exemplo

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Que exemplo somos?

Que exemplo somos?

Há dias difíceis. Dias em que mal temos paciência para nós, mas é importante lembrar que estamos a construir mundo, o mundo das nossas crianças. O mundo em que se vão formar, em que estão a ganhar raízes para serem gente, em que estão a aprender a relacionar-se com os outros e, acima de tudo, consigo mesmos.

Eu própria sou uma mãe que às vezes tenho de respirar fundo, lembrar-me que a minha filha é um bebé, que não compreende tudo e que estou a aprender com ela mas, principalmente, estou a ensiná-la. E é isso que me faz tentar ser melhor, agir melhor, ter mais paciência, agir segundo a velha máxima de tratar os outros como gostaria que me tratassem e, mais importante ainda, tratar a minha filha como gostaria que os outros a tratassem.

Não temos de ser sempre exemplos perfeitos porque erramos, somos humanos e isso dota-nos de uma falibilidade com que também aprendemos. Mas podemos sempre tentar mais.

No outro dia, na sala de espera para entrar para a consulta de pediatria, estava um casal com um bebé de cerca de um ano. O bebé estava no carrinho e todas as outras crianças da sala estavam no chão, a explorar o espaço, a brincar na área preparada exactamente para isso com material lúdico para os miúdos. O bebé, encantado com aquela agitação, pedia à sua maneira para descer do carrinho. Esticava os braços a pedir que o tirassem dali. A certa altura, começou a choramingar. A mãe, visivelmente enfadada, acabou por o tirar do carrinho, olhou-o nos olhos ainda ao colo e disse-lhe, altiva: Estou a tirar-te daqui porque quero e não porque estás para aí a choramingar.

Já muito se falou de os pais, principalmente as mães, se julgarem muito. Tento não o fazer, mas naquela situação custou-me. Senti que aquela criança deve ser educada naquela base, que apesar de não saber comunicar de outra forma, lhe vão dando permissão para umas coisas e não outras porque querem e não porque isso a deixa feliz (à criança). Pensei que provavelmente até pode ser um bebé que chora muito (não parecia, mas nunca sabemos o que se passa nas vidas dos outros…), que os pais pudessem ter tido uma noite difícil, que estivessem cansados. O seu comportamento é desculpável mas não posso dizer que seja – para MIM – o ideal. Tive vontade de me aproximar e dizer que dava um olhinho enquanto ele brincava com a minha filha, para eles ficarem descansados, mas sei que isso não seria bem aceite.

Há uma semana, no parque onde costumo levar a minha filha ao final da tarde, estava uma rapariga mais velha, com os seus sete anos, a correr contente e feliz, de um lado para o outro. A mãe estava fora do recinto do parque, ao telemóvel, irritada. Dizia-lhe para andar e não correr, para não subir ao escorrega, que tinha os sapatos cheios de pó (inevitável quando o chão é feito de pedrinhas), que estava corada, a transpirar e se ia constipar, que mania que ela tinha de andar sentada no chão. Pensei imediatamente que a miúda estava a fazer tudo o que era suposto: a brincar com os equipamentos, não estava a aborrecer ninguém, estava tão feliz e divertida e tudo isto a brincar sozinha. E mesmo assim a mãe não estava satisfeita. Como já disse, há dias em que não temos cabeça, não estamos disponíveis. Temos direito a esses dias. Mas se sabemos que é assim, então é uma questão de optar por os levar para casa e os deixar brincar com coisas que não necessitem de companhia e acompanhamento. Mais fácil dizer que fazer? Provavelmente. Provavelmente também, aquela mãe mesmo tendo um dia mau – que era visível que estava a ter – preferiu levar a filha ao parque, já que não tinha culpa do seu mau dia. Mas depois não conseguiu relaxar, não se deixou levar pela energia positiva dela. Pena.

Estes são dois exemplos daquilo que vejo e me deixa a pensar. Como será que a minha relação com a minha filha é vista por quem está de fora? Mais importante, como é vista por ela?

Tento, mesmo com todos os meus defeitos, que as coisas boas sejam sempre em número superior às coisas más, que a mensagem que passa seja a mais positiva possível.

Às vezes não consigo. Fica a nota mental para que seja a excepção.

Podemos sempre ser melhores pais.

Os nossos filhos agradecem.

imagem@weheartit

O M do seu nome passou a significar também M de Mariana, o nome da filha de quase três anos, e M de mãe, este sim verdadeiramente maiúsculo.
Guionista

Sonhava ser escritora mas, aos onze anos, uma professora de língua portuguesa garantiu-lhe que ninguém em Portugal jamais poderia considerá-lo uma profissão digna desse nome

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