Déficit de atenção?

A mãe da Maria ligou-me no início do mês. Queria saber se a filha poderia experimentar uma aula de Aikido e quais as condições do dojo no caso de ela gostar e querer inscrever-se. Perguntei a idade, para me certificar de que poderia já fazer as aulas de e dei as informações que haviam sido pedidas. No final do telefonema, a mãe da Maria sentiu-se na obrigação de me avisar: “A Maria foi diagnosticada como tendo Déficit de Atenção. Foi a professora da escola que me disse que ela deveria praticar uma arte marcial porque lhe faria bem”. Tomei nota e combinámos que a Maria viria no dia seguinte à sua primeira experiência de Aikido.

Quando chegaram fiz questão de, como faço sempre, conversar um pouco com a minha eventual aluna que, como quase sempre também, estava cheia de vergonha. “Que idade tens? Já alguma vez fizeste Judo ou Karate? Já andaste no Ballet?” enfim, fiz-lhe o tipo de perguntas que me permitem obter algumas informações importantes para poder avaliar o desempenho numa primeira aula. A Maria subiu para o tapete e aproveitei para perguntar à mãe quem lhe tinha diagnosticado o Déficit de Atenção. “Foi a professora dela”. Fiquei espantado com a resposta da mãe da Maria mas, não conhecendo a professora e não podendo avaliar as suas competências na matéria, não disse mais nada.

A aula começou. Passado pouco tempo, a futura “aikidoca” já tinha perdido a vergonha e ambientava-se bem. Tentava fazer tudo o que lhe era solicitado, lidava bem com o erro, aceitava os reparos sem frustração aparente e o desempenho físico era perfeitamente normal para um primeiro dia. Claro que por vezes a Maria se distraía, tentava brincar a meio de um exercício ou se desorientava um pouco por não perceber o movimento que lhe era pedido, mas nada que não seja comum à grande maioria das crianças que pela primeira vez tomam contacto com uma disciplina como o Aikido.

No fim, enquanto todos de mopa na mão limpavam o tapete — tarefa que é desempenhada por toda a turma e na qual prontamente colaborou — falei de novo com a mãe. Disse-lhe que o comportamento da Maria me tinha parecido perfeitamente normal e que não me parecia que houvesse nada de estranho a assinalar. “Ah, mas isso é porque eu estive a assistir à aula. Vai ver depois quando eu não estiver”, respondeu-me. Entretanto, já lá vai quase um mês e a minha nova aluna continua igual a tantos outros alunos. A padecer de alguma condição, a dela parece-me ter apenas um nome: “8 anos”…

Posso eu garantir que o comportamento da Maria na escola dela está dentro dos padrões expectáveis? Não, honestamente não posso, não estou lá. Tenho eu a certeza de que daqui a algum tempo não virá ao de cima o tal Déficit de Atenção, por ora escondido por algum factor relacionado com a novidade que ainda são as aulas? Estranharia muito mas, não sendo profissional da área, não posso ter essa certeza. Aquilo em que acredito é que o diagnóstico de uma condição como esta ou a Hiperactividade deve ser feito por um profissional de saúde e os pais não deverão aceitar como certa uma opinião que não venha de uma fonte muito credível. A ânsia de que os filhos tenham um bom desempenho escolar, poderá levar os pais a, com a melhor das intenções, aceitar um diagnóstico errado com a preocupação de tratar rapidamente do problema do filho. E isso sim, poderá vir a ser um problema para a criança.

* Maria é um nome fictíciO

Ler também Carta de um pai sobre o efeito da medicação no tratamento da Hiperatividade

2 thoughts on “Déficit de atenção?
  1. Silvia Bogarim diz:

    Espero que não estejam a dar Ritalina à criança…

  2. Muito bom!!! Vamos deixar os diagnósticos para quem os pode fazer e assim não condicionar a vida destas crianças!!!!

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