a culpa é da mãe

A culpa é da mãe

Se escreverem a palavra maternidade num qualquer motor de busca irão reparar que a palavra culpa surge associada (estou a brincar, não faço ideia se isso acontece, apenas sei que tal se sucede na realidade). Assim que damos à luz aprendemos duas lições:

1) para o mundo a mãe é a principal responsável pelo bebé, o pai é apenas aquele assistente que “dá uma mãozinha”;

2) comportamentos “menos desejáveis” por parte do bebé são resultado da nossa pessoa (por nossa entenda-se exclusivamente da mãe).

Deste modo, rapidamente percebemos que o pai é um pobre coitado que nada pode fazer, um actor secundário numa peça protagonizada pela mãe; o bebé é um adereço, não lhe são atribuídas motivações nem características próprias, um ser que recebe passivamente a informação e a reproduz.

Quando te tornas mãe, além de um bebé ganhas uns quantos dedos apontados. Curiosamente, esses mesmos dedos desaparecem nos momentos de conquista e vitória, pois aí a “culpa” não te é atribuída – bem-vinda ao mundo dos dois pesos e duas medidas!

… Se o parto corre bem, o bebé é um valente, tiveste uma hora abençoada, a equipa médica era boa.

… Se o parto corre menos bem, não soubeste fazer força nos momentos certos, não tens elasticidade suficiente, não te soubeste impor.

… Se o bebé mama bem, é um comilão, um guloso, tu és uma sortuda.

… Se o bebé mama menos bem, o teu leite é fraco/não alimenta, os teus mamilos não têm um bom formato, produzes pouco leite.

… Se o bebé dorme a noite toda, é um dorminhoco, um anjinho, uma bênção.

… Se o bebé acorda durante a noite, o teu leite é fraco, não sabes treinar o sono dele (tens de o deixar chorar e dar-lhe menos colo).

… Se o bebé tem um bom desenvolvimento, é espertalhão, atento, malandreco.

… Se o bebé tem um desenvolvimento menos próximo da média, a mãe não teve os devidos cuidados durante a gravidez, não o soube estimular, protegeu-o em demasia.

… Se o bebé gosta de estar no chão, é dono do seu nariz, independente, um crescido.

… Se o bebé prefere estar no colo, está mal-habituado, é dependente da mãe.

… Se o bebé faz menos birras, é fácil de lidar, bem comportado, um pachola.

… Se o bebé faz mais birras, a mãe não soube impor limites, dar-lhe uma palmada na hora certa.

… Se a criança come bem, é bom garfo, tem boa boca, tem um apetite invejável.

… Se a criança come pouco, a mãe não tem mão para a cozinha, não faz comidas saborosas, põe pouco sal.

Podia escrever uma lista de situações digna de preencher um papiro, exemplos não faltariam. A culpa, atribuída por nós ou pelos outros, sobretudo no início em que nos sentimos mais inseguras, surge com frequência e sussurra-nos frases inquietantes ao ouvido. Nesse momento, agarra-a pelos cabelos, olha-a nos olhos e trata-a pelo nome – responsabilidade. Tu, tal como o pai, são responsáveis por aquele bebé (sim, este filme tem dois actores principais). A vossa principal responsabilidade consiste em darem o vosso melhor, o que é totalmente diferente de acertarem em tudo à primeira. Sim, tenho responsabilidade, tal como o pai (repito propositadamente), sobre vários comportamentos da nossa filha; já existiram birras que podia ter evitado, fases em que o sono era menos bom por comportamentos que eu mantinha, dias em que comeu menos bem por eu não ter compreendido o que ela queria. No meio de tudo isto existe a interferência das características da nossa filha – ela tem um temperamento próprio, tem preferências, já vai fazendo escolhas (sim, ela tem vontade própria). Além disso, existem os factores externos, que não são responsabilidade de ninguém, mas influenciam o modo como as situações se desenrolam (como por exemplo a nossa filha não ter feito a sesta por nesse dia existir um bailarico junto à nossa casa).

Por último, e mais importante, reparem que a responsabilidade também é vossa quando o vosso filho salta, corre, brinca, ri, sorri, é feliz. Esta responsabilidade não vos é apontada com a mesma frequência, o número de pessoas que vos diz “fazes esta criança tão feliz” é menor. Não obstante, acreditem que em cada salto, em cada correria pela casa, em cada brincadeira, em cada sorriso e em cada gargalhada essa responsabilidade está presente; um dia os vossos filhos irão traduzi-la em gestos e palavras de amor.

imagem@angeladuncken

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