Morreu

Morreu. E agora? Como vou dizer ao meu filho?

Compreender a morte é um processo que se vai desenvolvendo ao longo do crescimento da criança. À medida que a criança se vai deparando com ela, vai construindo uma ideia do que é, do que acontece, do que se sente e do que se pode fazer para ultrapassar esses sentimentos.

Crianças que vivem fora das grandes cidades, em ambientes mais rurais, onde os animais ainda são criados para comer, onde toda a gente tem um cão ou um gato, onde as pessoas de várias idades vivem em comunidade e é costume assistir aos funerais de desconhecidos (ou menos conhecidos) e onde é comum visitar-se o cemitério para cuidar das campas e renovar as flores, mais facilmente poderão ter uma ideia da morte como parte integrante do ciclo de vida.

Também as crianças que tenham contacto com animais (cães, ratos, coelhos, tartarugas, etc.) poderão ter mais noção do ciclo de vida. Observam os animais nascer, crescer, reproduzir-se, ficar doentes, e eventualmente morrer. E se o animal de estimação do seu filho morrer, não vá a correr comprar outro para que ele não repare! Aproveite para lhe explicar que ele morreu (não fuja das palavras), deixe-o lidar com a dor à sua maneira, deixe-o despedir-se dele, recordá-lo e decidir o ritual de despedida que quer fazer (com a devida orientação e aconselhamento, claro).

As crianças de meios urbanos, tipicamente, não costumam ter muito contacto com a morte. Muitas nunca visitaram um cemitério nem assistiram a um funeral, mesmo de um desconhecido. Muitas não têm animais. Até que um dia acontece.

As crianças apercebem-se quando alguém morre, quer por perceberem a tristeza nos que as rodeiam, quer porque sentem a falta da pessoa que morreu.

Antes dos 2 anos não têm ainda capacidade para compreender o conceito de morte mas podem revelar-se medos e alterações nas suas rotinas. Muito carinho, muita compreensão e paciência bastarão para que ultrapasse a situação.

Dos 2 aos 5 anos já percebe o que é a separação e abandono embora tenha dificuldade em compreender a morte como processo irreversível. Pode manifestar comportamentos regressivos (voltar a pedir a chucha, que lhe dêem a comida à boca, fazer xixi na cama, etc.). Deverá explicar-lhe a situação com linguagem adaptada à sua idade, de forma muito simples e explicando que é irreversível (as vezes que forem precisas).

A partir dos 6 anos, sensivelmente, a criança já consegue perceber o conceito de morte, da sua irreversibilidade mas dificilmente a encara como algo universal, ou seja, que se pode aplicar também à mãe, ao pai, aos irmãos e a ela mesma. Nestas idades, a conversa com a criança já vai para além disso mesmo e convém ter em atenção várias questões.

Convém tentar perceber primeiro o que é que a criança já sabe sobre a morte e que ideias já tem. No caso de alguém que já estava doente poderá já ter sido abordada essa ideia com a criança ou ela ter ouvido alguma conversa. Se foi totalmente inesperado, convém perceber o que ela sabe para integrar a conversa no modo como ela já elabora o tema. Ninguém melhor que os pais para tentar perceber isto.

De uma forma calma, verdadeira e honesta, o tema deve ser apresentado da forma mais simples possível. Morreu porque estava doente, porque teve um acidente (sem pormenores!), porque estava velhinho, etc. E quando se morre parece que se adormece mas nunca mais se vai acordar. Deixa-se de respirar. Ponto. Não invente histórias de pessoas que passam a ser estrelinhas, ou que dormiu, ou que viajou, nada disso. Ele poderá integrá-las depois como forma de lidar melhor com a ausência mas deixe-o ser ele a adoptar a história que lhe fizer sentido.

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E depois disto deve-se deixar ser a criança a elaborar a informação que acabou de receber e a fazer as suas próprias perguntas. Não se deve explicar mais nada que eles não perguntem porque essa informação não vai ser integrada. O que ele estiver preparado para perceber, ele vai perguntar. Responda de forma sincera e simples ao que ele quiser saber mais.

Não faz mal nenhum se a mãe chorar, se o pai chorar, se ele chorar. Todos gostavam muito da pessoa em questão e é normal que fiquem tristes. Também é normal que outras pessoas da família ou amigos próximos estejam mais tristes agora. E que se lhe apetecer chorar, é importante que saiba que pode fazê-lo, sem recriminações nem “não chores”.

Depois da primeira conversa, fique muito atenta(o) a sinais de culpabilização. Se acontecer reforce a razão da morte (porque estava velhinho, porque estava doente…) e assegure-o que não foi nada que ele tivesse feito ou que pudesse ter feito diferente.

É normal que haja alterações de rotinas (sono, alimentação, etc.) nos dias seguintes e que continue a fazer perguntas à medida que for pensando mais sobre isso. Não force nada, mantenha-se disponível para o acarinhar, para conversar e vá respondendo e lidando com as suas inseguranças, sempre com calma e sinceridade. Vá partilhando os seus sentimentos com ele (tristeza, saudades, lembranças, etc.) para que ele também se sinta à vontade para partilhar os dele. Tudo o que vier cá para fora não fica lá dentro.

Se ele se confrontar com a sua própria morte (ou a da mãe, do pai, ou a de outra pessoa próxima) garanta-lhe que ninguém vai morrer tão cedo, que são saudáveis, que têm cuidados e que não é comum que aconteça (não lhe diga isto se não for verdade!). Se for uma criança cheia de argumentos poderá ser necessário reforçar que se alimentam bem, que vão ao médico, que fazem exercício até que ele se sinta mais confortado.

Se a criança já tiver mais de 8 anos, ofereça-lhe a possibilidade de participar no ritual de despedida (funeral, cremação). Parece muito forte mas é sempre pior o que ele poderá ficar a imaginar. Se ele quiser ir, explique-lhe muito bem primeiro tudo o que vai acontecer. Prepare-o para a eventualidade de haver um caixão aberto, pessoas a gritar e a chorar, pessoas a rir ou desinteressadas, muitas ou poucas flores, carros pretos, crematórios, cemitérios, etc. Tudo o que ele já estiver à espera vai causar-lhe menos impressão.

Se optou por não ir (ele ou os pais) e ele perguntar para onde foi o corpo, e como foi, responda-lhe a tudo de forma clara. Se houver uma campa, ofereça-se para o levar lá. Diga-lhe que pode fazer um desenho ou uma carta de despedida (por exemplo) e irem lá oferecer (só se ele quiser!). Assegure-o que pode lá voltar sempre que isso o fizer sentir melhor, pode levar uma carta, um desenho ou falar, não faz mal.

Avise ainda as pessoas que lhe são próximas (a professora, educadora, amigos próximos, etc.) para que possam enquadrar alguns comportamentos ou conversas que surjam noutros contextos que não a sua casa.

Para terminar, tenha em mente que o luto é um processo. Leva tempo e é normal que tenha, inicialmente, uma fase de choque/crise, seguida de uma fase de desorganização e, finalmente uma fase de organização. Parece-nos óbvio que as crianças não estejam preparadas para lidar com a morte porém, ao privá-las disso, estamos não só a ignorar a importância dos seus sentimentos, como também a privá-las de se desenvolverem emocionalmente, criando estratégias e capacidades psicológicas para lidar com a dor e o sofrimento, integrando a morte como um acontecimento natural da vida, passível de ser ultrapassado.

Se, no entanto, achar que alguma coisa não está a correr bem ao longo deste processo, procure ajuda especializada.

imagem capa@Doutissima

6 thoughts on “Morreu. E agora? Como vou dizer ao meu filho?
  1. Alexandre Henriques diz:

    Muito bom o seu artigo, só discordo num aspeto. Depois de explicar que terminou, que a pessoa deixou de respirar, etc, não vejo mal algum em abordar a questão espiritual, aliás, num país católico, onde a esmagadora maioria das pessoas batizou os seus filhos, o acreditar no “céu” não me parece descabido e o conforto em saber que a avó, o avô, o pai ou a mãe estão lá em cima a olhar por nós e que podemos falar com eles, mesmo quando estamos sozinhos, permite o processo do luto em diálogo, evitando feridas internas com consequências desagradáveis no futuro.

    Cumprimentos.

  2. Parabéns pela abordagem do tema,é sempre importante saber como lidar com assuntos mais delicados no que diz respeito a crianças.Tenho uma menina de 4 anos que chorou imenso com a perda do avô e não foi nada fácil lidar com a tristeza dela.É dificil ver o nosso filho triste,e sem saber muito bem o que dizer para minimizar toda a tristeza.Sempre lhe expliquei tudo sem complicar,mas ela é uma menina bastante curiosa,gostaria de saber o que lhe posso dizer quando ela me pergunta para onde ele foi?obrigada

    1. Kátia A. Santos diz:

      Obrigada pelo elogio, Joana. Primeiro deverá tentar perceber o que a sua filha está a querer saber: se quer saber para onde foi fisicamente o corpo do avô ou se ouviu alguma história relacionada com alguém ter morrido e “ser uma estrela”, “ter ido para o céu” ou “estar no nosso coração”.
      Na realidade, ela pode estar a querer entender o mundo e perceber para onde vão as pessoas que morrem, efectivamente. Neste caso, deve explicar-lhe, claramente e de forma que perceba, que as pessoas podem ser enterradas num cemitério ou cremadas (saberá melhor do que ninguém adaptar as palavras e linguagem de forma que ela perceba). Pode até levá-la a visitar um cemitério.
      Se a curiosidade dela é mais espiritual, pode explicar que diferentes pessoas recordam as pessoas que já morreram de formas diferentes e aproveitar para falar com ela sobre o avô. O que gostava nele, o que não gostava, em que ocasiões e como se lembra dele. E juntas definirem como é que o avô vai fazer parte das vossas vidas de agora em diante: onde é que ele vai estar para vocês.
      Espero ter ajudado.

  3. Muito importante e de grande interesse a abordagem deste assunto! Quantas vezes se pensa até que ponto se deve ser inteiramente sincero/a com a criança….. Grande ajuda. Obrigada!!!!

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