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A minha filha de 2 anos, Trump e eu.

O meu avô costumava dizer que não se fala de religião, política e futebol à mesa. Hoje foi a excepção à regra.

Sentadas no sofá, ainda de pijama (porque a incredulidade me fez arrastar o início do dia, me fez ficar colada à TV), assistimos as duas, eu e a minha filha de dois anos, ao discurso do 45º Presidente dos Estados Unidos da América.

Ao contrário do que seria de esperar, a Mariana ouve e presta atenção, ao mesmo tempo que a colher com a papa de aveia que come fica no ar, esquecida. Talvez ela saiba ou sinta o momento histórico a que está a assistir. Se não sabe eu digo-lho.

“Mariana, isto que estás a ver é histórico. Mas, por favor, não deixes de acreditar na mãe”.

E ela sorriu. E a minha esperança ficou renovada.

Porque como é que podemos educar um filho para o bem, para a verdade, exaltando a necessidade de tratar sempre bem os outros, de não os diminuir, de aceitar as suas diferenças, de acreditar que trabalhando com rectidão mais tarde ou mais cedo se vai longe se chegamos ao dia 9 de Novembro de 2016 e este nos prova exactamente o contrário?

Como é que se explica a um filho que uma pessoa racista, xenófoba, sexista, que exclui as minorias, goza com as pessoas com deficiência, é mentirosa, desrespeita as mulheres, as outras religiões, não assume os seus erros e nem as suas palavras, é um bully como poucos, com uma mensagem negativa e apelativa à violência consiga ter o emprego mais importante do mundo? E como é que se explica que ele tenha conseguido este emprego porque houve sessenta milhões de americanos que assim o desejaram e lhe deram este poder? Sessenta milhões de americanos que preferem ter uma pessoa destas a comandar o seu país? É difícil e deixa-me repleta de receios.

E por isso senti a necessidade de dizer à minha filha que há dias em que o bem não vence. Em que não ganha o melhor ou quem mais merece (concorde-se ou não com todas as políticas da outra candidata). Em que nos apetece mandar a democracia passear e dizer “esqueçam lá isso, fica tudo como estava”.

Não pretendo impor-lhe as minhas visões políticas no futuro. Espero que tenha a capacidade de fazer as perguntas certas, de se interessar pelo seu futuro, de escolher em quem mais acreditar, se acreditar em alguém. Não falarei com ela de política a não ser que ela o deseje, mesmo que seja para ter uma discussão saudável de pontos de vista contrários.

Mas hoje não é de política que se trata.

É de princípios.

É de fé na humanidade.

E esses nenhum Trump conseguirá abalar.

Por mais difícil que seja.

2 thoughts on “A minha filha de 2 anos, Trump e eu.
  1. Muito obrigada eu pelas palavras. Há alturas em que temos mesmo de fazer ouvir a nossa voz. Por mais banal que seja, desde que seja sincera. Como sempre, foi esse o caso. Um beijinho, Marta

  2. Muito bom, Marta Coelho!!! Um aplauso especial por este artigo que reflecte a opinião de “gente” normal. Obrigada, Up to Kids, pela iniciativa de o publicar. Estão ambas as partes de parabéns.

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