aos-pais-da-minha-vida

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Aos pais da minha vida

Querido pai,

Sei que nunca sonhaste ter filhos, não fizeste planos nesse sentido e hoje, tantos anos depois, tens três. Deixa-me dizer-te que para quem não ambicionava tal coisa, fizeste-a bem.

O mano e eu chegámos e mudámos a tua vida. Não me lembro dessa fase, mas sinto que a vivo um bocadinho através das fotografias que vejo, das histórias que me contam.

Lembro-me vagamente da conversa que tivemos e em que explicaste que ias viver para outra casa. Na altura não o entendi, hoje aperta-me o coração entendê-lo mas tranquiliza-me saber que correu tudo bem. Que a mãe e tu fizeram um trabalho incrível em tentar que a nossa vida (minha e do mano) continuasse o máximo possível como a conhecíamos. Hoje, essa foi a vida que vivemos e mal nos lembramos de quando éramos os quatro debaixo do mesmo tecto.

Pouco importa, porque sei que a vida é assim mesmo. Tomam-se decisões, a vida avança, faz-se o melhor que se pode.

E eu sou quem sou porque vivi tudo isso, porque cresci rodeada de amor, porque, ao contrário de tantas crianças, nunca fui infeliz por ter os pais separados.

Vi-te desenrascar-te na cozinha para que o mano e eu tivéssemos as melhores refeições, as mais saudáveis e completas. Vi-te ajudar-nos nos trabalhos de casa sem os fazeres por nós. Vi-te organizares os fins-de-semana para que fizéssemos sempre qualquer coisa juntos, já que era “o nosso tempo”. Vi-te levar-nos às compras e explicar-nos o que valiam, o que custavam. Vi-te passares as tuas férias repleto de actividades que eram boas e divertidas para nós sem nunca te queixares. Nunca. Vi-te ser um bom filho e, sem saberes, a incutir-nos esses valores de respeito para com os avós. Vi-te ser um bom irmão mais velho para os teus irmãos, a ajudar sempre, a estar presente e a não deixar transparecer a dor quando a vida te roubou a oportunidade de continuares a fazê-lo para sempre. Vi-te voltar a ser pai sem que isso te fizesse descurar os filhos que já cá estavam. Vi-te ensinar a mana a comer, a falar, andar, a brincar. Vi-te protegê-la e cuidares dela, mais perto do que fizeste connosco, mas com o mesmo amor. Vi-te preocupares-te comigo e com o mano, com o nosso futuro. Vi-te ficares feliz com as nossas conquistas, com as nossas escolhas. Vi-te ajudares como podias sempre que as coisas não corriam como planeado. Vi-te sonhar os teus netos. Vi esse dia chegar uma e outra vez. Vi-te ser avô, um avô tão brincalhão e divertido como sempre foste como pai. Tão sério e correcto nas alturas certas. Tão babado que nos deixa, ao mano e a mim, babados também.

É por tudo isto que não tenho pudor nenhum em dizer que sou filha de pais separados. Tive um pai mais presente (tenho) do que muitas pessoas têm a sorte de ter, mesmo com os pais juntos.

Tenho um pai que me conhece, que não precisa de muito para saber o que se passa comigo – seja bom ou mau.

Tenho um pai como todas as crianças, independentemente do casamento dos seus pais, deveriam ter. Tenho a sorte de ter um pai. Ponto.

 

Querido pai da minha filha:

A nossa Mariana já começa a saber a sorte que tem por te ter como pai. Quer fazer as coisas em conjunto, em família. Sabe-lhe bem ter-nos aos dois presentes sempre que possível. Gosta de nos dar a mão, uma a cada um, enquanto andamos na rua. Porque é isto que nos espera: um caminho em que o ideal é caminharmos lado a lado – a três, enquanto não formos mais.

Ambos vimos de casamentos que terminaram, ambos tivemos de aprender a gerir as saudades, as expectativas. Ambos queremos que a Mariana nunca tenha de o fazer (por mais positiva que tenha sido a nossa experiência).

Sei que ela vê aquilo que eu vejo:

Um pai que, acima de tudo, é todo amor.

Um pai que a conhece e sabe como brincar com ela.

Que ensina, mas é flexível.

Que canta mesmo sem conseguir acertar nas melodias.

Que usa os truques certos nas alturas exactas.

Que tem uma cumplicidade como vemos poucas.

Que a inclui e não a trata como tontinha, que sabe que ela compreende tudo, dentro das suas capacidades.

Que a vê como uma extensão sua: com os sonhos ainda a desabrochar, com um sentido de humor apurado, com uma perspicácia incrível.

Que é um companheiro perfeito.

Está a ser uma viagem e tanto. Graças aos meus pais (ao meu e ao da minha filha) sou uma pessoa melhor. Uma mãe melhor. Uma filha melhor.

Sou, toda eu gratidão.

Obrigada, meus amores.

 

P.S. – Sei que nos processos de separação nem sempre os adultos agem como devem. Por incapacidade, por indiferença, por mágoa. O essencial, na minha experiência, é parar para pensar: se fosse connosco como gostaríamos que as coisas acontecessem? Pode fazer toda a diferença. Se se está a separar e tem filhos, procure ouvi-los. Se ainda não são capazes de se exprimir, procure compreendê-los. Procure não lhes “roubar” mais do que aquilo que inevitavelmente terá de acontecer. Se é filho, procure compreender os seus pais. Faça-se ouvir: sem exigências, sem julgamentos, sem os deixar com peso na consciência. O diálogo é a chave. E na ausência de palavras, deixemos o amor falar mais alto.

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