A nossa família não vem no catálogo.

Todos catalogamos pessoas ou situações na nossa vida, desde pessoas que conhecemos e nos damos no dia-a-dia, como verdadeiros amigos e família. Há os amigos e depois os conhecidos; há gente porreira e gente chata; aqueles a quem sorrimos, mas rezamos a todos os santos não os reencontrar na próxima ida ao supermercado ou quando vamos buscar os nossos filhos à escola. Catalogamos relações amorosas desde aquelas que gostaríamos que se repetissem uma vez terminadas, às ‘love is in the air’, para nojo dos solteiros à sua volta. Depois, há as relações – ‘onde é que eu tinha a cabeça’ – e a ‘credo Nossa Senhora de Fátima’ –  acho que sabem do que estou a falar.

Depois temos, e é onde quero chegar, o catalogar a família. Hoje em dia existe diferentes tipos de família, e é importante para cada uma delas, estar catalogada. porquê? Porque não estando parece um tipo de família incompreendido, não aceite e até marginalizado. Seria como não pertencer a grupo nenhum!
Quando era miúda havia a família nuclear. Pergunto eu, ora quem teve a brilhante ideia de lhe dar este nome? (eu sei que tem a ver com núcleo e tal….). Mas eu associo mais a bomba! Bomba: tens que ter um pai, depois uma mãe, depois um ou dois irmãos, e com sorte e tal como nos desenhos dos livros da escola primária da altura, havia ainda também dois pares de avós com ar fim do século dezanove. Porque o avô era sempre careca e a avó tinha sempre um novelo de lã com agulhas espetadas no cabelo (não me perguntem!).

Conforme fomos crescendo, habituamo-nos a ver cada vez mais separações e divórcios. Mas, e quanto às famílias compostas por mães ou pais solteiros e a sua prole? Bem, essas não existiam oficialmente. Para mim, que cresci com  avós divorciados e uma avó super independente, isto era uma realidade. Mas só quando eu própria me tornei mãe é que comecei a olhar para esta realidade de outra forma.

Agora temos um nome, somos famílias monoparentais! Mas isto irrita-me imenso, porque quando ouço as famílias do mesmo sexo serem chamadas de famílias Arco-Iris ou Rainbow Families fico com uma inveja difícil de controlar… existe nome mais bonito? Senão vejamos: temos a família ‘nuclear’ que já não ‘bomba’ tanto como antigamente; depois temos as famílias do coração (outra que me dá dores de cotovelo); depois temos as famílias numerosas, que são, bem…numerosas! E nós? As famílias de pais solteiros? Mães e pais solteiros com filhos a seu cargo? Sim, porque as mães solteiras que não têm os filhos consigo, são…mães desnaturadas? E os pais solteiros que têm os filhos a cargo da mãe são o quê? Pais, só pais. Não querendo entrar muito pela discussão sobre género, a verdade é que as famílias monoparentais são olhadas hoje com alguma compaixão ‘força, deve ser duro!’ seguido daquela expressão de lábios virados para baixo e olhos de peixe mal morto.

É verdade, não estou a exagerar. Mesmo tendo havido evolução, e não querendo dizer menorizar as dificuldades, para alguns de nós o papel dos dois pais está somente num par de ombros. Mas esta compaixão ou mesmo pena, que ainda hoje se vê pela mãe solteira ou pelo pai solteiro, embora de formas diferentes, não ajuda em nada à independência e afirmação destes pais.

Um pai solteiro é um coitado, porque a ‘gaja’ não quis ter nada a ver com a criança e é uma mãe desnaturada e ele coitado ‘teve’ que ficar com as crianças. O que não está aqui latente neste tipo de atitudes e afirmações é que hoje apesar dos papéis terem-se alterado de forma drástica, a verdade é que a sociedade em geral ainda não assimilou o que isso implica.

A mulher ganhou maior importância no mercado de trabalho, embora ainda esteja a lutar por equidade de salário. Por outro lado, o homem desenvolveu ao longo do tempo, sendo ainda uma minoria em países como Portugal, um lado mais ‘maternal’ no sentido ‘antropológico’, mais virado para a família e para o lar em geral, e ainda bem. Contudo, estas mudanças não alteram, em nada, a forma como, ainda, são vistas as mães solteiras, muitas vezes rotuladas de “as coitadas” ou “sacrificadas”.

Assim que engravidei assumi de imediato esse papel ‘na boa’.  Talvez porque dentro de mim havia e há pouco espaço para preconceito em relação ao próximo, e as mães solteiras, para mim, são simplesmente mães independentes. O facto de estar solteira ou não, pode mudificar de um dia para o outro, apenas depende da fase da vida da pessoa. No entanto, tinha na verdade também uma imagem romântica deste meu novo papel chamando-o de uma forma quase hipster de ‘reprodução independente’ quando era mesmo somente mais uma Mãe Solteira, simples. Mas logo logo percebi que não era assim que a maior parte das pessoas me olhariam, mesmo as mais viajadas, mesmo as com mais nível de educação, mesmo as outras mães solteiras!

Um dos primeiros impactos veio de uma secretária de um Embaixador Árabe em Lisboa de quem sou amiga, que depois de me dar os parabéns me disse ’também tenho uma irmã mãe solteira…o miúdo anda num psicólogo!’ a conversa depois daí continuou deprimência abaixo, mas eu segui em frente. Isto depois do próprio Embaixador me ter perguntado ‘que boas notícias minha querida Sónia! E quem plantou nesse lindo Jardim?’ …a sério, foi assim mesmo que me perguntou. Como é Árabe e para quem conhece poesia Árabe, sabe que este sentido não é o mesmo que poderia ser se fosse numa qualquer canção popular Portuguesa. Não levei a mal, mas daria um excelente verso de música pimba, não acham? Melhor do que a tal Sopeira que tem um filho de quem ninguém sabe quem é o pai, pois é essa canção mesmo que representa bem como a sociedade nos vê em Portugal, Sopeiras! – Seja lá o que isto significa!

Numa outra situação, num almoço em que junto com os meus pais anunciei a gravidez a uma parte da família, uma tia afirmou depois de um longo silêncio ‘Os filhos de mães solteiros são criados de qualquer maneira!’ Disse isto, alguém com um casamento para lá de Bagdade? Não querendo entrar em detalhes, mas as piores afirmações vieram sempre de pessoas com casamentos ou relacionamentos desfeitos, alcoolismo, filhos com problemas graves de falta de atenção e por vezes de  amor devido à atenção em demasia dos pais em ‘segurar’ algo que nunca funcionou, estando os filhos no meio de uma guerra que não é a deles.

Mas também há a ignorância pura, como notei em duas situações com colegas de trabalho, pessoas viajadas e formadas mas que pelos vistos com ‘bagagem’ não processada. Uma colega e eu fomos almoçar a uma restaurante chique de Lisboa, depois de uma viagem de trabalho que ambas fizemos à Etiópia, estávamos a falar de trabalho, relacionamentos família etc.,e eu disse ‘como sou mãe solteira’… (tentava explicar o desafio que é para mim aceitar algumas missões em certos países e negar outras com mais risco) quando me interrompeu rapidamente ‘fala mais baixo, porque podem ouvir e depois o que vão pensar?!’ ao que eu respondi ‘vão pensar que sou…mãe solteira! Em Portugal não sou apedrejada descansa!’ e não, não estava a falar com amigas Afegãs ou Iemenitas. Era mesmo uma amiga Portuguesa!

A verdade é que a narrativa à volta das mães solteiras é sempre a mesma, de alguma admiração, porque sós ‘carregamos uma grande fardo’ e por isso merecemos a compaixão alheia. Fardo? Peço desculpa mas um filho não é fardo nenhum. Sim, nem sempre é fácil, principalmente no caso das ‘puristas’ como eu e que desde logo assumimos este projecto maravilhoso sozinhas onde não há dois salários, duas opiniões, duas soluções para problemas que vão surgindo entre outros desafios. Mas também não há dilemas, não querendo advogar este tipo de vida,  até porque acredito na diversidade. Mas a verdade é que, se há sinónimo do resultado do tipo de educação da minha filha, são os relatórios que dizem uns atrás dos outros: ’É uma criança muito equilibrada, responsável, respeitadora do outro e da diferença’ tudo porque aqui não há guerras entre pais ou dilemas semelhantes.

Neste cenário, as piores inimigas destas mães, são de facto as próprias mães solteiras que se colocam quase sempre como a vítima. Se pensam que o meu caminho tem sido fácil, estão muito enganados, e não falo do alto de um castelo perfeito. Longe disso, mas acredito mesmo que quando nos colocamos na posição de vítima dependente da benevolência ou bom senso do outro pai  ou mãe, vamos criar crianças que vão acreditar que por terem sido criados por pais solteiros, lhes faltou sempre algo, que são vítimas também. Não, não são. Só o são se o permitirem. Colocar a criança em primeiro lugar, não significa comprar-lhe as melhores sapatilhas do mercado enquanto a mãe poupa naquilo que compra para si, significa sim criar os nossos filhos com amor, claro, mas principalmente fortalecendo a sua personalidade com resiliência e carácter na diversidade e na vida respeitando o outro e sabendo que não existe nem a perfeição nem o ideal.

Até porque hoje em dia a sociedade é uma sociedade arco-íris!

 

Por Sónia Pereira de Figueiredo, originalmente escrito para o Blog Amniotico
sugerido para  Up To Kids®

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