Mas os outros fazem!

Sabia que este dia eventualmente chegaria.

Nunca pensei que fosse tão depressa, por isso não tinha resposta ensaiada. E ainda bem, porque nisto da maternidade já aprendi que de pouco importa o ensaio geral as coisas no dia da estreia saem sempre ao contrário.

Nunca gostei que levasses bonecos para a escola e consegui evitar até há bastante pouco tempo. Como fazemos um percurso de cerca de dez minutos a pé em que cantamos e conversamos, às vezes gostas de aproveitar a companhia do teu brinquedo preferido.

Cedi, sempre com a condição de chegadas à escola o brinquedo ficar guardado na tua mochila. Encaro a escola como um local comunitário, em que tudo é e deveria ser de todos, que todos terão de respeitar e aceitar partilhar aos poucos.

A partir do momento em que as crianças levam os seus brinquedos para a sala, as coisas são deles, criam momentos de tensão quando os outros também querem brincar e o dono não gosta ou até empresta mas o brinquedo acaba por se estragar ou perder. Acho que são situações evitáveis. A escola tem bonecos mais que suficientes e na maior parte das vezes as crianças estão entretidas com outros tipos de actividades.

Com a minha filha tem havido dias em que tenho de esperar um pouco mais pelo abraço ao boneco preferido, que lhe diga até logo para o depositar na mochila: porque por ela levá-lo-ia consigo. Entendo, dou tempo mas às vezes tenho de ser rígida e lembrar que não levamos brinquedos para a sala da escola.

E foi aí que aconteceu.

A resposta: “mas os outros levam!”. Recuei umas boas dezenas de anos, lembrei-me dos colegas que diziam aos pais que a sua má nota não era assim tão má porque mais de metade da turma se tinha saído mal no teste. E a resposta era invariavelmente: “mas a outra metade da turma não é minha filha”. Foi isso que quis responder, que os outros não são meus filhos, que é lá com eles e com os pais.

Respirei fundo e expliquei-lhe que na nossa casa são aquelas as regras. Assim ela não perde nem estraga os brinquedos na escola e brinca com todos sem se aborrecer nem fazer birras porque seria evidente que dificilmente ficaria a ver enquanto os outros queriam brincar horas sem fim com os seus bonecos. Ali todos têm de partilhar, tudo é de todos.

Ela resmungou mas aceitou, não tinha outro remédio.

Eu senti-me velha.

Foi apenas o primeiro de muitos embates que aí vêm.

E sei que serão uma infinidade deles, porque faço questão de evitar uma série de coisas que para alguns pais são corriqueiras – os doces diariamente, os tablets constantemente no colo, os gelados cheios de chocolate a toda a hora e a lista não tem fim.

Um dia em que o pai foi buscá-la à escola e a levou directamente ao consultório médico para uma vacina coincidiu com um dia de festa de uma colega. Na mochila havia um chupa-chupa miniatura e o pai achou que ela até merecia o mimo por se ter portado tão bem (e a Mariana nunca na vida comeu rebuçados ou sugos, ou chupas, foi mesmo uma estreia para ela e sim, com quase três anos?).

Ainda hoje, quando estamos a falar de comida e se lembra do chupa-chupa de laranja da festa da Leonor, diz “o meu pai deixa”. Tivesse eu outro tipo de relação com o pai e seria motivo para discórdia e discussão. Felizmente somos uma frente unida e entendo o que ela quer dizer, mas corrijo. O que não significa que sempre que vai ter uma vacina ela não pergunte: depois vou comer um chupa?

Não vai, mas não é preciso atormentá-la com isso. Daqui a uns anos vai encher-se de porcarias se quiser, mas acredito que a educação alimentar e as bases que lhe estamos a dar a farão tomar melhores decisões no que toca a alimentação.

Mas estou a preparar-me para nos próximos tempos ter de enfrentar as suas questões.

É tranquilo, daqui a cinquenta anos acho que já me safei delas!

imagem@weheartit

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