A educação e inclusão na vida dos nossos filhos

A educação e inclusão na vida dos nossos filhos

Hoje falava com uma pessoa amiga, mãe, que me dizia, de lágrimas nos olhos, que sentia que o seu filho era tratado de maneira diferente por não ser português.

Eu, habituada às nossas conversas num outro tom, estaquei. Olhei-a, como se fosse a primeira vez e eu própria senti as lágrimas a molharem-me os olhos.
Quis dizer que era impressão sua, que não podia ser assim, mas à medida que ela ia falando fui percebendo que, estando no mesmo sítio a fazer as mesmas coisas, pura e simplesmente, não me tinha apercebido. E eu sou atenta, preocupada.

Mas não vi.

Ela disse-me que é porque não tenho esse preconceito, porque ajo com ela, com o filho, com toda a gente, da mesma forma e, por isso, nem sequer pus em causa que pudesse ser de outra forma. E está certa.
Sabem aquele momento nos filmes em que a mulher percebe finalmente que o marido a trai e depois começa a ligar todos os pontos e percebe que esteve sempre à sua frente? Foi assim que me senti, a reviver todos os momentos e a dar-lhe razão. E com o coração partido por, no meu lugar de privilégio, nunca ter notado.

Quis dizer que entendia, que compreendia, mas na verdade não é possível nenhuma dessas coisas sem sentir na pele. Não sei o que é sentir que tratam os nossos filhos como alguém menos digno de carinho, afecto ou consideração apenas porque a sua origem é diferente. Magoou-me enquanto portuguesa, feriu-me enquanto mãe. Não aceito uma coisa destas, não acho legítimo nem justo. E sei que está em todo o lado, em várias situações no dia a dia.

No caso destas pessoas ambos os filhos nasceram em Portugal e são, na verdade, portugueses, apesar de os pais serem emigrantes. E estes filhos ainda não pequeninos para, na maioria das vezes, perceber a diferença de tratamento mas os pais sentem. E vivem isso diariamente.

E sofrem a angústia do futuro dos filhos.

Eu tento falar com a minha de diversidade, e andando ela numa escola multicultural com um aclamado projecto de inclusão e integração de várias comunidades, sei que lida diariamente com a diferença, de tal forma que para ela não é assim tanta diferença do que para outros meninos que partilhem o seu espaço só com crianças de origem semelhante. Isto para dizer que no outro dia, já não consigo precisar a propósito de quê, lhe disse mais uma vez a minha célebre frase “somos todos diferentes”. E ela revidou, “mas a minha educadora diz que nós somos todos iguais”.

Parei.

É a mesma abordagem para a mesma temática e para a minha filha aquilo parecia que estávamos cada uma a dizer uma coisa. E por isso expliquei que isso queria dizer a mesma coisa. Somos todos diferentes e devemos aceitar as diferenças com respeito e somos todos iguais, temos direito às mesmas coisas e os mesmos deveres.

Ela percebeu.

Vivemos num tempo em que ainda se dizem coisas terríveis como “volta para a tua terra”. Mas as pessoas esquecem que no seu ADN têm as mais variadas origens. Que os seus antepassados e até gerações mais recentes, andaram pelo mundo, vieram e foram de e para os sítios mais distantes no planeta. Por isso já começa a ser um bocadinho absurdo mandarmos as pessoas seja para
onde for em vez de tentar fazer como que sejam bem-vindas, incluídas e contribuam todas para o bem comum.

Não sei se a minha filha vai viver sempre em Portugal ou se haverá um dia em que a estrangeira será ela. Mas desejo-lhe o mesmo que desejo para os filhos dos outros: muito amor, respeito, paz e oportunidades de mostrar o que vale e o que é apesar de onde vem.

Da próxima vez que qualquer um de nós estiver em contacto com alguém diferente, seja essa diferença qual for, pensemos um pouco antes de agir.

Às vezes, só essa pausa já pode mudar tudo.

Porque se pararmos muitas vezes somos a melhor versão de nós mesmos.
Como se espera que os nossos filhos também sejam.

image@weheartit

O M do seu nome passou a significar também M de Mariana, o nome da filha de quase três anos, e M de mãe, este sim verdadeiramente maiúsculo.
Guionista

Sonhava ser escritora mas, aos onze anos, uma professora de língua portuguesa garantiu-lhe que ninguém em Portugal jamais poderia considerá-lo uma profissão digna desse nome

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