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Crianças superprotegidas, adultos frágeis. Aos pais helicóptero.

Crianças superprotegidas, adultos frágeis

Muitos pais privam os filhos da possibilidade de enfrentar riscos, tanto físicos como emocionais. Qual é o limite sadio entre a simples supervisão e o controle exagerado das atividades dos filhos?

Retrato dos “pais helicóptero”, e conselhos úteis para não te tornares num deles

Os americanos chamam “helicopter parents”. Em português “pais helicóptero” são pais que controlam constantemente os seus filhos quando brincam, quando interagem com os outros, quando escolhem o que vão vestir de manhã, sempre. Aqueles pais que, se nos olharmos sinceramente ao espelho, teremos uma grande hipótese de vê-los refletidos.

Tornamo-nos tão obcecados pela segurança que, inadvertidamente, privamos nossos filhos da possibilidade de assumir riscos e de sofrer as consequências dos seus atos, quer a nível físico quer emocional”, explicou a psicóloga social Hanna Rosin, autora de um artigo sobre crianças superprotegidas, recentemente publicado na revista The Atlantic.

A psicóloga enfatiza as enormes mudanças que se verificam no decorrer da última geração: “Comportamentos de pais considerados paranóicos nos anos Setenta, tal como acompanhar à escola crianças de 9 anos, ou proibir o jogo à bola nas ruas, hoje constituem a regra. São, por sinal, considerados um sinal de responsabilidade paternal”.

Postura superprotetora

A medida da postura superprotetora a que se chegou pode ser lida naquele espaço reservado por excelência à liberdade que são os jogos e as brincadeiras infantis. Um recente estudo da Universidade da Califórnia (Ucla), por exemplo, certifica que os filhos das famílias de classe média de Los Angeles passam 90% do seu tempo livre trancados em casa, empenhados em atividades como ver televisão, jogar vídeo jogos e usar o computador.

No espaço aberto, os espaços para jogos e brincadeiras reservados às crianças são seguros, coloridos, homogeneizados e previsíveis, e também destituídos de qualquer desafio.

O Parque The Land

Em Wrexham, na região norte do País de Gales, o parque “The Land” é uma exceção à regra.

The Land é um parque é de materiais deitados doados, prontos para serem reciclados.

Nesse espaço, as crianças não precisam de se adequar ao sentido de ordem dos adultos, podem modificar tudo aquilo que quiserem. Não existe um valor monetário atribuído aos materiais, e as crianças podem construir e destruir. A brincadeira que resulta disso é uma criação coletiva, uma co-criação”, explica Claire Griffiths, gerente do The Land.

A instituição acaba de ser premiada entre os melhores parques de diversão do Reino Unido pela Sport and Recreation Alliance. The Land não foi pensado de forma a separar as crianças com base na faixa etária: “Uma das maiores satisfações é ver as crianças chegarem sozinhas e desenvolverem dentro de poucos dias uma verdadeira rede de amigos”, completa Griffiths, coisa que não acontece na imensa maioria dos espaços de brincadeiras nas grandes cidades, que tendem a segmentar e a separar grupos e a não facilitar as trocas.

The Land – New Day Films – Children, Youth, & Families – Anthropology

Seis comportamentos irresistíveis

Essas opções que anulam os riscos não são, na realidade, destituídas de contra indicações. Segundo Ellen Sandseter, professora de educação infantil no Queen Maud University College de Trondheim, na Noruega, as crianças têm uma necessidade sensorial de experimentar o perigo e a excitação que dele deriva. “Não se trata de coisas perigosas em si mesmas, mas sim de experiências que, do ponto de vista das crianças, parecem perigosas”, completa Ellen Sandeter.

Autora do ensaio “As brincadeiras de risco das crianças a partir de um ponto de vista evolutivo: O efeito antifóbico das experiências excitantes”. Sandeter evidencia no ensaio seis comportamentos “arriscados” que exercem grande fascínio sobre nossos filhos, a sua possível função e seu consequente efeito antifóbico. Por exemplo, andar depressa ajuda a desenvolver a percepção espacial e redimensiona o medo de enfrentar as próprias emoções.

Os outros comportamentos irresistíveis são:

  • enfrentar as altitudes;
  • manipular instrumentos;
  • estar perto de forças da natureza, como a água, o fogo ou um precipício;
  • brincar às lutaa;
  • explorar um território por conta própria.

Como escreveu o teórico holandês Johan Huizinga, “a brincadeira serve para muito mais do que brincar, e enfrentar um obstáculo que do ponto de vista da criança parece arriscado e superá-lo, permite às crianças desenvolver a coragem e incrementar o sentimento de segurança e confiança na sua própria capacidade de enfrentar os problemas. “Embora sem querer, pais excessivamente presentes e protetores produzem crianças e adolescentes com muita dificuldade de se perceber a si próprios e de pensar em si mesmos como pessoas autónomas, com características e limites próprios”, observa Francesca Broccoli, psicóloga e psicoterapeuta italiana.

Privar as crianças da possibilidade de enfrentar desafios e correr riscos enquanto brincam pode ter consequências a longo prazo.

As crianças que não puderam fazer experiências, conhecer-se a si mesmas e aos seus próprios limites serão pessoas frágeis e com baixa autoestima. Recordemos, para começar, que ser superprotegido significa ser desvalorizado e não reconhecido como adequado, capaz e competente”, prossegue Broccoli. Essa fragilidade poderá  exprimir-se através de comportamentos de passividade, insegurança, dependência, e também através de fracassos consecutivos, raiva, atitudes desafiadoras e provocadoras e incapacidade de tolerar qualquer frustração.

Capa da revista The Atlantic, com artigo sobre crianças superprotegidas

 

Quando se passa da simples supervisão ao controle, o resultado é algo que não faz bem nem sequer às mães.

Uma pesquisa da University of Mary Washington publicada no Journal of Child and Family Studies, revelou como uma maternidade “intensiva” – feita de estímulos constantes e incapacidade de delegar a supervisão dos filhos – se traduz numa sobrecarga psicológica que impacta sobre a saúde mental das mães.

“A sugestão mais importante para os progenitores é a de confiar nos próprios filho. No fato que não se irão magoar deliberadamente e no fato de que devem experimentar o risco para aprender a superá-lo”, conclui Griffiths.

Artigo de Stefania Medetti, jornal La Repubblica

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Bebés e Crianças Parentalidade

Crianças com muita personalidade (e torcidas) vão longe na vida

Quando os meus filhos eram mais novos, eu questionava-me o que tinha eu feito para merecer crianças com tanta personalidade. Olhava para as outras famílias e os filhos eram tão fáceis de agradar e de lidar. Os meus filhos sempre foram muito vivos. Muitas vezes eram mesmo desobedientes. Testavam constantemente a minha paciência. Ou as coisas corriam à maneira deles, ou não havia maneira possível. Quando obrigados, faziam birras, gritavam e esperneavam até conseguirem o que queriam. Cheguei a questionar-me se esta vontade própria toda seria genética, e a quem é que eles teriam saído?

Num domingo, à saída da missa, o meu filho Andrew de 3 anos na altura, estava particularmente agitado. Enquanto ele gritava, uma senhora mais velha veio ter comigo e disse-me: “Os seus filhos são muito queridos!

Olhei para o meu filho aos gritos, e perguntei se estava a falar com a pessoa certa.

“Eles são muito destemidos, o que significa que vão alcançar muito na vida”

Eu disse-lhe que esperava que ela tivesse razão, e confiante, a senhora assegurou-me que sim.

Confesso que, o que mais me surpreendeu foi o timing dela. Todos os domingos me via com os meus filhos na missa a debater-me com o comportamento deles, semana após semana. Ela sabia que passei mais tempo de pé a tentar controlá-los do que a ouvir os sermões. Não percebi porque é que escolheu aquele momento em particular para falar comigo. O meu filho estava aos gritos, a minha paciência praticamente a explodir e foi nesse momento que a senhora veio dizer-me que eles tinham um potencial imenso.

Eu sabia que esta senhora não era uma mulher qualquer.

Ela tinha criado 5 filhos fantásticos. Era daquelas pessoas que falava pouco, mas quando abria a boca os restantes paravam para ouvir, porque era a personificação da sabedoria. Quem me dera ser como ela!…

E lá ficou, ao meu lado, a dizer-me que estes momentos avassaladores com os meus filhos iriam passar. Ela sabia da luta interna que eu estava a viver: sabia que me questionava se valia a pena leva-los à igreja ou sobre o que poderia fazer para os educar melhor.

Eu quis desesperadamente acreditar nela. Mas como é que podemos ter certezas? Na verdade ela nem sequer conhecia os meus filhos!

Enquanto me ia embora, continuei a pensar nas suas palavras até que o meu coração se encheu de esperança e os olhos de lágrimas. Eu queria muito acreditar que esta senhora sabia de algo que eu não sabia. Aliás, eu acho que ela sabia MUITAS coisas que eu nem sequer sonhava. E quem sabe, talvez fosse a resposta às minhas preces. Uma garantia de que esta fase não duraria para sempre e que os meus filhos, aparentemente impossíveis, tinham tanta personalidade porque iriam precisar dela um dia mais tarde. Isto deu-me algum conforto na altura.

Tenho pensado muito nas suas palavras desde então.

Penso nelas cada vez que estou a passar por momentos mais difíceis. Lembro-me sempre que uma fase destas se transforma numa fase de crescimento e compreensão mutua. Lembro-me sempre que vejo crianças “impossíveis” a tornarem-se em adolescentes motivados e conscientes, cuja personalidade forte e a força de vontade se enraizou de forma a fortalece-los e fortalecer os que os rodeiam.

Hoje em dia, não tenho qualquer dúvida de que, há uns anos atrás, aquela senhora sabia exactamente o que estava a dizer. Ela sabia, e só agora é que eu estou a aprender que a personalidade forte numa criança não deve ser algo que nos assusta porque é uma excelente qualidade.

É claro que estas crianças precisam de orientação e exigem paciência extra.

Estas crianças precisam de pais exigentes, lideres fortes que, gentilmente mas com firmeza, lhes lembrem que têm muito que aprender. E que o caminho que escolhem nem sempre é o melhor. Estas crianças exigem pais que lhes ensinem a canalizar a força de vontade em actividades construtivas, o que para elas, pode ser avassalador.

Houve momentos em que me senti a falar para uma parede.

Outros em que me senti  a andar para trás e não para a frente. Houve momentos em que só me apeteceu baixar os braços e desistir e por vezes acabei mesmo por fazê-lo. Mas também houve momentos em que me senti o aluno e não o professor. Houve momentos que me sentei e fiquei a observar maravilhada a genica e a convicção dos meus filhos. Nestes momentos consegui visualizar a grandeza deles, ainda num processo de casulo.

Eu sei que tenho muito a aprender com os meus filhos.

Até com o mais velho de 15 anos. E sei que faltam muitos anos para ver o resultado do meu trabalho com os meus filhos. Sei que por mais que me esforça, nada me garantirá que se tornarão em adultos respeitáveis e felizes. No entanto estou num ponto em que confio nas palavras daquela senhora, cuja sabedoria excedia largamente a minha, ainda hoje em dia. Estas palavras deram-me a força que precisei para superar as fases mais difíceis.

Talvez também consigas encontrar conforto e força nas palavras dela.

Confia nelas, como eu confiei, quando não conseguires guiar-te na floresta. Confia nelas quando te questionares se a lagarta algum dia se vai transformar em borboleta. Apoia-te nelas quando a tua paciência for levada ao extremo e quando tiveres a certeza de que, um único dia a mais vai acabar contigo.

Confia nestas palavras. A minha amiga sabia o que dizia.

 

Artigo publicado originalmente em Simplyforreal

 

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Aceitar a imperfeição. Miúdos perfeitamente imperfeitos

Miúdos perfeitamente imperfeitos

Sabem quando temos uma pequenina, minúscula, micro borbulha na cara e sempre que nos olhamos ao espelho SÓ vemos aquela ENORME inegavelmente florescente borbulha?

Ou naquele dia que fazemos um jantar espetacular, delicioso, quase épico que deixaria o Gordon Ramsay feliz, e aquele convidado apenas diz “Hum, encontrei uma espinha!”?

E, quando o nosso filho tem um teste daqueles bem difíceis para o qual estudou imenso e ouve “Podias ter tido uma nota melhor!”? Até podia… mas acabou de ficar sem vontade nenhuma de estudar nos próximos 20 anos.

Queremos o melhor para os nossos filhos.

Queremos que eles conquistem o mundo e sejam felizes. Mas às vezes, sem querer, colocamos o mundo nas suas costas quando pretendíamos exatamente o oposto. Devagarinho, sem perceber, exigimos que eles sejam perfeitos e sem intenção prendemo-los num “Fixed Mindset”, onde têm tendência para se sentirem alienados e ansiosos. Ficam presos nos resultados, no desfecho.

No porquê? Receosos dos erros que vão cometer mesmo antes de eles aparecerem. E, como a energia vai para onde vai a nossa atenção, a probabilidade de os erros acontecerem é mesmo muito grande. Aha! mas eu li o post anterior e podemos aprender com os erros! Podemos, mas quando os encaramos como positivos e focos de aprendizagem e não como buracos fundos onde nos queremos enfiar porque desiludimos o mundo e, os nossos pais.

Então, como posso ajudar o meu filho a ir mais longe sem o peso da perfeição?

Primeiro, é preciso confiar. Confiar nas capacidades da criança, confiar na evolução natural do aperfeiçoamento das ferramentas que ele tem à sua disposição. Confiar no amor que temos por eles e eles por nós. Dar-lhes responsabilidade e tempo. Principalmente valorizar o seu processo e reconhecer o seu esforço.

No caso do teste, podemos referir o esforço e dedicação com que estudou, como aprendeu imensas coisas novas que não sabia. Como evoluiu em relação ao teste anterior e perguntar se poderia ter feito alguma coisa diferente na forma como estudou. Mostrar disponibilidade se ele precisar de ajuda e, deixá-lo definir a forma como acha mais adequado preparar o seu plano de estudo para o próximo teste (responsabilidade). Focar a atenção no como?

Quando valorizamos o esforço em vez do resultado, as crianças ficam motivadas e desenvolvem um “Growth Mindset”. Uma vontade de ir mais longe, de aprender com as experiências, de descobrir caminhos novos, de sair da sua zona de conforto e desafiar os seus limites. Vontade de crescerem felizes para dentro e para o mundo. Vontade de explorar caminhos inovadores e fazer descobertas únicas. Força heroica para se levantarem quando ouvem um grande“não”.

Aceitar a imperfeição. Miúdos perfeitamente imperfeitos

Aceitar a nossa imperfeição é o ponto de partida mágico para crescer sem parar. Para ter mais felicidade na nossa vida e contagiar os outros com a nossa alegria de viver. É o momento em que aprendemos a ser como o bambu que dobra com o vento e não parte, que é resiliente e, apesar de parecer frágil é imensamente poderoso e adaptável.

Nunca controlamos nada.

Isso é só uma ilusão a que nos agarramos para nos sentirmos seguros. Este facto por um lado é assustador mas também é verdadeiramente potenciador; somos os heróis da nossa própria história e podemos ir muito além dos nossos limites e medos. Fazemos o nosso caminho a cada dia, a cada passo, a cada decisão.

Se conseguirmos ensinar aos nossos filhos a dançarem na jangada que abana, a valorizarem cada passo que dão, cada descoberta que fazem, cada cm que crescem, vamos dar-lhes a oportunidade única de serem felizes pelo que são e de acederem ao poder ilimitado de um crescimento imperfeitamente feliz.

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Regras segundo a vontade dos mais pequenos

Regras segundo a vontade dos mais pequenos

Tendo em consideração a natureza, personalidade e comportamentos dos mais pequenos de hoje, é importante perceber que novas regras se impõem para os entender e acompanhar.

A cada geração os mais novos vão apresentando diferenças, sinal que a humanidade está em constante mutação e evolução. Assim, facilmente o que guiou a nossa educação já não serve totalmente a deles e a deles não servirá a geração seguinte.

Partindo deste pressuposto vamos falar sobre algumas regras que melhor preenchem as vontades dos mais pequenos.

Sabendo delas, os pais vão estar mais enquadrados e em paz.

Algumas características notórias na grande maioria dos casos das crianças de hoje são a autonomia, forte auto-estima, comunicação desenvolta, intuição, fácil socialização, padrões de exigência, rapidez de raciocínio, necessidade de experiências sensoriais e manuais, multi absorção, multi dimencionalidade, hábitos de alimentação diferentes, padrão afetivo e emotivo bem desenvolvido, entre outras.

Tendo em conta os pontos apresentados é necessário ter em consideração que as crianças necessitam de estar em bem estar. Se tal não acontecer tornam-se embirrentos e mal dispostos com facilidade. Isto revela resistência a ambientes saturados, pessoas em desequilíbrio e momentos aborrecidos, e requerem um desenvolvimento multifacetado que contenha variadas opções, boas soluções e um nível emocional elevado.

Tudo o que cai fora deste cenário provoca problemas e as crianças refletem isso mesmo. Surge a necessidade de um modelo em expansão e enriquecimento constante. É importante ver a criança num prisma que a respeita integralmente. Um exemplo prático passa por entender as novas características, necessidades e talentos para melhor os apoiar. Entender que o coeficiente emocional e intelectual devem estar em equilíbrio e, para que isto seja real e possível, é necessário compreender bem a criança, os seus dons e capacidades e de que maneira podemos contribuir para seu desenvolvimento mantendo a integridade destas características.

Respeitar as regras dos mais pequenos não quer dizer que lhes damos o poder.

Quer dizer que os compreendemos com amor, atenção e tempo, respeitando a sua individuação e ensinando-os a utilizá-la.

A nova geração está ligada a uma nova consciência. Assim, parece natural que se entenda as novas crianças com outras capacidades cognitivas, emocionais, espirituais e psíquicas. O nível de empatia com o ambiente e todos que fazem parte do universo social é muito elevado, pelo que há necessidade de apoio mais alargado, disponível e multifacetado.

Com um perfil auto didata e autónomo estas crianças requerem adultos mais preparados. Assim, aguns pais terão que estudar para estar à altura e fazer um acompanhamento educacional, técnico e emocional adequado. Quem não o fizer corre risco de desgaste, birras, mau aproveitamento escolar, perdas de tempo sem necessidade e falta de comunicação eficaz e entendimento.

Há muita sensibilidade emocional, social, ética, comportamental e espiritual. O fato de o adulto não entender bem algumas destas matérias não quer dizer que a criança não as tenha e que não deseje apoio qualificado.

Surge a característica interna de utilização dos dois hemisférios cerebrais e isto, naturalmente, provoca toda a diferença pois a utilização do hemisfério direito, até ao momento menos desenvolvido ou evidenciado, remete para a sensibilidade, aprendizagem pelo meio visual, colorido, imaginativo, intuitivo e criativo.

Pouca percentagem destes pontos fazem parte do programa educativo ou de regras que apoiam o desenvolvimento infantil.

Assim as novas regras para os mais pequenos são:

  • Auto estima para pequenos e grandes, conseguida através de momentos de auto-avaliação, frequência de pelo menos uma disciplina útil, escolhida pelo próprio onde possa desenvolver um dos seus potenciais inatos;
  • Educação emocional e positiva, o que pressupõe momentos curtos mas de qualidade quando a educação é ensinada;
  • Não haver castigos, gritos e chantagem emocional, mas sim conversas firmes sem autoridade ou domínio;
  • Dar e seguir o exemplo num ambiente de empatia e simpatia
  • Busca da verdade acima de todas as coisas, com respeito e diferenças
  • Contacto diário com a natureza numa tarefa de responsabilização pela limpeza da energia da casa e de cada Ser
  • Escolhas e respeito mútuo. Porque a criança pode saber menos ou estar menos preparada não quer dizer que possamos ter domínio e superioridade sobre ela. Esse factor assusta e inibe o bom desenvolvimento.

É importante que país e avós recebam esta informação e que os mais pequenos tenham acesso a aulas de interiorização, de respiração e relaxamento, criatividade e expressão.

Nestas atividades a criança aprende a organizar-se. A saber lidar com os seus picos de energia física e criativa. A comer saudável e equilibradamente. A utilizar a energia mental e física de maneira equilibrada e a seu favor. A combater a ausência de concentração e eficácia, principalmente em momentos de stress relacionados com as diversas épocas escolares e a interagir com a natureza e a música como elementos de estabilização e renovação.

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Gritar não é uma forma de educar. Ralhar ou não ralhar, eis a questão. 

Gritar não é uma forma de educar

Ralhar ou não ralhar? Gritar ou não gritar? Eis a questão. 

Alguns pais dirão:
“Depende! Por vezes é importante!
Certos professores dirão:
“Não tenho sangue de barata. Há alturas em que é importante para impor a disciplina!“.
Outros, porém, confessarão:
Gostava de ralhar menos. Gostava de me controlar mais.

E é aí que surge a expressão “força de vontade”.

Sobre a “força de vontade” para não ralhar com os filhos ou alunos de forma injusta e descontrolada, muito se debate, muito se reflete. Mas quantidade, como se sabe, nem sempre é isso mesmo.

Se há expressão que me tira do sério, é a expressão “força de vontade”.

Quem a usa, geralmente está a acusar alguém de não a ter, como se fosse algo simples, como se a pudesse adquirir numa loja de conveniência. Como se os que não a conseguissem exercer, fossem fracos.
Não é bem assim. Fico contente por poder partilhar uma definição de “força de vontade” que acho apropriada, porque estrutura este conceito. Uma definição que fui estudando, ao ler Daniel Goleman.
Primeiro, o pai que está prestas a ralhar, deve ser capaz de desviar de forma clara, intensa e construída, a atenção do mais simples, do mais “à mão”, do mais acessível, que é o tal ralhar…
Igualmente, o professor, perante uma turma “em ebulição” tem que ser capaz de desligar o foco da sua atenção daquela solução que surge cativante, e até, sedutora.
São uns segundos preciosos, onde se joga o desenrolar da situação.
Depois, quem deseja evitar ralhar, gritar de forma injusta, deve ir levando o foco da atenção para o objetivo futuro. Deve conseguir entender o orgulho que vai sentir no futuro, quando analisar o seu comportamento, quanto constatar o seu auto-controlo.

No fundo, deve conseguir trazer para o presente os frutos de uma educação mais pensada, menos gritada, com menos repelões.

Deve imaginar a relação positiva com os filhos, e o sucesso de uma autoridade conquistada aos alunos, de forma natural.
Nestes momentos pode ajudar olhar para o infinito. Ou fixar um ponto distante na sala. Pode ser útil olhar pela janela. Cada um poderá desenvolver a sua estratégia. Há quem se concentre uns segundos na respiração.
Estas ideias têm por trás o período de tempo onde a frase (que pode ser dita interiormente!) fará toda a diferença:
Estou prestes a ralhar. Como me vou sentir depois? Quem estou a desiludir? Ralhar é a melhor solução?”
São estradas que nos podem levar ao objetivo do auto-controlo.
São caminhos no córtex pré-frontal que são úteis na educação, mas também, na gestão da alimentação, das finanças e das relações amorosas.
Força de vontade?
Tem muito que se diga. Mas vale a pena o esforço porque gritar, não é uma forma de educar.

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Respira fundo, tu consegues. Eu sei que dás o teu melhor

Respira fundo, tu consegues.

Eu sei que dás o teu melhor.

Eu sei que o teu filho está a gritar no meio do supermercado, mesmo depois de ter lanchado, dormido e brincado. Estás no lugar daquela mãe que sempre juraste que nunca virias a ser e, para piorar, sentes que fizeste tudo bem.

Ou que se mandou para o chão no jardim a meio de uma brincadeira.

Ou que entrou no quarto, viu alguma coisa de que não gostou e começou a chorar copiosamente.

Eu sei que estás a falar com calma, até estares a falar com menos calma do que gostarias.

Sei que o teu filho não está a ouvir-te, apesar do esforço monumental que estás a fazer.

Que estás a olhá-lo nos olhos e à espera que isso seja suficiente para o lembrar que estás ali, com toda a paciência do mundo, mesmo ele não estando a demonstrar uma grande solidariedade para contigo.

Eu sei que te apetece virar costas e fingir que não é nada contigo.

Que parece que mais vale dizer “desisto” e deixar que ele se canse.

Já te baixaste para falar ao mesmo nível que ele, não levantaste a voz nem a mão e, mesmo assim, não parece ter resultado.

Eu sei que perdeste a paciência e acabaste por o puxar por um braço para o canto para, pelo menos, as pessoas deixarem de olhar para ti como quem sabe tudo, como quem resolveria aquilo num ápice.

Sei que sentes culpa por não conseguir sempre dar a volta à situação.

Que gostavas que a tua voz tivesse um efeito calmante imediato.

Que o teu filho fosse tão teu amigo nessas situações como tentas ser amiga dele.

Sei que gostavas que o caminho não tivesse sobressaltos. Ou pelo menos que os sobressaltos não te deixassem com a cabeça à roda, a dizer o que não querias, a sentir-te menos do que deverias.

Sei disso tudo e sei que tentas.

Eu sei que dás o teu melhor.

Sei que às vezes achas que não és capaz.

Que choras sozinha no duche ou ao adormecer.

Partilhas o que sentes, mas desvalorizas e brincas com a situação para não te doer mais no peito.

Sei que juras que para a próxima vez já tens a solução mágica, já sabes o que vais fazer e dizer.

O que tu não sabes é que não és a única.

Todas as mães sofrem destes sintomas, por este ou por aquele motivo.

Não há filhos perfeitos e mesmo os mais bem comportados, os melhores alunos, os mais espertos, levantam desafios inimagináveis.

Sei que às vezes queres fechar os olhos por mais de dez segundos e fazer o ruído desaparecer… Mas não te esqueças que à tua frente está uma criança a aprender como se deve agir enquanto adulto. E tu és o seu adulto de referência.

Por isso, respira fundo. Tu consegues.

Afasta o mau humor, o mau feitio (teu ou dele), as energias negativas e tenta.

Não deixes de tentar porque nisto da maternidade às vezes é o teu filho que aprende contigo, noutras és tu que aprendes com ele.

E serão mais os dias em que adormeces a lembrar-te de como cantou aquela música pela primeira vez sem ajuda. Em que no supermercado te ajudou a escolher os legumes. Em que no duche reparou que te tinhas esquecido dos chinelos e tos levou até à banheira.

Se precisares, tira nota: os dias maus existem para que possas dar (sempre) mais valor aos bons.

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As casas que somos. Visualize a sua casa. Estável. Estruturada. Direita.

As casas que somos

Visualize a sua casa.

Estável. Estruturada. Direita. Mas ao mesmo tempo flexível, resistente e segura.

Segura de si. Segura para si.

Visualize o telhado. Consegue vê-lo? As paredes exteriores, as janelas, as portas em todos os seus detalhes. Quer seja mais antiga ou mais recente, convive harmoniosamente com a restante paisagem à sua volta. Quer tenha varandas, terraço ou apenas uma janela pequena por onde a luz pode espreitar, a sua casa e sólida. Não cai. É robusta. Não desmorona. Mesmo que surjam fissuras, ela não cai.

As paredes foram erguidas tijolo após tijolo com o suor precioso de alguém que deu o seu tempo e a sua dedicação a cada momento, a cada detalhe. Alguém que deu o seu melhor para que um dia essa fosse a sua casa. O seu lar.

Visualize agora o interior.

Percorra cada divisão e aprecie como em tempos houve mãos de homens e mulheres a trabalhar arduamente para que a sua casa se fizesse. Pessoas. Como cada um de nós. Pessoas com famílias. Homens e mulheres com sentimentos, emoções, fragilidades.

Agora suba até ao telhado. O telhado foi colocado telha após telha, com vagar, arte e perícia, seguindo a técnica com que cada material precisa de ser manuseado. A madeira não se trabalha da mesma forma que o ferroou que a telha. O cimento é assentado à mão e delicadamente alisado para que as paredes consigam ficar direitas. Cada material necessita de uma manuseamento próprio para conseguir ser trabalhado.

Vários materiais podem ser aplicados simultaneamente, mas raramente com atropelos.

O telhado foi aplicado apenas após as paredes exteriores – e interiores – estarem construídas. Nunca antes. Nunca ao mesmo tempo. E caso acontecesse, os construtores teriam de voltar atrás, redefinir estratégias, gerir equipas e voltar ao processo correcto para dar estabilidade à construção. Mas SEMPRE respeitando os materiais. O que os materiais precisam. Utilizando cada uma das ferramentas que o material precisa.

Agora, ousemos ir um pouco mais profundamente.

Visitemos aquele lugar que os nossos olhos não alcançam. Aquele lugar que está lá e que tão raramente nos lembramos que existe. No entanto, ele está lá. Ele foi o início.

A origem a partir da qual tudo se ergueu.

Está lá de uma forma tão presente que sem ela seria impossível a nossa casa, segura e estável, se aguentar por um milésimo de segundo.

A nossa casa só se ergue durante anos, décadas ou gerações quando as suas fundações são estáveis o suficiente para lhe dar estrutura, mas flexíveis o suficiente para – em caso de um abanão forte – ela permanecer erguida.

Foi graças ao respeito pelos materiais que os construtores conseguiram edificar as nossas casas, começando por uma dedicação atenta às fundações.

Aquilo que os nossos olhos nunca vêem mas que sem elas, nenhuma casa resistiria.

E nós somos como as casas que vivemos.

A nossa infância são as nossas fundações, o lugar onde aprendemos o que partilharemos com o mundo, o que partilhamos com os nossos filhos, onde aprendemos a amar ou a castigar, a tolerar ou a julgar, a agredir ou a integrar.

Se os construtores usarem nas fundações material deteriorado, se optarem por não respeitar os materiais e insistirem em trabalhar o aço da mesma forma que trabalham a madeira, se usarem instrumentos que não funcionam para que a casa se erga de forma flexível, mas estruturada, dificilmente a casa resistirá sem colapsar. Eventualmente.

Sem fundações emocionais assentes no respeito, no amor, na tolerância – especialmente por aquilo que não conhecemos ou não entendemos – dificilmente a casa que somos se erguerá de forma saudável, preparada, sustentada para receber quem podemos tornar-nos.

A infância é onde as emoções se formam.

Como pais, é da nossa responsabilidade –  tal como é da responsabilidade dos construtores das nossas casas construir as fundações das nossas casas –  formar as emoções dos nossos filhos, educá-los com compreensão, respeito e amor – em vez de reprimendas, etiquetas, críticas, castigos ou imposição de poder – dando-lhes as ferramentas que precisam para que se sintam valorizados e apoiados em todos os momentos. Desde bebés.

Se formarmos as emoções dos nossos filhos da mesma forma que os alimentamos ou vestimos, tendo como base a beleza, os sonhos, o amor, a compreensão, a integração – trabalhando ao mesmo tempo as nossas próprias emoções, as nossas próprias crenças e valores – serão casas felizes, emocionalmente bem estruturadas, acolhedoras e tolerantes.

E ao olharmos para eles daqui a uns anos, do interior da nossa própria casa – ou do nosso telhado – para a casa que eles também serão, ao vê-los serem eles também pais de pequenas fundações que se erguerão noutras casas e noutras e noutras, teremos a certeza de que cumprimos o nosso propósito. A nossa missão. E que lhes deixamos um legado de amor e de bondade.

Aquele legado que sonhámos deixar a primeira vez que imaginámos sermos pais.  E do qual o mundo precisa. E o mundo começa em nós

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Elogia em público, corrige em casa

Elogia em público, corrige em casa

Enaltece em público as virtudes dos teus filhos, elogia-os quando merecem, mas corrige-os num ambiente privado, sem humilhar. Os gritos e reprimendas em voz alta e as comparações recorrentes com outras crianças destroem a autoestima de uma criança.

O tema sobre como corrigir as nossas crianças quando estamos em público é um assunto complexo e delicado. Existem mães e pais que, simplesmente, não hesitam em criar uma cena à base de gritos e críticas, sem pensar nas consequências que isso pode ter. Um mau comportamento, um disparate ou uma resposta parva, por vezes desencadeia um drama difícil de esquecer.

Além disso, também existe outro tipo de situação realmente particular. Vejamos um exemplo: vamos com nosso filho para o shopping e, por qualquer razão, o seu comportamento não é o ideal. No mesmo instante, surgem os olhares reprovadores à nossa volta, como aves observadoras à espera do castigo. À espera da disciplina férrea como se, com uma palavra tudo ficasse resolvido.

Se não atribuímos o castigo que os outros lhe acham devido, somos rotulados como “mau pai” ou má mãe”, porque a nossa criança portou-se mal e nós não agimos em conformidadeEssa pressão social, em algumas ocasiões, não pesa os complexos labirintos que envolvem criar um filho, ou inclusive as particularidades de cada criança. É preciso disciplinar, sem dúvida, e devemos corrigir, mas é preciso fazê-lo bem. Disciplinar é um trabalho continuo que deve começar em casa. Perante situações pontuais devemos resolver a birra ou atitude sem humilhar, e em privado voltar a falar sobre o que se passou, de forma a corrigir e evitar nova situação idêntica.

É imprescindível educar com inteligência, com carinho, intuição e com o suficiente acerto para não ferir, nem para intensificar ainda mais as emoções negativas.

Em qualquer relação pessoal a pessoa que usualmente corrige ou chama a atenção em público com um tom acusatório, depreciativo e irónico, está a ferir emocionalmente o outro, e com os filhos acontece exactamente o mesmo.  Um patrão que recrimine o empregado à frente dos colegas nunca será um bom líder.

E imprescindível fazer uso da Inteligência Emocional. Um ralhete à frente de terceiros abala a nossa autoestima e é, acima de tudo, uma humilhação pública premeditada e sem anestesia. Se cada um de nós tivesse a sensibilidade adequada e empatia, compreenderíamos que existem fronteiras privadas que não devemos cruzar.

Na educação o assunto é ainda mais doloroso. Alguns professores, por exemplo, têm o péssimo hábito de corrigir os erros dos alunos à frente da turma e num tom depreciativo: “de certeza que nunca irás passar na minha disciplina”. Por outro lado, muitas mães e muitos pais tendem a tecer os seus filhos através dessas agulhas afiadas com o fio da má pedagogia.

Um erro comum é comparar o comportamento de um filho com o do irmão ou de outra criança qualquer :“o teu irmão traz sempre boas notas”, “és sempre o mais mal comportado da turma”.

  • Mesmo assim, comentar com terceiros aspectos pessoais ou comportamentais dos filhos, à frente do próprio filho como se ele estivesse ausente, é um costume comum que afeta diretamente a autoestima das crianças. É preciso levar isso em consideração.
  • Corrigir aos gritos focando exclusivamente o erro cometido, mas sem educar e sem orientar ou apresentar uma solução para corrigir, é uma estratégia pouco pedagógica que é obrigatório evitar.

Corrige, orienta, disciplina, impõe limites, mas sempre com calma e paciência, em particular e sem atacar e ferir.

Isso quer dizer que devemos ser “passivos” quando nossos filhos se portam mal em público? Claro.

A típica “palmada na hora certa” que alguns defendem para travar a conduta intempestiva de uma criança, é na verdade o caminho mais rápido para intensificar a raiva e/ou as emoções negativas. Bater não educa, fere e deixa marcas internas, tal como os gritos ou as reprovações do tipo “não tens remédio” ou “não sei o que é que hei-de fazer contigo”.

Para aplicar a disciplina em público, se a ocasião nos obriga a isso, temos de ter em conta os resultados a longo prazo na criança.

Segundo um estudo feito pelo “Family Research Laboratory” da Universidade de Hampshire, repreender os filhos em público deixa sequelas para toda a vida. Intensificam-se tanto as emoções negativas que essas crianças terão no dia-a-dia tendência para apresentar um conduta desafiadora.

Pois bem, vale a pena ter em mente os seguintes conselhos:

  • Deixa de lado as opiniões alheias.
    Não te sintas pressionado/a por quem te rodeia no momento, que estejas no supermercado, no médico ou na rua: não são eles a quem deves demonstrar que és um bom pai, uma boa mãe, mas sim ao teu filho.
  • Não te deixas levar pela frustração.
    Usa a tua Inteligência Emocional e tenta compreender o que se passa com o teu filho/a e o porquê dessa conduta.
  • Em vez de dares uma ordem com um grito, oferece opções que façam com que a criança reflicta

Lembra-te que as crianças são feitas de um material muito delicado. Por vezes vivem num mundo emocional caótico e explosivo: no entanto, a nossa tarefa é descomplicar, aliviar, oferecer estratégias de controle e autoconhecimento para que cresçam felizes

Sê paciente e compreende as emoções dos teus filhos. Aquilo que te ofende, também ofenderá o teu filho. Lembra-te que é sempre melhor elogiar em público e corrigir em particular, mas sem ofender ou ferir.

 

Por Valeria Amado, adaptado por UpTo Kids®, original em A mente é maravilhosa

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Educação Parentalidade

Erros que nos esticam

Eu detestava erros. Sentia-me mal quando os cometia, desde a nódoa na camisola quando estava quase a sair de casa, à resposta lá se foi o queijinho no Trivial Pursuit. Quando eles aconteciam e, os erros acontecem todos os dias, parte de mim sentia que falhava e que não correspondia às expectativas que alguém, inclusive eu, tinham de mim. Foi por isso que decidi investigar melhor porque me sentia assim e, deliberadamente decidi inscrever-me em certas coisas em que certamente iria ser a pior da turma. Dança do ventre, lá vou eu! Tudo para a esquerda e eu a abanar-me para a direita. Gira, gira, gira… onde é que foram todos?? Quanto mais me enganava, mais me ria. Quanto mais me ria, mais me libertava. Quanto mais errava, mais perdia o medo de errar. Quando perdia o medo, mais arriscava e mais aprendia sobre mim e sobre a tarefa em questão.

O Eduardo Briceño escreveu um artigo muito interessante sobre os erros. Um dos meus erros favoritos são os erros que nos esticam. Estes erros surgem quando estamos a tentar expandir as nossas atuais habilidades sem ajuda e esticamos para atingir outro patamar, como o nível seguinte de um jogo de computador. Os erros acontecem naturalmente porque estamos em terreno novo em que nos desafiamos e aprendemos novas habilidades e capacidades.

96% das vezes em que o pequeno catita comia a sopa fazia uma obra do Jackson Pollock no babete. Um dia disse “Mamã, já não preciso do babete.”TCHAM TCHAM senhoras e senhores vem lá um erro que estica! Tirei-lhe o babete, ele comeu a sopa e quando acabou fomos ver ao espelho: apenas uma pequena pinta na camisola. Reparei que durante o processo estava com muito mais atenção à colher, ia avaliando até onde a podia encher para a sopa não cair e, em geral muito mais focado no seu desafio. De dia para dia foi melhorando a técnica e diminuindo as nódoas. Acho até que ele cresceu uns 5 cm só a comer sopa!

Estes erros são mesmo muito positivos e devem ser estimulados nos nossos pequenos catitas. São eles que devem definir a sua zona de desenvolvimento proximal, ou seja, a zona ligeiramente além do que já conseguem fazer sem ajuda e que representa o nível ideal do desafio de aprendizagem.

Outros erros igualmente importantes no processo de aprendizagem são os erros AHA- acabei de descobrir porque isto correu mal. Surgem quando perante determinada situação cometemos um erro por falta de conhecimento ou informação e, no momento em que acontecem percebemos imediatamente o que está de errado ali. Por exemplo, atirar-me para cima de um skate e perceber AHA não sei travar. Uma boa forma de aprender com eles é fazer a pergunta “O que posso fazer de diferente na próxima vez?”

Depois temos os erros trapalhões. Estes surgem quando estamos a fazer algo que já dominamos mas estamos completamente distraídos. Acontecem porque somos humanos mas se forem muito repetitivos pode ser uma pista para aumentarmos a nossa capacidade de foco e atenção.

Aprender com os erros e desafios estica-nos e faz-nos aprender muito sobre nós. Esta aprendizagem não é automática, só aprendemos com os erros se refletirmos sobre eles e não os encararmos como inimigos ou focos de vergonha. Ensinar o teu filho a errar é maravilhoso para ele e para ti. Vai ajudá-lo a ir mais longe na sua viagem, a encarar a vida com curiosidade em vez de medo e, a ser mais tolerante consigo e com os outros. Vai desenvolver a criatividade, a resiliência e a autoestima. Vai ensinar-lhe que ele pode crescer todos os dias mais uns bons cms enquanto erra, tropeça e ri.

Errar, afinal, não é assim tão errado.

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Educação Parentalidade

Attachment parenting | Parentalidade com apego – Queridos pais…

Para quem não está familiarizado com o termo Parentalidade com apego (Attachment parenting), é um estilo de parentalidade caracterizado por praticar a disciplina positiva, o co-sleeping (filhos e pais partilharem uma cama) ter uma resposta rápida ao choro e alimentar em livre demanda sempre que possível. Se a parentalidade com apego não é para si, então este artigo também não é. E não há problema. Isto não é nenhuma manifestação contra a parentalidade convencional (nem qualquer outra!) De certeza que os outros estilos de parentalidade terão vantagens para os pais e os filhos, mas eu não sei nada sobre elas, por isso não posso falar nem comparar.

Mas sobre a parentalidade com apego, eu sei.

Os meus quatro filhos foram criados assim, e quero tranquilizar os pais que enquanto observam os filhos a dormir nas usa cama se questionam se os estarão a “estragar”. Eu estou a falar para a mãe que está a amamentar não só para alimentar mas também para tranquilizar ou adormecer, e se questiona se deveria deixar os filhos chorar para aprenderem a acalmar-se sozinhos. Eu estou a falar para o casal que não tem um fim-de-semana desde que o bebé nasceu porque tu estás a amamentar, e questionas-te se valerá o esforço. Se és esta mãe, então sim, o artigo é para ti!

Nós não planeamos ser este tipo de pais. Nunca houve um momento de reflexão que nos levasse a decidir ser pais com apego. Aliás, quando tivemos o nosso 1º filho nunca tínhamos pensado muito sobre o assunto. A parentalidade com apego aconteceu naturalmente, simplesmente fez sentido.

Quando o bebé ficava na nossa cama dormia melhor e consequentemente nós dormíamos melhor. Então passamos a praticar o co-sleeping. Não com o intuito de dar resposta a horários, era simplesmente mais fácil e mais natural já que estava a amamentar em livre demanda dia e noite. Como o bebé estava sempre comigo, quando o punha na alcofa ou no carrinho ficava impossível, e rapidamente descobri a maravilha dos slings. Muito mais fácil de transportar, e ele ficava feliz.

Em pouco tempo tornamo-nos em pais com apego a 100%. E apesar de ter sido tudo natural e agradável para nós e para o nosso filho, eu continuava a ter dúvidas quanto às nossas escolhas e a quanto a explorarmos caminhos menos convencionais da parentalidade.

Foram essencialmente algumas fases e etapas de desenvolvimento dos nossos filhos que nos fizeram questionar as nossas escolhas: quando o meu filho mais velho fez 4 anos desenvolveu uma intensa ansiedade de separação dos pais. Será que estávamos a torna-lo muito dependente? Com 5 anos, o meu segundo filho arrastava-se invariavelmente para a nossa cama a meio da noite. Seria normal? O meu terceiro filho até aos 18 meses só queria andar ao colo. Recusava-se a caminhar. Estaria tudo bem? E o bebé começou a falar muito mais tarde que as outras crianças. Será que o tínhamos mimado demais, que lhe tínhamos dado tudo antes sequer que ele nos pedisse?

Eu só gostava de saber na altura o que sei hoje: que os meus filhos se iriam desenvolver bem. Que iriam crescer e tornar-se em adultos responsáveis. Não quero falar antes de tempo, porque ainda não são todos adultos. Só um é que já saiu de casa, e o “bebé” tem 12 anos.

Mas correu tudo bem. E eu não atribuo tudo ao tipo de pais que fomos, porque acredito que grande parte da personalidade deles é de nascença, mas acredito que tê-los criado com tanto amor e tanto a apego teve um profundo efeito positivo nos meus filhos.

Da minha experiência, estes são alguns dos resultados a longo prazo da parentalidade com apego:

Miúdos criados com apego são gentis.
Os meus filhos não são perfeitos, mas são genuinamente gentis uns com os outros, connosco, e com miúdos que têm problemas na escola. Estes miúdos crescem a acreditar na gentileza alheia. Quando choram, alguém gentilmente lhes dá atenção. A disciplina é gentil. O resultado de serem gentis para as pessoas é que, geralmente, lhes respondem mesma forma.

Miúdos criados com apego são independentes.
Uma das críticas da parentalidade com apego é que cria crianças dependentes. Esta constatação não podia estar mais longe da verdade. Eles não eram independentes aos três ou quatro anos de idade, ou mesmo até aos seis ou sete anos (e ainda bem). Mas na pré-adolescência e depois disso os meus filhos e outras crianças que conheço que foram criadas pelos mesmos princípios, tornaram-se completamente confiantes e autónomos. Eu acredito que a segurança profunda que é transmitida na parentalidade com apego promove a independência.

Miúdos criados com apego são afectuosos. Já há muito tempo que não ouvimos aqueles passos de criança no corredor à noite em direcção à nossa cama (sim, cada um dorme na sua cama hoje em dia). Mas os meus filhos gostam de se aconchegar. A minha filha de 12 anos gosta de estar aninhada connosco quando vemos um filme juntos. As minhas filhas adolescentes riem-se juntas e abraçam-se com frequência quando estão a ver alguma coisa no computador. Os meus filhos raramente entram ou saem de casa sem esperarem um abraço. Os miúdos criados com apego sentem-se confortáveis a demonstrar afecto mesmo quando é suposto serem “fixes”!

Miúdos criados com apego são apegados – num nível saudável. Apesar de todas as advertências sobre os pais não serem amigos dos filhos, nós somos. Isso não significa que não sejamos responsáveis ou que os tratemos como se fossem adultos. Mas nós gostamos genuinamente de passar tempo com eles e vice-versa. Já reparei que se passa o mesmo com outras famílias apegadas. Há uma facilidade e ligação na relação pai/filhos que contraria o estigma da adolescência difícil.

Miúdos criados com apego têm ligações fortes com os irmãos. Os meus filhos lutam. Os filhos das ouras pessoas também lutam. Mas para lá disso, existe um amor duradouro e persistente que supera tudo, provavelmente derivado da criação de um vínculo familiar forte.

Miúdos criados com apego são miúdos felizes. Todas as crianças que conheço criadas com apego, incluindo os meus filhos, são crianças felizes. Viveram uma infância e primeira infância literalmente nos braços das pessoas mais importantes da sua vida, os pais. Foram inundados de amor e carinho. Atenção, afeto e a segurança de terem pais presentes são tão importantes como uma necessidade básica nas crianças. Uma criança criada com apego é bem nutrida de amor. O resultado é uma criança saudável e feliz.

Para nós, a criação com apego é o único caminho para a parentalidade. Os meus filhos estão longe de ser perfeitos. E eu fiz mais do que a minha conta de erros como mãe. Mas eu gosto das pessoas em que se tornaram. Gosto da sua essência.

Não sou, nem pretendo ser, uma especialista de parentalidade. Mas quando era uma mãe inexperiente não foram especialistas que me deram respostas às minhas dúvidas e preocupações. Foram outras mães – mães que me contaram como tinham feito, o que tinha resultado com elas.

A parentalidade com apego resultou connosco e com os nossos filhos. Por isso, se estás a ter dúvidas, relaxa. A parentalidade com apego por vezes é muito exigente, mas o tempo é curto e passa a voar, por isso aproveita. Estás a criar momentos inesquecíveis e miúdos incríveis.

Por Laura Hanby Hudgens para Huffingtonpost