ainda as praxes

Ainda as praxes

Estamos em novembro e num dos jardins mais conhecidos de Lisboa há ainda jovens universitários de capa e mão em riste a ordenar que outros, de penicos na cabeça, mergulhem no lago.

Estamos em 2017 e não consigo que a frase que acabei de escrever faça sentido.

Percebo que para muitos as praxes sejam um ritual de passagem, uma passagem de testemunho, a iniciação num percurso, uma bênção que garante que todos se conhecem, todos passaram pelo mesmo.

Percebo isso, mas acho que não é o único caminho.

A minha faculdade era anti-praxes e levava esta máxima muito a sério.

No primeiro dia foi-nos dito que havia actividades de recepção ao caloiro mas ninguém era obrigado a ir e não haveria “represálias” para quem não fossem. E isso fez com quem muitos participassem, como eu, para ver de que se tratava.

Fomos até à redacção de um conhecido jornal e, da rua, cantámos a pedir que nos dessem emprego (porque éramos do curso de ciências da comunicação). Dali seguimos para um jardim onde fomos emparelhados com os nossos padrinhos para os próximos 4 anos. Foram dois dias em que os laços foram estabelecidos, os contactos feitos. Depois daí quem queria sair saía, quem não queria sair com os padrinhos não saía, mas não andámos meio ano a passar vergonhas na rua.

A minha filha já viu jovens aos latos, farinha e ovos na cabeça, a fazer o pino numa corrida que obviamente nunca mais vai terminar e perguntou-me do que se tratava. E como explicar uma coisa que para mim não faz qualquer sentido? Que aqueles enfermeiros tenham de andar a tresandar a ovos podres para se sentirem integrados não fará deles melhores profissionais eu sei, mas como explicar a uma criança de três anos? Fui pela resposta simples: estão a fazer o que acham que têm de fazer para se sentirem integrados. Quando me arregalou os olhos e perguntou “o quê, mãe?”, reformulei e disse que estavam a brincar. Deixei a conversa das praxes para outras núpcias.

Porque na realidade me custa que os miúdos de dezoito anos, que acabaram de entrar na maioridade, a quem dizemos que são capazes de fazer as suas escolhas, que são responsáveis pelo caminho que escolhem sejam acolhidos e tratados como se bebés grandes se tratassem. Muitos deles começam a sua viagem universitária nas praxes, fazem coisas com as quais não se sentem confortáveis, bebem mais do que seria desejável e só começam a focar-se no curso nos rimeiros exames, tarde demais.

Sim, eu sei que para muitas pessoas as praxes são memórias de tempos divertidos, importantes no estabelecimento de laços. Sim, eu sei que muitos que praxaram nunca puseram ninguém em situações desconfortáveis. Sim, eu sei que muitos praxados não beberam mais por isso, nem se desleixaram das aulas como consequência. Estou a generalizar porque sei que, no geral, em 2017 não faz sentido que as praxes existam como as vejo na rua.

Trata-se de humilhar, de rebaixar.

“Caloiro não tem fome” é uma frase que ouvi demasiadas vezes.

Nem sequer vou falar da tragédia que aconteceu há alguns anos, acho que não vale a pena – porque aí havia um extremismo para o qual não encontro ainda palavras.

O que acho essencial é dar as ferramentas para que os nosso filhos saibam que não têm de, aos dezoito anos, quando a sua personalidade já está num pico de formação, fazer o que os outros lhes dizem com medo de não ser aceites.

E temos de dar as ferramentas aos nossos filhos para que se se encontrarem do outro lado sejam capazes de ser razoáveis, gentis.

Aceito as praxes inclusivas, se quem delas fizer parte estiver lá voluntariamente (em consciência e sem medo!).

Porque o percurso universitário devia ter muito pouco a ver com quem consegue humilhar mais e quem consegue manter o sorriso depois de uma grande humilhação.

 

imagem@arquivo da TVI24

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