A idade dos porquês

Sinto que cheguei verdadeiramente à idade dos porquês. Vejo-te a dormir no berço e sei que não tenho todas as respostas para as perguntas que um dia me farás. O sentimento é estranho porque com os meus pais nunca tive dúvidas, eles sabiam tudo! Podia até perguntar por que é que a água do mar nunca acabava que o avô respondia com o seu ar de entendido e bom humor na ponta da língua e acalmava as minhas inquietações. A avó tentava perceber de onde surgiam as minhas perguntas e fazia-me sentir tão crescida… Contigo não sei se vou estar à altura. É um dos muitos medos que me assolam. Sei algumas coisas, mas mal arranho na matemática, que dirá na física quântica.

Esse sentimento do quanto somos pequenos nunca é tão grande como quando nos tornamos pais. Ali temos uma criatura indefesa, completamente dependente de nós e temos de estar à altura. Sei, no fundo, que as perguntas mais importantes não vão ser por que é que o céu é azul ou por que é que quando faz frio deitamos fumo pela boca. Mas, se insistires muito, peço-te que perguntes ao pai, ele é que é o sabido cá de casa. A minha ciência é a do coração e é com ela que te falo desde que nasceste. E, desde que nasceste, vejo-me a fazer tantas outras perguntas que acho que nem os avós me conseguem ajudar:

Por que é que as pessoas continuam a ter filhos, mesmo com a crise instalada e a guerra em tantos países do mundo?

Por que é que há crianças que nascem em famílias que não as desejaram quando tantas outras passam anos a fio a tentá-lo, sem o conseguirem?

Por que é que insistimos em tentar prever o futuro (“já consigo imaginar ginasta, já viste bem como mexe aquelas perninhas rechonchudas?”) quando a única coisa que temos como certa é que não o controlamos?

Por que é que não podemos ter todo o tempo do mundo para crescermos juntas? Tu a tornar-te uma rapariguinha e eu, agora sim, uma mulher?

Por que é que o tempo, depois de sermos pais, parece correr acelerado, cheio de pressa?

Não sei. Mas sei que vou dar tudo por tudo para que encontremos as nossas respostas, mesmo as que não queremos decifrar.

Quanto às outras… Mesmo não conseguindo antecipar o futuro, imagino que me vás colocar as perguntas mais difíceis do mundo e prometo que vou tentar não te desiludir.

Para que um dia possas dizer que a tua mãe sabia tudo (e jurar que as sardas que a tia tem junto aos olhos foram lá parar quando ela estava a ser desenhada e o desenhador espirrou, espalhando pedacinhos de tinta pela carita linda dela. Porque se a tua mãe disse, então é porque é verdade).

Por Marta Coelho, 
Para Up To Lisbon Kids®

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O M do seu nome passou a significar também M de Mariana, o nome da filha de quase três anos, e M de mãe, este sim verdadeiramente maiúsculo.
Guionista

Sonhava ser escritora mas, aos onze anos, uma professora de língua portuguesa garantiu-lhe que ninguém em Portugal jamais poderia considerá-lo uma profissão digna desse nome

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