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A sorte de acordar num país sem guerra

A sorte de (nascer, crescer e) acordar num país sem guerra

Ontem antes de adormecer conversávamos sobre a sorte de podermos fechar os olhos descansados, tendo um tecto sobre as nossas cabeças, um cobertor para afastar o frio, um quarto só para nós e a nossa filha no quarto ao lado com as mesmas comodidades. E a acrescentar a isto saber que podemos adormecer sem receio de acordar com o nosso mundo de cabeça para baixo.

As imagens, notícias e relatos que nos chegam de Alepo, na Síria, não deixam ninguém indiferente. Não consigo esquecer a imagem de uma menina de uns dois anos, idade da minha filha, com os olhos cheios de terror, a pele coberta de pó e sangue que lhe caía não se sabe bem de onde, porque o seu cabelo revolto escondia as feridas. As superficiais, é claro, porque as outras estão marcadas para sempre a um nível muito mais profundo. Refiro-me a ela como uma menina, mas ela deixou de ser criança. Não brinca, não sonha, não ri, assistiu a coisas que muitos adultos (felizmente) nunca terão de ver na vida e acima de tudo perdeu a inocência. O terror que tem nos olhos, a incapacidade de chorar, de expressar naquela idade o que está a sentir deixou-me o coração do tamanho de uma ervilha. Aquela menina perdeu toda a família. Não tem ninguém que possa dar-lhe colo, o que seria nesta altura provavelmente suficiente para a fazer crer que é humana. Não há nenhum tio, irmão, amigo, mãe ou pai, que lhe sussurre ao ouvido que vai passar, vai correr tudo bem. Ninguém que a abrace e lhe faça chegar calor, o bater de um coração próximo que ajude o seu a continuar a bater. Que futuro tem uma criança sozinha no mundo? Que futuro tem uma criança a quem é negado amor? Esperança? Educação? A quem provavelmente levarão para longe da terra que conhece como sua, onde há apenas ruínas e corpos no chão? Que terá de trabalhar apesar de ter idade para brincar? Que será abusada, violada, maltratada? Que morrerá antes de conseguir perceber que a infância não é nada disto?

Todos os dias acordamos, tomamos banho, tomamos o pequeno-almoço em família, brincamos e levamos a miúda à escola. Vamos trabalhar e corra o dia bem ou mal iremos busca-la, beijá-la e abraçá-la, perguntar-lhe como foi o seu dia, ouvir as novidades, fazê-la rir e rir com ela. Brincar no jardim enquanto comemos fruta. Voltar a casa e ler uma história, fazer um puzzle, ver desenhos animados na televisão. Dar-lhe banho, vesti-la e penteá-la, dar-lhe jantar, contar uma história, dar um beijo de boa noite e deitá-la. Desejar-lhe bons sonhos.

Na maior parte dos dias não nos apercebemos da sorte que temos, da sorte que ela tem por ter nascido aqui. Num país em paz, apesar de todas as suas dificuldades. A minha filha é uma criança feliz. Tem colo. Não está sozinha. Tem mais do que precisa, felizmente. Tem quem cuide dela.

Mas aquelas crianças, na Síria e em todos os outros países que vivem em guerra, todas as centenas de milhares de crianças que foram arrancadas da sua vida, da sua terra pela sede de dinheiro e de poder, que têm de assistir ao que de pior o ser humano tem e faz, que vêem os seus heróis morrer em vão, não têm essa sorte. Vivem num inferno. Alguns terão o privilégio de ser resgatados para uma vida melhor. Outros terão a ajuda dos muitos voluntários que doam o seu tempo e a sua vida em prol dos outros. Alguns terão a oportunidade de estudar, de se tornarem alguém, de mais tarde poderem ter um papel activo na mudança de mentalidades, na luta pelos direitos humanos.

Tomamos a nossa vida como garantida.

Este Natal, enquanto estivemos com as nossas famílias, à volta da mesa, quantos de nós estivemos verdadeiramente gratos?

Por os nossos problemas, maiores ou menores, não se poderem comparar com os das crianças de que aqui falo?

Porque o Natal é pensar mais nos outros do que em nós (e assim deveria ser durante todo o ano) e é uma boa época para fazer algo por eles.

Procurarmos informação.

Darmos a ajuda que está ao nosso alcance.

Ensinar as gerações que serão o nosso futuro a importância do diálogo, da tolerância, do respeito pela vida e dignidade de quem nos rodeia.

A serem gratos. A crescerem conscientes do privilégio que têm. A serem adultos que dão mais do que recebem.

Nesta época de Natal o meu coração está com todos os que amo e pensarei em todas as crianças que só colocariam uma coisa na sua lista de Natal: Paz.

Porque com ela vem tudo o resto.

Ontem à noite, antes de fechar os olhos para dormir, agradeci a sorte que tenho por viver num país sem guerra.

Esta noite não me esquecerei de fazer o mesmo.

imagem@Weheartit

1 thought on “A sorte de acordar num país sem guerra
  1. Sem duvida… todos os dias agradeço pela vida que temos, apesar das dificuldades, nada se compara a esse horror!! Belo texto!! Traduz na integra o que sinto!!!

    Ana Vilar

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