avoeneta

avoeneta

A minha mais nova e a minha mais velha

A minha mais nova e a minha mais velha

Conheço a minha filha de dois anos como ninguém e consigo descodificá-la em 99% das vezes. Entendo o que quer dizer quando não se consegue exprimir, antecipo o que vai fazer antes de ela se lembrar, conheço os seus hábitos e manias.

Ainda assim aquele 1% intriga-me… Como quando decide que quer estar no colo da minha avó e assim fica, quieta, durante uma hora, uma hora e meia, duas. E não está a dormir, está apenas ali, sentada ao colo dela, com as mãozinhas à volta do seu pescoço, a olhar a minha avó, a ler as palavras que se formam nos seus lábios, a descansar o corpo, e a mente. Fico a vê-la e a fazer-lhe perguntas, mas ela não quer sair dali, não quer fazer mais nada, não quer que mais ninguém sequer lhe toque. A minha filha, convém explicar, é muito carinhosa mas normalmente não gosta que a agarrem, que a beijoquem infinitamente, que lhe imponham carinho. Gosta de dar os seus abracinhos, beijos e festas, mas é coisa rápida, depois segue caminho para outra coisa mais divertida. E nunca fica assim com ninguém, nem comigo nem com o pai. Nunca está quieta durante muito tempo, a não ser que esteja a cair de sono e se enrosque em nós, mas mesmo assim é coisa para estar a ouvir uma história ou algo parecido.

Gostava de lhe perguntar por que o faz. Não que me incomode, até porque me enternece, mas intriga-me. Porque não é sempre, mas já aconteceu várias vezes. Ao ponto de ser a minha avó, que tem alguma dificuldade em mover-se, a ter de a levar para a casa de banho para tomar banho, senão ela não vai.

Será que quando olha para a minha avó ela vê que foi com ela que tive muitas conversas importantes?

Que foi ela que me preparou as gemadas mais deliciosas do mundo?

Que foi para ela que a minha prima e eu cantámos vezes sem conta, com os sapatos de salto alto nos pés pequeninos e batom nos lábios, a fazer macacadas?

Que foi na casa dela e do meu avô no Baleal que passámos momentos inesquecíveis da nossa infância?

Que foi ela que me ensinou a gostar de açorda (e ainda hoje praticamente só gosto da que ela faz…)?

Que fui tantas vezes com ela ao supermercado que hoje, em adulta, ainda é um sítio onde gosto muito de ir?

Será que vê no seu rosto agora com rugas, a rapariga confiante que conquistou o meu avô, onze anos mais velho – que não ficava muito contente com o facto de ela se maquilhar?

Será que consegue perceber que tem diante de si uma mulher que casou com um padre que nunca abandonou o hábito e sempre integrou a sua família… e o acompanhou de uma igreja para outra com os seus três filhos?

Pergunto-me se sente que não vai ter a bisavó para sempre com ela e aproveita cada segundo do seu colo.

Mesmo que o seu corpo comece a ser grande para ser segurado por aquelas duas mãos trémulas…

A verdade é que nem as mãos que a seguram se cansam, nem ela fica desconfortável pela posição, impossível de manter durante muito tempo.

Acho que os melhores colos da nossa vida são assim mesmo: vistos de fora podem parecer desajustados, mas no fundo do nosso coração não os trocaríamos por nada.

 

“O adeus dos avós: a primeira experiência com a perda.”

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.