Os nossos filhos não precisam de patrões

Porque exigimos tanto dos nossos filhos?

Como pais não temos de ser infalíveis. Mas temos a responsabilidade de sermos melhores pessoas a cada dia. Queremos um mundo mais justo, queremos mais amor, mais respeito, mais harmonia, mas será que estamos dispostos a dar tudo isto?

Nós próprios precisamos de fazer o nosso trabalho de casa. Precisamos de aprender a deixar de educar em auto piloto. Ter filhos não e apenas tê-los. É um compromisso para a vida. É como gerir pessoas numa empresa. Temos de ser bons líderes e não patrões. Todos sabemos a diferença entre um patrão e um líder. E todos sabemos, também qual deles preferimos ter.

Uma das grandes diferenças entre um patrão e um líder e que o patrão manda, o líder convida e envolve. O líder sabe que é parte integrante nas responsabilidades. Para dar o exemplo inclui-se nelas, concentra-se em soluções, não nos erros. Aceita os erros como fazendo parte do processo, mas poucas ou raras vezes o refere. Aceitar erros, motivar, ensinar sem bloquear, guiar sem envergonhar. Respeitar a natureza de cada um e trazer ao de cima os seus talentos, valorizando aquilo que consegue fazer. Um líder olha para o Cenário Geral.

Se tivermos optar por ser patrões ou lideres dos nossos filhos, optemos por ser líderes. Ser um bom líder pode ter os seus momentos desafiantes, especialmente quando ainda existem tantos mitos que influenciam a forma como educamos os nossos filhos. Mitos que tem despertado, ao longo de gerações, sentimentos enganadores que vão corroendo e afectando dramaticamente as fundações da casa que somos cada um de nós.

Curioso pensar que quando são bebés, damos aos nossos filhos tudo o que querem. Preocupamo-nos com tudo o que precisam e tentamos ao máximo dar-lhes. Se querem mamar, damos de mamar, se choram porque querem colo, damos colo. Porque será que a partir do momento que se começam a manifestar – se mais activamente – quando começam a andar, a falar, a querer – achamos que é hora de imediatamente balizar, ser rigorosos, não deixar, mandar, proibir, e até punir?

As crianças, como qualquer um de nós, querem apenas ser quem são. E querem ser respeitados nas suas necessidades, ideias e vontades. Porque insistimos em achar que elas querem mais do que apenas ser elas próprias? Porque exigimos tanto dos nossos filhos?

Estamos nós dispostos a dar-lhes a elas – a nós próprios e ao mundo – o que exigimos?

Os nossos filhos precisam de melhores liderem. Não de patrões. Preocupamo-nos tanto que saibam cumprir regras, em obedecer, em ficar quietos, calados quando um adulto fala, que nos esquecemos de ser flexíveis. Assim como gostamos que sejam connosco.   Temos medo. E o medo apodera-se de nós. Temos medo que não sejam autónomos se dormirem connosco, temos medo que não saibam comer sozinhos se lhes fizermos um miminho dando a comida na boca quando estão mais cansados. Temos medo que fiquem doentes, temos medo que não saibam controlar, temos medo que não tenham boas notas. Temos medo. E o medo rege todo o nosso percurso.

Os nossos filhos precisam que brinquemos com eles ao que eles gostam de brincar. Não àquilo que nos faltou brincar na nossa infância. Precisam que aceitemos todos os sentimentos que têm, mesmo que não saibamos lidar com eles. Temos de aprender.

Bons lideres confiam e dão ferramentas para que os colaboradores tragam ao de cima o melhor de si. Os bons lideres escutam e valorizam as opiniões e ideias dos outros – SEMPRE – e não apenas quando lhes convém, em vez de imporem as suas próprias ideias.

Bons lideres reinventam o tempo, mesmo que para isso tenham de abdicar dos seus próprios interesses, preocupações ou assuntos. Bons lideres são flexíveis e compreendem que as emoções e a motivação estão na base de toda a produtividade.

Os nossos filhos não precisam de pais infalíveis, mas precisam – e pedem-no permanentemente – de pais compreensivos, respeitadores, motivadores e que os seus sentimentos sejam considerados, ouvidos e aceites. Pais que os aceitem como eles são. Não pais que os queiram mudar e adaptar àquilo que eles não chegaram a ser.

Reformatar o nosso chip parental e um processo. E é um processo que está ao alcance de todos que queiram nele embarcar. E um processo de avanços e recuos progressivos que apenas dependem das nossas escolhas diárias. Que despendem de nós.

Se esperamos que as coisas mudem a nossa volta sem que nós próprios mudemos os nossos hábitos, as nossas ideias, os nossos pensamentos e os nossos sentimentos, os nossos comportamentos, isso será improvável.

Se não nos transformarmos por dentro, nada se transformará à nossa volta.

A infância é a fundação da casa que somos. Se formos rígidos, educaremos pessoas rígidas e inflexíveis. Se educarmos para a tolerância e para a integração, promoveremos pessoas tolerantes, cooperantes e com vontade de ajudar.

Basta olharmos para dentro, para o nosso espelho interior para compreendermos  isto.

imagem@huffingtonpost

 

M. J. Silva é autora dos livros Rich Parent, Poor Parent – Discovering Your Purpose, da série The Rich Parent, sobre parentalidade positiva.
Jornalista, investigadora área do desenvolvimento emocional

Para além de livros sobre parentalidade, escreve também romances e livros infantis. É uma forte activista dos direitos da criança e do fim da violência contra as crianças.

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