Para educar uma criança é preciso toda uma aldeia

Anda a circular um vídeo que nos dói na alma. Vemos jovens que podiam ser os nossos sobrinhos ou filhos, os filhos dos nossos vizinhos ou os colegas dos nossos filhos, a levarem a cabo um conjunto de atividades violentas. Vemos uma vítima (ou serão todos vítima?) a ser esbofeteada e esmurrada várias vezes. A sua passividade também nos inquieta. Tudo é perturbador naqueles minutos. O vídeo deixa-nos tristes, com medo, deixa-nos impotentes e revoltados. No rosto do jovem agredido ficarão marcas. Ficarão marcas também na sociedade?

Serão essas marcas capazes de nos impelir a mudar alguma coisa?

Proponho algumas notas e reflexões para nos ajudar a lidar com a situação, com o choque, com este verdadeiro “murro no estômago”:

NOTA 1 – Nas Escolas o número de Assistentes Operacionais está a diminuir. Os Professores têm cada vez mais trabalho burocrático, os Psicólogos nas Escolas são uma miragem e outros estão mal preparados. Como se fosse pouco, as exigências são cada vez maiores e há a contaminação natural das convulsões sociais típicas da crise e das crises que vivemos.

REFLEXÃO – O que podemos fazer para forçar o poder a dar mais condições às Escolas? As Escolas precisam de mais Assistentes Operacionais, mais Formação (de qualidade, claro!) para os Professores, de mais espaço para se trabalharem as competências sociais, as emoções. E como sociedade civil, o que podemos fazer para ajudar as Escolas? Quais as salas que podemos ajudar a pintar, quais as sessões de sensibilização que podemos dinamizar, quais as associações que podemos criar?

NOTA 2 – Este tipo de acontecimento surge com alguma frequência. Só que a máxima “longe da vista, longe do coração” aplica-se de forma perversa. Como foi filmado e reproduzido nas redes sociais, torna-se mais evidente. Mais real. Mas não podemos esquecer que já aconteceu outras vezes e ninguém gravou. Há números que indicam mais de mil agressões por ano a Professores, Alunos e Funcionários. Os números são assustadores, mas importa reforçar que, no geral, as Escolas conseguem proporcionar ambientes positivos.

REFLEXÃO – Este tipo de acontecimento surge independentemente do nível social ou do tipo de Escola. Devemos estar atentos aos sinais. Porque temos a ideia de que “a mim é que não”?

Não precisamos de Pais ansiosos. Não é positivo demasiada preocupação. Mas ocupemo-nos das questões. Na alegoria da caverna a realidade são as sombras. Era a visão da realidade para os prisioneiros. Libertarmo-nos da escuridão necessita de esforço, de mudança de paradigmas.
Quais são as suas verdades sombra? Porque não põe em causa as suas certezas? O seu filho nunca vai ser vítima? Nunca vai ser agressor? Refletir com conta peso e medida sobre estas questões vai faze-lo estar mais atento. Mais presente. Vai faze-lo ir mais vezes ao quarto dele quando ele estiver entretido com as coisas da Escola. Vai ajudá-lo a quebrar mais vezes o silêncio. Vai dar-lhe mais motivação para o ajudar nas áreas que por vezes não se aprendem na Escola, como a área das emoções.

NOTA 3 – A frase “para educar uma criança é preciso toda uma aldeia” faz todo o sentido.

REFLEXÃO – Mas quantas vezes nos fechamos nos nossos apartamentos, quantas vezes nos limitamos ao nosso mundinho? Quantos de nós viram a cara, se por ventura assistem a um ato desprezível perpetrado por um jovem? E quantos de nós ficamos demasiado ofendidos, quando um estranho, num local público repreende a nossa criança por estar a fazer o que, supostamente, não devia?

A agressividade nasce com o ser humano. É a Educação, o contato com a família, com os pares, é a socialização que vai dando capacidade ao jovem de escolher comportamentos não agressivos.

Onde estão aqueles pais a falhar? Ainda tive receio de usar a palavra falhar, a situação está ainda “a quente”, irmos demasiado à pressa arranjar culpados, pode ser contraproducente. No entanto, terá que se fazer, mais tarde ou mais cedo, esta reflexão.

As marcas da violência estão na cara daquele jovem. Ficarão também na sua alma? Ficarão na minha? Ou amanhã já me esqueci? Farei alguma coisa de diferente?

Um dos meus grandes desafios como Psicólogo, é dar ferramentas para ajudar os Pais ou Professores a passar à ação. Para dar um exemplo, até porque o verão está a chegar, usaremos a questão das dietas. Não basta ler o livro das dietas, é preciso começar a comer melhor. Não basta querer comer melhor, deve começar-se pela qualidade da lista de compras. Com as competências sociais é semelhante, não basta ler, há-que praticar. Há, no entanto, uma boa notícia. Se lermos bastante, se lermos com atenção, se pensarmos sobre o assunto, começamos a abrir portas à mudança. Já aconteceu comigo começar a comer legumes salteados, sem entender bem de onde tinha vindo a ideia. Passados uns dias, descobri um livro onde estava essa sugestão e uma receita de legumes salteados. Eu já tinha lido e relido. Demorou um pouco até colocar em prática, mas aconteceu.

Ajude o seu filho a compreender melhor este mundo das competências sociais, das emoções, para não ser vítima nem agressor. Impelindo-o a passar a ação, dá uma “aula prática” e desenvolve nele algumas competências. Há quatro componentes fundamentais neste mundo de emoções. Conhecê-las ajuda a prevenir a violência. Pratica-las ajuda ainda mais. Tenha atenção a elas e veja ideias de atividades para ajudar os seus filhos a praticar.

1) A emoção dá sinais. Podemos sentir o coração a bater ou o aumento da transpiração. Podemos sentir “borboletas” na barriga. Ajude o seu filho a fazer uma lista destes “sinais”. Pensem em conjunto sobre alguma situação recente em que tenham sentido essas mudanças fisiológicas. Treine-o a ouvir o corpo. Melhor, treine-o a escutar o corpo. Converse com ele sobre a diferença entre escutar e ouvir. Reflita sobre a aceleração do dia-a-dia e da forma como este ritmo pode impedir que sejamos capazes de sentir estes sinais, de ter noção destes sinais. Tentem identificar outras expressões como “borboletas” na barriga para poderem conversar sobre os significados.

2) As emoções são boas ou más. Agradáveis ou desagradáveis. Não quer dizer que sejam simples. Geralmente, o leque de emoções conhecido pelas pessoas, é reduzido. É importante aumentarmos esse leque. Assim, não ficaremos pelo “estou bem” e pelo “estou mal”. Vamos abrir o leque. O espelho da alma (ou dos centros de prazer e desprazer do cérebro) é a face.

3) As expressões faciais são capazes de denunciar as seis emoções básicas e universais. Já agora, sabe quais são as seis? Pesquise com o seu filho em sites de referência ou em livros quais são essas seis emoções. Fale-lhe da importância de estarmos atentos às expressões faciais das outras pessoas. Conte-lhes estórias de detetives e de espiões. Debata com ele a importância de sabermos a cada momento se a nossa expressão está a dizer o que estamos a sentir.

4) As emoções costumam desencadear comportamentos. Geralmente comportamentos de fuga ou aproximação. De luta ou de combate. De ternura ou agressão. As emoções estão ligadas a comportamentos. Conversem sobre os possíveis comportamentos que podem advir das diferentes emoções. Conversem sobre as formas de controlar esses comportamentos. Conversem sobre os momentos em que devemos controlar esses comportamentos e os momentos em que nos podemos deixar ir.

Por Alfredo Leite, Mundo Brilhante, 
para Up To Lisbon Kids®

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Gosto de iniciativas “sem tretas” e com alma. Como a Up to Kids, por exemplo.

A criação do Mundo Brilhante permite-me visitar escolas de todo o país e provocar os diferentes públicos para poderem melhorar. Agitamos. Queremos deixar marcas.

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