A velha

A velha irritante e o pavão

Parece o nome de uma lenda, mas não é. São apenas dois episódios que aconteceram no mesmo jardim, que tive a infelicidade de assistir, mas que me fizeram bem. Gostaria que vos fizessem bem também. Sei que não é um post fofinho do Dia da Mãe, mas não tinha que ser, pois não?

Angry Old Ladyby MichaelHorwath



Falemos da velha. A velha era uma velha normal. Uma velha portuguesa, das magras, daquelas que não conseguimos tirar logo a pinta se são amarguradas ou queridas até abrirem a boca. Não sei quanto tempo a Irene esteve no baloiço, mas não há de ter sido muito. Estávamos mesmo confinadas àquele lugar, daí ter ficado a ouvir. E o que ouvi? Ouvi tudo aquilo que não quero ser um dia, nem hoje. Isto dito do banco do parque para o outro lado.

«Ó João Miguel, anda mais devagar no baloiço porque senão podes cair. João Miguel, já viste que sujaste a camisola de terra, João Miguel? Foi a camisola que a a mãe te deu na semana passada. Ai meu Deus, eu é que não vou lavar isso, que já não lavo mais a tua roupa. Já disse à tua mãe. Não sou vossa empregada. João Miguel, não andes nisso tão rápido que ainda vomitas o sumo todo. Agora vais correr, João Miguel? Ainda ficas todo suado e depois constipas-te, João MiguelJoão Miguel, para de correr atrás dos pombos, João Miguel. Ainda cais e eu não vou contigo ao hospital. Era só o que me faltava. Já lá estive na semana passada por causa do meu joelho, não vou agora contigo só por teres sido teimoso. Não corras atrás dos pombos, João Miguel!! Olha, diz ao teu amigo para parar de andar tão rápido no baloiço! João Miguel, diz ao teu amigo para parar de andar tão rápido no baloiço!! Anda cá apertar as sapatilhas, João Miguel. Anda cá. João Miguel, olha para isto, estás todo suado. Agora ficas aqui no banco um bocadinho. João Miguel, senta-te direito, João Miguel! Estás todo sujo, todo suado. Que horror. És mesmo mal educado. A tua mãe faz-te as vontades todas e dá nisto. João Miguel, já te disse que te podias levantar, João Miguel? Anda cá! João Miguel, onde vais??? Vais cair, João Miguel

Não entendo. Ir ao parque é como largar um animal na Natureza. É deixá-lo correr, cansar-se, suar, gritar, ter areia nos ténis. Se não houver paciência para isso, para quê ir com ele ao parque? Mais vale deixá-lo em casa em frente à televisão e atirar-lhe com uma torrada ou duas.

Lição que retirei: Equacionar bem os “Nãos”. NÃO dizer NÃO a torto e a direito. Obrigada velha (e João Miguel…).

E o pavão? O pavão, coitado, não tem culpa nenhuma, mas se tivesse um bocadinho pequenino de cérebro que fosse achar-se-ia culpado daquilo que aconteceu. Mais ou menos como o “cliché” do filho se sentir culpado pelo divórcio dos pais. O pavão estava a fazer o que faz todos os dias. Estava por ali, a exibir-se de vez em quando tipo aqueles taradões que estão nus por baixo das gabardinas. Encontrou um miúdo que tinha dois paus nas mãos e desatou a fugir. Desatou a fugir porque o miúdo, que tinha dois paus nas mãos,  estava a correr atrás dele. Fugiu como fazem os pombos.  Do banco do jardim ouve-se o pai do Ruben, gritando, sem nunca se levantar:

«Olha lá ó Ruben, só podes estar a brincar comigo, pá! Não vais bater no pavão, ouviste? Larga a porcaria dos paus, não vais bater no pavão. Ruben, olha para mim, pá! Estás a ouvir? Que mal educado, pá. Ruuubennn!!!!

Ruben, às tantas, cansou-se de correr atrás do pavão e vai brincar com a irmã para aquela espécie de carrossel de miúdos. Já tinha passado um minuto, apesar disso não importar. A mãe tinha saído do banco ela que, até ali nada tinha dito e, sorrateiramente, emboscou o Ruben. Deu-lhe uma palmada no rabo e disse-lhe bem alto e com os olhos bem abertos:

– Ruben, não ouviste o teu pai a falar contigo? Quando o teu pai fala, é para o ouvires!!! Malcriado. [Mais uma palmada]. Não se bate no pavão, Ruben. Para a próxima é melhor ouvires o teu pai.»

Ruben não bateu no pavão. A mãe bateu no Ruben, o pai gritou com ele. A mãe chateou-se com o Ruben pelo Ruben não ter ouvido o pai e porque ele não pode bater no pavão e então bateu-lhe. Bateu-lhe. E bateu-lhe com todos a ver.

Lição que retirei: Não sei bem. Não se bate no pavão (porquê?), mas bate-se no Ruben (porquê?). Quando o Pai grita, zangado, do banco (porquê?) é para ouvir, senão a mãe assusta o Ruben e bate-lhe (porquê?) quando ele menos esperar (porquê?).  Quanto ao gritar, acho que deve ser como morar ao pé da linha do comboio: tanto barulho depois deixa-se de ouvir e fala-se mais alto para que toda a gente se oiça, depois toda a gente grita e toda a família se sente mal. Quanto ao bater: coitadinho do pavão que não fez nada de mal, mas o Ruben não deu ouvidos ao pai que gritava e, portanto, já merece uma palmada? Quando o pai não der ouvidos ao Ruben, o Ruben pode ir bater ao pai ou à mãe? 

É o meu segundo dia da Mãe, sei que podem dizer que não percebo nada disto e que “lá chegarei”, mas estou a tentar. Estas foram as lições da Velha Irritante e do Pavão. Mais virão.

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