Educamos em Piloto automático

Educamos em piloto automático

A nossa forma de educar os nossos filhos tem muito a ver com o ambiente em que vivemos durante o nosso crescimento. Externo, mas mais ainda, o nosso ambiente interno.

É importante – mesmo que não nos seja muito conveniente – não vivermos fechados no nosso próprio mundo, porque os nossos filhos não vivem. Nem queremos que vivam.

Numa cultura a última coisa que muda é a mentalidade. A mentalidade assenta em paradigmas poderosíssimos que vão sendo transmitidos geração após geração, levando-nos a agir numa espécie de piloto automático.

Um paradigma é uma espécie de programa mental herdado – conjunto de conceitos, padrões e modelos de pensamento – que tem controlo sobre o nosso comportamento habitual.

Sabe quando se pergunta a si próprio “porque é que eu fiz isto?” “porque é que agi assim?” ou “como é que eu cheguei a este ponto?” Estas frases são-lhe familiares? Vivemos a grande maioria das nossas vidas em piloto automático. E educamos os nossos filhos em piloto automático também.

É fácil, neste momento, que estamos parados a ler, lembrarmo-nos de inúmeras situações em que o fazemos, não é verdade?

Uma das razões pelas quais as pessoas que viajam parecem ter uma mente muito mais aberta do que aqueles que não o fazem é exactamente porque contactam com outras culturas, com outras civilizações de hábitos diferentes, recebendo diferentes perspectivas do que realmente é relevante. Recebendo a forma como outras culturas fazem as coisas. Como comem, como agem. Como agem e interagem com a suas crianças. Como as tratam.

Mas não precisamos de viajar para fora para ter essa noção. Na era em que vivemos, temos a facilidade de investigar formas diferentes de educar. E é importante evoluir. Mas podemos fazer essa viagem dentro de nós e procurar alternativas para educar de forma diferente.

Volte àquelas frases que lhe são muito familiares e que tanto se questiona. Se se questiona é porque há qualquer coisa dentro de si que não está a fazer sentido. Verdade?

Não devemos ficar fechados no nosso mundo em piloto automático. Nem devemos educar os nossos filhos em piloto automático. Sermos pais é sabermos preparar-nos. Se existe teste ou exame para o qual é preciso estudar é este. Esqueça todos os outros. Este é o mais importante.  Por vezes parece um teste não é? Ou vários, até, ao mesmo tempo.

Mas na verdade não é. Sermos pais é uma jornada. Uma caminhada. Uma viagem. Uma viagem onde conhecemos novos seres e a escolha é nossa se acolhemos a sua cultura, se respeitamos a sua forma de estar, se bebemos do seu conhecimento, elevando estes seres – os nossos filhos – ao melhor de si que podem ser – dando nós próprios o melhor de nós. A escolha é nossa. E é uma escolha diária.

Todos aprendemos melhor quando aprendemos de forma positiva. O cérebro funciona e responde de forma diferente quando estimulado de forma positiva. Basta lembrarmo-nos de quem foram as pessoas que mais nos inspiraram. Que mais nos respeitaram. Que mais nos amaram. O que é que bebemos delas? O que mais nos ensinaram na sua forma de agir connosco?

Escolhemos um dia ser mos pais e mães. Escolhemos acolher outro ser humano na nossa vida. Para viver na nossa casa. Para partilharmos a nossa vida. E isso é um compromisso de amor. De amor maior.

De uma responsabilidade colossal. Mas uma responsabilidade nada complexa. De uma responsabilidade simples. Pura.

A nossa responsabilidade como pais é de deixar um legado de amor. Um legado de generosidade. Um legado de paz interior aos nossos filhos. Independentemente da nossa história, Independentemente do nosso passado. Ou do nosso presente. Não podemos educar os nossos filhos em piloto automático.

Não nos tornemos livros de regras, cabeças fechadas ou carrascos executores. Se o nosso filho perdeu o segundo casaco em menos de um mês, ele não precisa que o nosso piloto automático nos permita enfurecer e fazê-lo sentir-se pior do que ele já se sente. Zangarmo-nos, aumenta a luta da criança consigo mesma. Não lhe ensina nenhuma lição válida. Ensina-lhe a ficar zangado consigo mesmo. Apenas ensina que o casaco é mais importante para nós do que o nosso filho. E isso nunca é bom.

Sejamos terra fértil de harmonia se a queremos colher. Sejamos a personificação da bondade, se a queremos receber em troca. Se queremos que os nossos filhos sejam bondosos.

Sejamos inspiradores, ouvintes, curiosos acerca dos seus interesses. Daquilo que os move. Dos seus sonhos. Da sua natureza, se queremos que os nossos filhos sejam felizes.

Porque se forem felizes, serão também bem sucedidos.

A nossa história somos nós que a construímos.

A forma como tratamos os nossos filhos  – e como vemos as crianças em geral – faz parte da nossa herança cultural. E isso nem sempre é bom. Fazemos coisas com as quais nem sequer concordamos só porque alguém nos disse que era assim, ou porque “especialistas afirmam”. Infelizmente em vez de ajudar, muita da informação que recebemos prejudica a relação de amor entre pais e filhos.

E dentro do nosso coração, como é que sentimos que devíamos fazer, quando há tanta coisa que para nós não faz sentido?

Não podemos educar crianças em piloto automático.

Não podemos. São pessoas que estão ali. Não são autómatos nem robots. São pessoas. Não são nossos súbditos ou subordinados. São pessoas que nos pedem constantemente carinho, apoio e suporte. Mesmo quando não falam. Mesmo quando nos ferem, nos atingem ou desiludem. Especialmente nesses momentos.

Não podemos educar em piloto automático. Precisamos de parar para pensar na nossa jornada. Deitar fora o que não serve. Ancorar o que queremos daqui para diante. O segredo está em escutar o coração, sentir e agir sempre com amor.

imagem@shutterstock

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