Tens quinze anos, cabelo castanho claro curto e uns olhos lindos que engolem o mundo.
Ontem, quando te dirigias para casa passaste por um casal de adolescentes como tu que estava a discutir. Seguiste o teu caminho até que ouviste as palavras que o rapaz chamava à rapariga. Detiveste-te. Olhaste para trás e viste como lhe segurava o pulso com tanta força que faria qualquer um chorar. Ouviste a rapariga a pedir baixinho que ele parasse mas ele não estava a vê-la, estava furioso.
Eu e a minha filha estávamos um pouco mais afastadas, e só me apercebi que se passava alguma coisa porque ela gelou quando as palavras subiram de tom e se agarrou às minhas pernas. Estava com medo. Não está familiarizada com a violência. Teve a atitude típica para alguém com um ano e meio. Peguei nela e aproximei-me com calma, a tentar perceber o que estava a acontecer. Tu estavas ainda mais calma que eu, com metade da minha idade. Pedias ao rapaz que soltasse a namorada porque estava a magoá-la. Ele disse-te para não te meteres. Respondeste que não podias. Chamou-te um nome. Respondeste que não te conhecia, que não eras nada disso e disseste-lhe o teu nome: Laura. E que largasses a rapariga. Ele voltou a si e olhou em volta, percebendo que toda a gente o olhava. Soltou-a. Envergonhou-se e disse que estavam só a discutir. Não olhou mais para a namorada e foi-se embora. A rapariga começou a chorar baixinho. Disseste-lhe que já estava tudo bem. Ofereci-lhe água e ela abraçou-te. Disse obrigada. Que ele não era assim, mas que às vezes ficava irritado. Sabiamente aconselhaste-a a procurar alguém que não se irritasse com ela e muito menos que a magoasse. A rapariga disse que gostava dele e que ele tinha muitas coisas boas. Que… Não a deixaste terminar. Disseste que ela é que sabia. E chegou a tua mãe. Quis perceber o que se passava. Dei-lhe os parabéns pela filha que tinha. Quando lhe contaste o que fizeste fiquei com a sensação que não te bateu apenas porque estavas rodeada de pessoas. Proibiu-te de voltar a fazer tal coisa. Entre marido e mulher não se mete a colher. Tentaste ripostar mas a tua mãe não deixou. Levou-te dali pelo braço, a dar-te o maior sermão de sempre. O que é que tinhas na cabeça?
Por favor não te atrevas a ouvir a tua mãe.
Sabes que mais? Ela, tal como a minha filha, tem medo. Medo que te metas numa situação perigosa, com alguém que não tenha respeito pelos outros e te magoe também. Eu entendo-a e deves entendê-la e ter cuidado. Mas não deixes de ajudar quem precisa.
Isto aconteceu em Lisboa, num final de uma tarde igual a tantas outras. E acontece demasiadas vezes, e em grande parte ninguém vê. Ou não quer ver.
Está na hora de mudar a mentalidade que aquela mãe nomeava: entre marido e mulher não se mete a colher. É por isto que tantas vítimas continuam vítimas. Porque os vizinhos sabem, ouvem, mas não fazem nada. Porque há na polícia quem receba as queixas mas não lhes dê seguimento. Porque há assistentes sociais que têm conhecimento mas permitem que o agressor permaneça perto das vítimas. Nem todos viram a cara, há quem faça um trabalho extraordinário, mas ainda há demasiadas pessoas que se escusam de agir. (Nota: tanto polícias como assistentes sociais têm as suas tarefas dificultadas e há verdadeiros heróis, que felizmente são a maioria. Aqui refiro-me às excepções, àqueles que por motivos de várias ordens não conseguem fazer o seu trabalho como deveriam).
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E está na hora também de ensinar aos nossos filhos que os tempos mudaram e as mulheres procuram a igualdade (de direitos, quando é que entendem de uma vez?) mas isso não significa que se deva esquecer a máxima: a uma mulher não se toca nem com uma flor. E está na hora de ensinar as nossas filhas a valorizarem-se. A afastarem-se de quem as oprime, as rebaixa, as faz sentir que não são merecedoras de um tratamento humano. Porque é disto que se trata. Ensinemos isto e ensinemos também os nossos filhos a não se deixarem usar por aquela rapariga de quem gostam há tanto tempo e que finalmente reparou neles (e lhes saca os apontamentos e os goza e embaraça quando estão em público), de ensinar as nossas filhas que ninguém é mais que ninguém, que não devem maltratar os rapazes só porque podem e isso lhes aumenta o ego.
A violência no namoro, permito-me dizer, passou a ser algo considerado normal. Porque eles se irritam (culpa delas, claro), porque elas não têm paciência (eles olham demasiado para as outras miúdas) e as relações se baseiam no controlo tanto psicológico como físico. E na violência. O respeito escasseia.
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É nosso dever dar as ferramentas aos nossos filhos para não serem vítimas. Para se conseguirem libertar de situações em que não devem estar, a pedir ajuda, se não conseguirem sozinhos. É nosso dever dar educação aos nossos filhos para que não se tornem agressores, seja em que forma for.
É nosso dever incentivar os nossos filhos a ajudar, a denunciar. A ter cuidado, sempre, mas a nunca calar situações de injustiça.
Querida Laura, o que a tua mãe te queria dizer era: foste tão corajosa! Que orgulho eu tenho de ti. Mas tem cuidado, porque pode não correr sempre bem.
Cuida de ti, Laura. E continua a ajudar os outros. Pode ser que um dia tenhas mesmo de ajudar a tua mãe. E aí ela vai perceber: como mesmo tendo medo te ensinou para seres mais e melhor.
E, Laura?
Não te atrevas a ouvir a tua mãe.
Que essa tua coragem nunca se apague.
Tenho orgulho de ti.
Autora orgulhosa dos livros Não Tenhas Medo e Conta Comigo, uma parceria Up To Kids com a editora Máquina de Voar, ilustrados por aRita, e de tantas outras palavras escritas carregadas de amor!







1 comentário
Muito bom texto. Parabéns à Laura