Filhos Únicos – A queda de um mito

Filhos Únicos – A queda de um mito

Às vezes, quando estou sozinha, penso em mim própria.
O exercício já não é novo.
Sou filha única e passei todas as fases do meu crescimento fazendo perguntas a mim mesma.
Todo o esquema da minha vida era gizado na minha cabeça. Mesmo às perguntas mais difíceis tive sempre de encontrar respostas, encontrar soluções, e sem ajuda ou interferência de irmãos, havendo concordância comigo mesma, avançava.
E às vezes, tantas vezes, de forma errada.
Precisava apenas de ter vontade própria. Auto-estima.
Não tinha barreiras, fronteiras, jogos de poder.
Este é o segredo dos filhos únicos.
Precisamos estar dos dois lados da mesa para fazer um jogo. Temos de adivinhar o que o outro vai fazer para fazer a melhor jogada.
O outro, que nunca existe, é apenas uma questão de consciência. Acabamos sempre por fazer o que queremos, porque apesar de inventarmos outro alguém, esse alguém nunca nos faz grande frente, e a infância, pródiga na inocência, em nada vê mal e tudo nos parece fazível, mesmo a pior estupidez.
Isto de fazermos o que queremos, não é ser mimado, é não ter oposição. São coisas totalmente diferentes. Trata-se de uma necessidade, ou seja, é uma falta, e não um ganho.
As pessoas quando sabem que sou filha única, dizem-me logo que sou mimada, assim, sem pensar. Também dizem que as magras não comem e que as gordas comem demais. É um estigma. Uma nódoa daquelas muito tesas que nunca saem na totalidade.Ora porque raio serei eu mais mimada do que as pessoas que têm irmãos?
‘Porque tinhas tudo para ti, os mimos todos.’
Não. Os mimos não se repartem e não se gastam.
Até parece que uma mãe quando acorda, tem uma dose limitada de mimos para os dois irmãos. Se um se atrasa mais a acordar, quando chega à cozinha, a mãe já gastou a dose toda com o mais madrugador.
Que coisa ridícula. Perguntem às mães, que elas logo vos respondem. Gostam dos filhos com uma dose de amor igual. Elas sabem muito bem explicar que, o que difere de filho para filho não é a dose de amor que lhes dedicam, é antes uma espécie de combinação astrológica. Entendem-se melhor com o Manuel porque o Manuel é aquário. O Pedro é escorpião, e é mais arisco. Gosta igualmente dele, mas discutem mais vezes.
Se eu for escorpião, mesmo sendo filha única, a minha mãe não me dá o mimo todo a mim. Dá algum ao gato que nasceu em setembro, não faz perguntas e não tira más notas.
Por outro lado, se fizer asneira, as palmadas são todas minhas, e se uma mãe se cansa a bater em três filhos, e mesmo assim ficam todos doridos, imaginem a mãe que larga a fúria toda no mesmo rabo. O que tem isto de mimoso?
A questão de sermos egoístas é outra que tal. Nunca fui egoísta, aliás a minha dose de egoísmo é muito menor do que a dose de egoísmo que sempre vi nos irmãos pequenos. Fervia grande discussão sempre que queriam alguma coisa. Brinquedos comuns davam sempre confusão. Como tinham de se impor para ganhar a posse do brinquedo, que era ‘dos dois’ tornavam-se mais egoístas e possessivos.
O mesmo com essa coisa do amor da mãe. A mãe é minha. O pai é meu. Alguns irmãos lutam até ao fim da vida por essa atenção, e amiúde desenvolvem sentimentos de culpa por não granjearem mais amor, do que o irmão que nasceu depois, ou antes. Depois amenizam-se com esse sentimento, mas ele permanece latente.
Como podem constatar, a teoria está totalmente ao contrário.
Os filhos únicos não passam por estas fricções de disputar amor e bens materiais. São mais calmos e não dão tanta importância ao ter.
Ao dar, ao emprestar, os filhos únicos não tem o sentido de posse tão apurado, além daquele que é natural em todas as crianças numa certa fase. Normalmente a fase em que os outros teimam em ‘dar irmãozinhos’ aos filhos únicos. Outra pressão social que os filhos únicos de costas muito largas assumem sem culpa.
O senso comum desgasta-me.
No outro dia, por uma questão puramente astrológica, não quis pedir um trabalho a uma colega. Preferi fazê-lo sozinha, ainda que tenha demorado mais tempo. Claro! Não sei trabalhar em equipa. Sou filha única.
Toda a gente sabe que os filhos únicos desta vida, vivem cada um em seu planeta, cada um em sua empresa, cada um em sua casa.
Não se juntam com ninguém.
Os filhos únicos são todos ermitas.
Os filhos únicos têm todos o mesmo nome: O Principezinho.
Mais uma teoria contraproducente.
Os filhos únicos estão habituados a pensar duas vezes sobre o mesmo problema.
Lá em cima, no jogo de mesa, precisaram fintar-se a eles próprios. Não é por isso uma questão de mimo, simplesmente não tinham ninguém a quem contrapor a sua ideia, logo, a pulsão é para resolverem por si só, as questões.
Há muito quem diga que os filhos únicos passeiam pela savana de nariz muito empinado.
Que são muito convencidos.
E são.
Precisaram de o ser.
Precisaram ter uma dose maior para avançar nas brincadeiras.
Se se depararam na infância com uma árvore muito alta, tiveram de decidir sozinhos se a subiam. Não há mais ninguém para empurrar, não há mais ninguém para amparar a queda, não há ninguém para ajudar na mentira quando o joelho aparece todo esfolado em casa. A responsabilidade é toda nossa.
Para sempre.
Subimos ou não?
A solidão do filho único é a mãe da auto-estima. Não é a mãe e nem o pai que nos traz pela manhã a auto-estima misturada no leite. Somos nós que a desenvolvemos sozinhos, e isso às vezes não é positivo, pois pode nascer muito abalada ou cheia de erros.
Ser filho único não é mesmo nada bom.
É um mito que se criou com base em princípios materiais, que colocam a tónica do filho único no ganho material que tem ao não haver mais ninguém com quem dividir as possibilidades materiais dos pais. Mas ter um irmão, pode ser muito melhor do que ganhar uma voltinha de cinco anos numa universidade particular.
Além disso, estou sozinha com um pai e uma mãe, que são dois.
Não tive mais amor por ser filha única, tive talvez mais peso, mais responsabilidade, mais olhos nos meus ombros, mais expetativas centradas em mim.
Não passei por intervalos da chuva nas travessuras da infância, e não passo pelos intervalos da chuva nos não-sucessos da vida adulta.
Ser filho único é tudo menos positivo, e quem pensar o contrário está muito errado. 
Tenho muita pena quando vejo a maior parte dos casais impossibilitados de ter mais filhos, e de poderem proporcionar aos seus filhos únicos a alegria de ter um ou mais irmãos, que aprendem e desenvolvem as suas capacidades em conjunto, que não ficam sem respostas às questões magnas da infância.
O saber comparado é um saber muito mais perfeito, mais ponderado, e leva-nos a todos muito mais longe.
O que pode haver de melhor do que o irmão para abraçar, para dançar aquela música, lembrar aquela miúda, ter um olhar e um sorriso cúmplice quando a mãe começa com as ‘coisas dela’?
Não será isso o verdadeiro mimo, que eu, como filha única nunca vou ter?irmãos

Licenciada em Serviço Social, e Pós Graduada em Gestão de Recursos Humanos.

Dedica grande parte do seu tempo livre à escrita, à leitura e à arte. É casada e mãe de uma menina de oito anos, a frequentar a escola pública.
Um dia vai ser escritora, mas por enquanto continua a trabalhar.

12 thoughts on “Filhos Únicos – A queda de um mito
  1. Pingback: Irmãos
  2. O amor multiplica-se quando se tem mais filhos, há que chegue para todos, o resto é que não. É impossível multiplicar o tempo disponível que se tem por 2, ou 3 ou 4 ou 20. Pode-se ter muito tempo e não faltar a ninguém, mas quando há pouco tempo, que é mais frequente na sociedade de hoje, não é que “falte” a alguém, mas não é a mesma coisa. E não consigo imaginar alguém que tenha tido 1 filho e passado 2 ou 3 anos outro ( ou 10!) dizer que após o outro consegue dar a mesma atenção a qualquer um deles que dava ao primeiro. Acho que vem daí a expressão mimada, até porque se substituir tempo por $ ou bens vai dar ao mesmo. Existe algo que um filho único tem que os outros não têm, por parte dos pais.
    Acredito que um “filho único” perde muito: mimo, amor, cumplicidade, entre outros do irmão. Mas ganha muito por parte dos pais que tem mais tempo…

    ( Eu não sou “filho único”, não trocava a minha irmã, o nosso crescimento, algazarras, confidências, enfim tudo…por nada deste mundo, tento apenas explicar a ideia do filho único mimado… 😉 além disso sempre achei que a melhor prenda que se pode dar a um filho é um irmão, embora muitas vezes não seja possivel)

  3. Não sei como vim aqui parar, Uva. Mas só hoje, imagina, leio isto.
    Identifico-me tanto com o que aqui escreveste. Sempre me disse, e a quem me queria ouvir, que eu não gosto, nunca gostei de ser filha única e, por esta razão, a minha primeira cria não seria única. É-o, até hoje, com 14 anos. E provavelmente assim se manterá até ao fim dos dias, apesar dos ainda recorrentes pedidos e desejos “Quando eu tiver um irmãozinho…”. Isto mata-me por dentro e tento não mostrar o quanto estas palavras me magoam, por eu saber que não o vai ter, pelo menos, biológico. Agora mais racional: faz/fazem falta, para o bem e para o mal, para ajudarem e confrontarem. Enfim…
    🙂

  4. Sou filha única e concordo plenamente com a escritora ou escritor do texto…por ser filha única não tive mais ou menos mimo, não tive tudo o que queria,enfim mitos que se criam ao redor dos filhos únicos…
    ouve fases que senti falta de ter um irmão ou irmã,outras que nem podia ouvir falar em tal..simplesmente aprendi a viver assim, aprendi a respeitar a decisão dos meus pais em ser só eu e eles..aprendi a ser a princesa deles..

  5. Fui filha única até aos seis anos. Não aceitei a vinda da minha irmã. Expressava-o tacitamente. Sentia ciúmes das caricias que a minha mãe delegava nela. Nunca me senti tão só.O tempo foi passando …. nunca me lembro de os meus afetos se centrarem nela. Os meus pais emigraram, contava eu oito anos. Fiquei entregue a uma amiga dos meus pais, solteira, farmacêutica e destituída de afetos. Fui para um colégio interna. De lá trouxe muito do que sou hoje. Calada, sem auto-estima interiorizava todos os valores.A minha irmã continuava com os meus pais. Entre chegadas e partidas, lágrimas contidas e resignações escondidas vive a minha adolescência e juventude sem partilhas nem confidências.As lutas eram minhas,os desesperos eram meus. Eu era a minha confidente das lágrimas que tantas vezes me assaltavam e me roubavam a alegria de ter uma família. A minha irmã e eu eramos distantes e não possuíamos os mesmos princípios. Formamos-nos, casamos,tivemos filhos. Os meus pais regressaram definitivamente, já eu tinha um filho.Ela ficou lá. A velhice dos meus pais uniu-nos. Eu acompanhei com toda a ternura a doença oncológica do meu pai. Sofri muito. Já passaram dois anos e meio e ainda não fiz o luto. Aquando do seu falecimento a dor foi maior , inexplicável, tortuosa….Nestes tempos comunicava com a minha irmã amiúde. Partilhava com ela a minha dor de ver o Pai a deixar-nos aos poucos. Precisei dela, de alguém com quem chorar.Ela veio três dias antes do falecimento do nosso querido Pai. A presença dela foi imprescindível.Senti que o seu apoio e a sua presença foram” um lugar” onde fui buscar o heroísmo daquele sofrimento e onde o meu espírito pode repousar. A presença de um irmão é outro coração que bate com o nosso.Hoje tenho a minha mãe comigo. A minha irmã telefona diariamente.Eu preciso dela para tomar decisões em relação à Mãe (88 anos). Não os tive nos anos …..mas tenho-os no fim da vida e preciso da cumplicidade da mana. Adoro a relação dos meus filhos. Hoje já adultos e dois grandes amigos do coração. O destino…a gratidão…o amor dos laços que a vida nos faz trilhar. Grata pela vida. Não há um senso comum…os caminhos tem muitas cruzilhadas,muitos degraus a subir e a descer e vamos andando neste impasse. <3

  6. Bom dia,
    “Que coisa ridícula”.. lol

    “Os mimos não se repartem”.
    Porque levas as coisas tão à letra? Tens que saber interpretar o que se diz, apesar de poderem ter ou não razão.
    Penso que não é muito difícil perceber que ao ser filho único os pais têm mais tempo livre, mais tempo para dedicar a um único filho, mais dinheiro para o poder mimar com mais coisas, etc.
    Acho que não é difícil perceber o que se quer dizer quando se diz ‘Porque tinhas tudo para ti, os mimos todos.’ Ainda por cima quando para viver neste país temos que trabalhar tanto que não temos tempo para estar com os nossos filhos. E agora não me venhas dizer que o tempo dedicado a cada filho é igual se for 1 ou 3. God.

  7. Obrigada pelo texto. É isso tal e qual. O “és mimada” ou o “levas sempre a tua avante” é a banda sonora da minha vida. Apesar de ter meios-irmãos nunca vivi com eles, não sei o que é compartilhar histôrias de infância. E o pior virá no futuro, quando os meu pais precisarem de cuidados, como é que vou fazer?! Não digo só economicamente mas psicologicamente. Mais ninguém vai entender a dor que sentirei, porque apesar de mais tarde ou mais cedo todos nós perdermos os nossos, não vou ter ninguém para perceber a dor que é perder os meus.

  8. Tão, mas tão verdade. Ser filha única é mesmo isto. Ser filha única é uma espécie de solidão que nos acompanha a vida inteira…

  9. Sou filha única, nunca lamentei esse facto, aprendi muita coisa sozinha, e talvez, à conta disso, me tenha tornado muito independente, até demais no entender dos meus pais, cujas expectativas focavam em mim a toda a hora. Fui muito planeada também, durante mais de uma década. Mas o que vem ao caso é que tenho noção que, apesar de ter por vezes sentido falta de partilhar medos, inseguranças, cumplicidades, etc, foi um bem necessário para me tornar na pessoa que sou hoje, que gosta de resolver os seus problemas sem a ajuda de ninguém (às vezes corre mal), que gosta de estar acompanhada, mas que sabe muito bem estar sozinha.

    Por outro lado, ser filho único também é ter o melhor dos dois mundos: se nós não quisermos estar sozinhos, temos sempre parentes ou amigos como companhia, sem ter a obrigação de conviver com eles a toda a hora.

    Concordo plenamente no desacordo com a máxima “ser filho único é ser egoísta”. A prova é que tenho um grupo eclético de amigos egoístas e altruístas, variadamente filhos únicos ou não, o que quer dizer que o factor egoísmo nada tem a ver com a “solidão”.

    É bom saber que alguém nos compreende 🙂

  10. Eu sou a filha mais velha de três, e revejo-me em muita coisa que partilha, o desbravar sozinha todos os desafios, sobretudo, mas em muitos outros pontos. Infelizmente, a sociedade impõe-nos estes estereótipos, e por vezes dou comigo a segui-los…e fico triste, ensino a minha filha (única) todos os dias a não ser um estereotipo, espero conseguir continuar a ter forças para remar contra a maré. Gostei muito da sua partilha. Cada família é única, tenha um filho ou dez. O importante é que sejamos todos felizes e imunes a criticas alheias 🙂 Beijinhos maternais <3

  11. Eu tenho um irmão e também tive de brincar sozinha. Ele tem 6 anos a mais que eu, e não brincava a quase nada comigo. Mas a maioria das vezes eu brincava com amigas, não com o meu irmão. O facto de ser filha/o único não quer dizer que brinque sozinho. Tenho um primo que é filho único e brinca mais acompanhado do que eu da idade dele.
    E a questão dos mimos em algumas situações é verdade noutras não. Conheço ambos os casos. Filhos únicos que são super mimados e filhos do papá e filhos únicos que não são mimados. Eu sou um bocado mimada e não sou filha única. Mas vejo mais isso nos pais com mais dinheiro e com menos tempo. Porque tentam compensar de formas erradas.
    E há desvantagens em ter irmãos, há! Vou expor o meu caso: o meu irmão chegou ao 9º ano e decidiu ir estudar para outra escola (estudavamos num colégio e ele quis ir para a pública). E os meus pais concordaram sem problema. Mas correu mal. Então, 6 anos depois, quando eu quis sair do colégio, os mais pais não quiseram que eu fosse. Conclui o meu 9º ano com excelentes notas para provar que estava motivada para sair. E eles lá me deixaram ir sob a condição de: se eu faltasse a alguma aula voltava para o colégio. Eu não faltei às aulas, conclui o 12º e a universidade. Bah.
    Conclusão: os meus pais impunham barreiras em mim porque viram que deram liberdade ao meu irmão e não correu bem. Eu tive de provar muito mais aos meus pais para eles me darem confiança do que o meu irmão.
    Além disso, sou um bocado egoista, e quando era criança era bastante. A culpa era do meu irmão, porque ele é um ser humano excelente, e tinha um indice de partilha bem acima da média, ele não se importa de perder para os outros estarem bem. O que me habitou mal.
    Só quero dizer que, há vantagens e desvantagens em ter irmãos. A minha mãe descarregou imenso em mim por causa do meu irmão. Eu era a1ª a acordar e a estar à mesa e ouvia porque o meu irmão não se levantava. Ela mandava vir comigo chateada. Isto aconteceu imensas vezes. Ela descarregar em mim por coisas nada a ver comigo.
    Apesar de tudo, acho que temos de achar os pontos positivos, No meu caso, o meu irmão é a pessoa mais importante do meu mundo, e damo-nos bem.
    Desculpa o testamento.
    Beijocas

Gostou deste artigo? Deixe a sua opinião!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Verified by MonsterInsights