A escola é um lugar pouco humanizado para os pais.

Uma escola é um lugar cheio de estímulos gerados por pessoas. Pequenos e grandes, com bata e sem bata, a caminhar ou a correr. No meio desta energia toda, do ruído, da pressa e do ânimo dos mais pequenos, há contradições que só os mais atentos conseguem ver.

Os olhos dos pais dizem tanto. A caminho da saída da escola, nos olhos de alguns pais pode sentir-se o vazio. Uma espécie de estímulo ao contrário.

Todos os pedidos de ajuda na escola são tímidos – nenhum pai ou mãe gosta de pedir ajuda para educar. As expectativas de um progenitor são sempre elevadas: se este filho nasceu de mim, tenho obrigação de conhecer-lhe todos os caminhos, todas as soluções. Mas quando os maus resultados se alongam por dois trimestres é preciso ganhar coragem, perder a vergonha. Parece evidente que acusar um aluno de ser preguiçoso quando um pai pede ajuda, é errado. Mas isto ainda acontece muito nas escolas, a ponto de os pais desistirem de perceber porque é que os filhos estudam, frequentam explicações e ainda assim não conseguem resultados. O rótulo preguiçoso, se dito com convicção, tende a convencer pequenos e graúdos. Muitas vezes, aquele pedido de ajuda era o último recurso disponível e o pensamento não serves para a escola ganha corpo.

Os olhos de alguns pais conhecem bem o chão das escolas, por outras razões. Também é difícil levantar a cabeça quando a primeira frase que se ouve à entrada da sala é “portou-se mal”, pela voz de um responsável, com todo o grupo a ouvir e a acreditar. Portar-se mal, para uma criança, é tão vago quanto portar-se bem. Uma coisa de super-heróis e vilões que se vê em desenhos animados. Mas a escola é um organismo vivo muito permeável, nada ficcional.

O que acontece na escola afeta tudo, especialmente os afetos.

Se já se dedicou muita literatura ao modo como certas práticas moldam as crianças perigosamente ao nível das emoções, muito pouco se escreve sobre como a escola é um lugar pouco humanizado para os pais. Ouvir que um filho chora o dia inteiro nos primeiros dias de escola porque é um mimado torna os pais confusos, a pensar que erraram em quase tudo desde o nascimento. Ainda assim, creem que quem trabalha nas escolas deve saber o que diz, que um especialista em matéria de educação merece credibilidade total. Por isso é que em algumas escolas (umas mais do que outras) há caras de pais e mães fragilizados que sorriem sempre, por dever de cortesia.

Os olhos de alguns pais também choram muito quando chegam ao carro. Quem lida com as crianças o dia inteiro é que sabe, mas ouvir de novo que está demasiado habituado a colo é como um punhal a invadir o peito. O momento da separação é sempre muito contra natura. Apetece é agarrá-los nos braços, pegar na mochila e só parar em casa. Se possível, prolongar a licença até que cumpram dezoito anos. De volta à realidade, o refúgio do carro parece o lugar ideal para desabar. Porém, chegar ao trabalho com os olhos inchados não é admissível – para a maioria dos pais, agir de acordo com a sua natureza deve pode demorar apenas alguns minutos.

O inverso de capacitar devia ter sempre falta a vermelho no livro de ponto. Mas ainda acontece muito nas escolas, porque nelas há alguns cuidadores em modo sobrevivência, a quem se esgotou a energia para uma palavra ou um ato mais humanizante do que fechar a porta da sala aos pais.

Os olhos dos profissionais nas escolas dizem tanto. Enquanto caminham pelos corredores, pode sentir-se como estão esgotados. Uma espécie de energia ao contrário que só os mais atentos conseguem ver, e talvez descrever um dia.

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