Desapego? Por aqui ainda não, obrigada!

Dizem-me (não toda a gente, mas há quem comente) que a minha filha é muito agarrada a mim, dependente de mim.

Sei que quem olha de fora terá um olhar diferente, mas a verdade é que encaro com naturalidade o facto de ser o adulto de referência (assim como o pai, mas mais eu) da minha filha.

Temos uma ligação muito próxima, as nossas rotinas estão muito bem delineadas e é verdade que passamos muito tempo juntas.

Mas sejamos sinceros, esse muito tempo que alguns apontam é, na verdade, o tempo em que ela não está na escola. A maior parte do dia da minha filha é passado longe de casa, da mãe, da sua ligação mais profunda. É o tempo em que eu deixo de ser apenas mãe para ser Marta, para trabalhar, para me distrair, para fazer as minhas coisas. É o tempo em que ela não é minha filha, é uma criança que estabelece os seus laços com os outros, com o mundo.

Apesar da nossa proximidade, do hábito de irmos juntas ao parque, ao supermercado, de eu contar a história antes de dormir, de dar banho e jantar quando o pai não está, não vejo essa dependência na minha filha. Mesmo nas horas que passamos juntas não estamos exclusivamente uma com a outra nem a participar exclusivamente das actividades uma da outra. Ela brinca, “lê”, canta, dança e pula tantas vezes comigo apenas como espectadora curiosa à distância.

É verdade que não pratico o desapego e admiro quem o faz mas simplesmente não sinto que seja para mim. Há quem antecipe uma semana complicada de trabalho e faça uma mochila aos miúdos, os deixe na casa dos avós e os volte a ver quatro dias depois. Eu prefiro desdobrar-me e continuar a cumprir todas as minhas facetas o melhor que posso, e obviamente muitas são as vezes em que algo fica a faltar. Mas eu não. Eu não falto. Não critico quem o faz, nesta coisa da maternidade acredito (e já acreditava antes de ser mãe) que cada pai é que sabe. Cada família deve fazer aquilo que pode, que a deixa confortável, que funciona para ela.

Com o passar do tempo sei que esta proximidade que existe se vai esbater, que a minha filha vai preferir a presença de outros em detrimento da minha e não me dói pensar nisso. Pelo contrário, valorizo todas as etapas sendo o melhor que posso, para que ela possa crescer para ser uma criança que estabelece relações saudáveis com os outros.

Ainda ontem uma vizinha comentava: “ela ainda não fez os três anos? É tão autónoma e independente! Faz tantas coisas com tanta agilidade”. Na escola dizem o mesmo. E eu sei que é assim. Que a minha presença não ensombra a sua autonomia. É claro que quando estou presente ela exige mais coisas de mim, deixando para lá aquele lado desenrascado só para poder ter uma desculpa de me ter mais perto. Entendo, compreendo, não rejeito. Se sentisse que a estava a prejudicar de alguma forma seria a primeira a tentar corrigir o meu comportamento, mas para já não sinto sinceramente que o faça. O amor que tenho por ela não é um amor que sufoca. É um amor como pratico em todas as minhas relações: que está presente mas que dá espaço, liberdade.

Será ela própria a abrir as suas asas e a voar para longe de mim e estarei na primeira fila para a ver voar. Ao longe. Não serei daquelas mães que compram bilhete de viagem para acompanhar de perto.

Dou a liberdade de voar sabendo o caminho de volta.

E estarei aqui, daqui a uns anos, a praticar um desapego saudável.

Para já a nossa história é apenas de amor constante.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.