dias de gente: “Espectacular, conseguiu logo, vê-se que é uma criança determinada”.

Pronto! Começou a asneirada.

Todos sabemos que os nossos filhos, ao nossos olhos, são perfeitos. Mas os pais tornam-se perfeitos idiotas quando elogiam excessivamente uma criança: primeiro porque ela não é estúpida, sabe que a sua primeira letra não foi fantástica, foi razoável. E se não se aperceber na altura do elogio vai perceber quando escrever o alfabeto completo, voltar ao início do livro e se deparar com as suas primeiras palavras escritas; segundo, porque estamos a abrir a porta à preguiça e à insolência (na melhor das hipóteses) .

Há elogios positivos, que reforçam a auto-estima dos miúdos, fazendo com que queiram continuar a tentar realizar tarefas.

Há outros que são ocos, frívolos e normalmente são ditos da boca para fora. Pais que gritam “Boa, és o melhor/maior” sem sequer tirarem os olhos do telemóvel.  Eu também já o fiz, mas sei que a longo prazo estou a fazer-lhes mal!

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O Psicólogo e Mestre em Educação Marcos Meier, realizou uma palestra sobre “A Influência dos Elogios no Desempenho das Crianças e na Formação de Valores” em que documenta de forma muito interessante este tema.

Inteligência vs Esforço

«Recentemente, um grupo de crianças realizou um teste muito interessante. Um grupo de Psicólogos atribuiu-lhes uma tarefa de dificuldade média, que elas executariam, sem grandes problemas. Todas conseguiram terminar a tarefa depois de um certo tempo. De seguida foram divididas em dois grupos.

O grupo A foi elogiado quanto à inteligência:

Uau! Como você é inteligente!”, “Como você é esperto!“, “Que orgulho! Você é genial!“… E outros elogios relacionados à capacidade de cada criança.

O grupo B foi elogiado quanto ao esforço:

Parabéns! gostei de ver o quanto você se dedicou nesta tarefa!”, “É muito bom ver o quanto você se esforçou!”, “Como você é persistente! Tentou, tentou, até conseguir… Muito bem!” E outros elogios relacionados ao investimento realizado e não às capacidades percebidas na criança.

Depois desta fase, foi proposta uma nova tarefa de dificuldade equivalente à primeira.  Aqui, os grupos podiam escolher se queriam ou não participar da mesma.

As respostas das crianças surpreenderam. A grande maioria das crianças do grupo A não participou.

Não quiseram nem tentar. Por outro lado, as crianças do grupo B aceitaram o desafio. Não recusaram a nova tarefa.

Resultados

A explicação é simples e nos ajuda a compreender como elogiar nossos filhos e nossos alunos. O ser humano foge de experiências que possam ser desagradáveis.

A maioria das crianças, elogiadas apenas pela sua inteligência e esperteza, não quiseram se arriscar a errar, pois o erro poderia modificar a imagem que os adultos tinham delas.

Já as crianças elogiadas pelo seu esforço, dedicação à tarefa ou persistência, dispuseram-se a tentar, porque independente do resultado da sua ação, a sua postura frente ao trabalho é que seria reconhecida.

Sabemos de “N” casos de jovens, considerados muito inteligentes, que não obtiveram grande notas nas avaliações escolares, enquanto que jovens “medianos” conquistaram essa vitória. Os “inteligentes”, muitas vezes, confiam na sua capacidade e deixam de se preparar adequadamente. Os outros sabiam que se não estudassem muito não seriam aprovados e, justamente por isso, estudaram mais, resolveram mais exercícios, leram e aprofundaram  cada uma das disciplinas.pai-e-filho

Valores, princípios e ética

No entanto, isto não é tudo. Além dos conteúdos escolares, os nossos filhos precisam de aprender valores, princípios e ética.

Precisam de respeitar as diferenças, lutar contra os preconceitos, adquirir hábitos saudáveis e construir amizades sólidas.

Não se consegue nada disso através de elogios frágeis, com enfoque apenas no ego de cada um. É preciso que sejam incentivados constantemente a agir assim. Isso faz-se com elogios, feedbacks, e incentivos ao comportamento esperado.

Os nossos filhos precisam de ouvir frases, como:

Que bom que o ajudaste, tens um bom coração”;

“Parabéns, meu filho, por teres dito a verdade apesar de estares com medo… Foi uma bonita atitude, que revelou a tua ética”;

“Filha, fiquei orgulhoso por teres dado atenção à tua colega nova em vez de a teres excluído, como alguns colegas  fizeram… Revelou que és solidária, e sabes pôr-te no lugar dos outros”;

“Isso mesmo, filho, deixar o teu primo brincar com a PS foi impecável, partilhar é muito importante e foste um bom amigo”.

Elogios desse tipo estão fundamentados em ações reais e reforçam o comportamento da criança, que tenderá a repeti-los. Isso não é “tática” paterna, é incentivo real.

Por outro lado, elogiar superficialidades é uma tendência atual:

“Que linda que és!”;

“És muito esperto, meu filho!”;

“Tu és um máximo!”;

“Tens um cabelo lindo!”;

“Tens uns olhos lindos!”.

Elogios como esses não estão baseados em comportamentos ou atitudes. São apenas impressões e interpretações dos adultos.

Em pouco tempo estas crianças irão fazer chantagem emocional, birras, manhas e “charme” para conseguirem o que querem. Quando adultos, não terão desenvolvido resistência à frustração e a fragilidade emocional estará presente.

Homens e mulheres de personalidade forte e saudável são como carvalhos que crescem nas encostas das montanhas. Os ventos não os derrubam, pois cresceram na presença deles. São frondosos, têm copas grandes e o verde de suas folhas mostra vigor, pois se alimentaram da terra fértil.

Que nossos filhos recebam o vento e a terra adubada por nossa postura firme e carinhosa.» [Psicólogo e Mestre em Educação, Marcos Meier]

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19 thoughts on “Elogios reais: crianças esforçadas. Elogios fracos: crianças desistentes
  1. Sou mãe e professora. Grande artigo..proporcionou-me uma boa reflexão. Por vezes cometemos erros, com as melhores intenções.
    Obrigada.

  2. I am sorry I am going to have to write this in English, my written Portuguese is no longer as good as it use to be.

    The article is perfect, it is well written and makes perfect sense. I would say what was said is common sense. However I understand that not all of us function the same way.

    Children these days grow up to be very self centered and uninterested in the world around them. This is sad but true.

    I hope your words and ideas are spread.

  3. Sou professora de natação de crianças dos 3 aos 70 anos =) e todos os dias aprendo com eles !!Adorei o que li sem dúvida que a essência de um adulto é fruto de 90% das vivências experiências e aprendizagens da sua infância !!Obrigada por me fazer reflectir se estou a ensinar os meus pequenos da melhor forma !!

  4. Maria João Piteira diz:

    Grande verdade. Hoje em dia na sociedade em que vivemos temos mesmo que poderar a forma como os elogios são transmitidos às crianças.

  5. Ola,

    Godtava desde ja felicitar e agradecer pois acho, nao so bastante gratificante toda a mensagem que aqui nos transmite, como bastante real.
    Sou mae solteira desde sempre e sempre me preocupou muito o bem estar da minha filha a todos os niveis.
    Tenho 42 anos e uma filha com 7 anos e por vezes caiu no erro de a elogiar mais fisicamente e quanto a sua inteligencia do que propriamente quanto aos seus feitos, apesar de o fazer tambem.
    Tenho algumas questoes, que vou passar a descrever com a esperanca de que me possa ajudar e ilucidar.

    1) a minha filhota so atende e “ouve” os meus pedidos e chamadas de atencao passado a 3a ou mais vezes de o repetir. Nao percebo porque o faz e chego a perguntar-lhe porquê só á terceira.

    2) apesar de ter tirado notas muito boas ate agora, parece esquecer-se muito facilmente das coisas. Nao percebo ao que se pode dever tal situacao, e ela propria diz que se vai esquecer, sempre que lhe dou um concelho ou aviso.

    Agradeco desde ja toda atencao e dedicacao que me possa facultar
    Com os melhores cumprimentos
    Florbela

    1. Olá, Florbela. Não sou psicólogo, mas leio muito sobre crianças, tenho dois filhos, já adultos, e penso que o que lhe vou dizer é correcto. A sua menina é muito inteligente, daí esquecer-se com facilidade. A cabecinha dela está em constante “trabalho”, por isso, a maior parte das vezes não “ouve” a mãe chamar, pois a sua cabeça está a pensar noutras coisas. Espero ter ajudado. As maiores felicidades para ambas.

    2. vou tentar ajudar… sua 1° questão, sua filha já entendeu que você só tem uma atitude ou ação depois da terceira. Você fala que ela só faz “os meus pedidos e chamadas de atenção” depois da 3° , isso é questão de limites e regras que nós pais colocamos nos nossos filhos. Você permitiu que isso acontecesse, mas educar é todos os dias, por isso é só você mudar esse ciclo que está incomodando você. Eu falaria com ela e colocaria regras novas (como um jogo) que a partir de hoje as outras (repetir 3x) não serão aceites por você.
      quanto a sua 2° pergunta, ela só esquece os seus concelhos e avisos.
      ela entendeu que a mãe está la para repetir 3x.
      Sou psicologa e mãe e também para mim a questão da educação é muito importante. não é a tarefa mais fácil, mas quando dá certo é maravilhoso.
      como o artigo descreve, a nossa mudança de postura é que é fundamental. o que as nossas crianças fazem com a inteligência é uma coisa como elas fazem é que nos pais devíamos olhar e atuar mais .

      espero ter ajudado.

      1. Maria josefa Pinto diz:

        Todas estas partilhas são interessantes.
        Peço desculpa desde já porque não vou comentar , vou apenas chamar a atenção para um erro ortográfico relativamente à palavra “conselho” que está quer no texto da mãe quer no texto da Sílvia “concelho”.
        Eu dou um conselho à minha filha, ( aconselhar ). Eu sou natural do concelho de Trancoso.

        1. Que coisa. ..estão a falar de um assunto bastante importante e interessante e a senhora muda automaticamente de assunto só para chamar a atenção de um erro ortográfico. Pelo amor de Deus, haja paciência.

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