
O contacto físico no processo terapeutico
Chegou tímido, receoso e a tentar disfarçar a tristeza que estava estampada no olhar. Olhava para baixo e tinha dificuldade com as palavras!
As palavras são difíceis e procura mais contacto e menos conversa. Para falar precisava de entrar dentro de si e expressar um pouco do que sentia. Era mais fácil viver “fingindo” e disfarçando a tristeza, a ansiedade e a insegurança.
No início não me apercebi logo das suas necessidades e fui conduzindo as nossas consultas com dificuldade. Não queria conversar, desenhar, pintar ou qualquer outra atividade…
Com o tempo descobrimos o monopólio e tudo ficou mais fácil. Enquanto jogávamos foi possível falar um pouco sobre as suas dificuldades, a sua ansiedade, os seus medos, mas também sobre a sua valentia e persistência, que o fazem não desistir de tentar ser feliz.
Fomos inventando formas de estar em relação…
Foi no vínculo que finalmente pode expressar as suas necessidades e no corpo que encontramos um caminho para as satisfazer.
Foi no toque, no contato, no abraço que pode refazer etapas importantes do seu desenvolvimento…
A nossa identidade, segurança e sustentação provêm do toque, dessa experiência de contato que nos nutre física e emocionalmente. Por vezes esse contato é pouco nutritivo, ou as nossas necessidades são reprimidas antes da nossa oralidade estar satisfeita, e ficamos parados ou congelados nessa etapa. Ficamos com zonas cinzentas que precisam ser revividas de forma positiva para devagarinho se irem tornando menos cinzentas, como se reconquistássemos direitos associados a cada uma das etapas do desenvolvimento.
Esses bloqueios no nosso desenvolvimento condicionam a nossa energia interna, a nossa constituição física e o nosso caráter.
As duas primeiras fases do desenvolvimento dizem respeito à dependência relativamente aos pais e as outras duas, ao movimento em direção à independência relativamente a eles.
O contacto físico é fundamental nessas primeiras duas etapas, nas quais as crianças atingem o seu estado de ser e de bem-estar através do contacto e do toque dos seus cuidadores. A criança precisa de vinculação e sustentação para se sentir nutrida em termos físicos e emocionais.
Como providenciar e ir ao encontro destas necessidades em contexto terapêutico?
Parece difícil, improprio ou simplesmente estranho “dar colo”, tocar, abraçar, mas a verdade é que tudo se encaminhou de forma natural, espontânea e nutritiva.
Começamos a sessão sempre com massagens e pouco a pouco vai-se esgueirando para o meu colo, aninha-se e fala à bebé. Ficamos maioritariamente em silêncio e quem trabalha é o meu corpo, o meu calor e o meu acolhimento.
Apesar dos seus 12 anos é um bebé que está ao meu colo e que precisa do meu corpo para satisfazer a sua oralidade, para se poder sentir seguro e amado e poder caminhar em direção à independência que será seguramente uma etapa de grandes conquistas para si.
Para já precisamos cuidar do bebé que ainda precisa de colo, para que nesse calor construa a sua segurança e possa finalmente deixar de fugir dos outros, das situações, da vida…
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Considero a psicoterapia como uma ferramenta fundamental no desenvolvimento pessoal, na qualidade de vida e de relação com os outros. A psicoterapia é para todos e não apenas para alguns.