Não gostas, pois não? Então não faças!

Todos nós, pais, somos diferentes. Se, como seres humanos, não podíamos ser mais complexos, seria de esperar que nesta coisa da maternidade/paternidade fosse igual.

Por esse motivo tento ao máximo não julgar. O que funciona dentro de uma casa não é obrigatoriamente melhor do que o que se faz na outra. Sei disto e sei também que muitos de nós tomamos decisões e depois, mais tarde, olhamos para trás e pensamos que tínhamos muitas certezas na altura, mas se fosse hoje faríamos diferente.

No outro dia no parque encontrei uma senhora que tem quatro filhos e que costumamos encontrar várias vezes durante a semana. Os mais velhos têm nove e sete anos, os mais novos três e seis meses. São idades muito diferentes e não imagino o caos que muitas vezes deve acontecer dentro de casa.

Neste dia ela estava sozinha com os quatro, o mais novo a dormir no ovo, os mais velhos a saltarem no escorrega e o segundo mais novo andava a correr e a fazer disparates. A certa altura ouvi alguma comoção e prestei atenção ao que estava a acontecer. A mãe chamava o de três anos para vir ter com ela, naquele tom de “imediatamente, não me obrigues a chamar outra vez”. Sei como é, estamos juntas, adorava que a minha filha viesse só de lhe abrir os olhos como os meus pais me faziam, mas a ela falta-lhe esse chip, ou talvez me falte a mim o chip da autoridade que os meus pais tinham.

Mas o miúdo não só não ia ter com a mãe como recuava com ar de medo. Depois percebi porquê, tinha feito uma asneira grande, tinha mandado pedrinhas (que compõem o chão do parque) à cara da mãe. A mão cedeu em ir ela aproximando-se e chegando a um palmo dele, encheu a mão das pedrinhas e zumba, mandou-lhas à cara. Acompanhado de um “vê lá se gostas que te faça isso. Gostas? Não gostas, pois não? Então não faças!”.

Toda eu estremeci. Repito que tento não julgar, mas eu não o faria. Conheço quem use o método, a outros níveis, mas assim nunca tinha visto.

A verdade é que pode resultar, mas está a formatar aquele miúdo para agir assim. Há algumas crianças no parque que algumas vezes fazem exactamente isso, apanhei já uma miúda adorável que quando via os mais pequenos mandarem pedras ia atrás deles a fazer o mesmo e a dizer o tal “não gostas, pois não?”. Devem ter-lho feito a ela também.

Isto pode preparar os miúdos para o imediato, da próxima vez talvez não façam a mesma coisa, com medo que lhes venham fazer a eles a seguir, mas é o que eu considero um mau princípio.

Quando forem adultos e cometerem um erro não terão, ou não deverão ter, alguém a fazê-los passar pelo lado do outro para compreenderem. Porque não é preciso ser quase atropelado para se ter mais cuidado quando se está a passar de carro na passadeira.

Acredito que devemos ensinar a empatia. Que devemos corrigir os erros. Que devemos mimetizar as atitudes que gostávamos que os nossos filhos tivessem.

Eu sei que há dias de cão, em que o cansaço nos faz cometer erros. Talvez tenha assistido a um desses dias. Espero que sim.

Odiaria ver aquela mãe ser chamada à escola porque o filho anda a pisar os colegas, porque um deles o pisou e agora precisa de ver como é. Ou anda a dar encontrões porque lhe deram a ele. Ou a chamar nomes e dizer palavrões porque foi o receptor dos ditos.

Todos os dias são bons para recuarmos um pouco e pensarmos onde podemos melhorar.

Eu todos os dias tenho uma lista sem fim.

Mas tende a ser menor que a do dia anterior.

Que seja assim para todos nós.

 

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