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As crianças de hoje são os adultos de amanhã

As crianças de hoje são os adultos de amanhã

De há uns anos para cá, frases como: “ A juventude está perdida”; “ Os jovens de agora não sabem o que querem”; “ Eles (os jovens) não percebem o que é a vida”, têm sido muito frequentes nas bocas dos “mais velhos”, ainda que sempre tenham sido proferidas ao longo dos tempos, nas mais diversas épocas geracionais. Há uma ideia construída ao longo das diversas gerações de que na actualidade (nas suas diversas actualidades) a juventude estará a incorrer numa série de comportamentos menos positivos. Contudo e até agora, nunca tínhamos realmente verificado algumas dessas ideias, e muito menos, as repercussões das mesmas na saúde mental das crianças e jovens.

A depressão infantil é um exemplo dessas repercussões. Segundo dados do National Institute for Health and Care Excellence (NICE), no Reino Unido, já são mais de 80 mil crianças diagnosticadas anualmente, 8 mil delas menores de 10 anos. Em maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) revelou que o transtorno depressivo é a principal causa de incapacidade de realização das tarefas do dia a dia entre jovens de 10 a 19 anos. No Brasil por exemplo, estima-se que a incidência do distúrbio gire em torno de 1 a 3% da população entre 0 a 17 anos, o que significa, mais ou menos, 8 milhões de jovens. Estes indicadores verificam-se igualmente em Portugal, com o mesmo tipo de preocupação. Em paralelo, o isolamento social, situação grave que afasta as crianças e jovens da integração social e afectiva ( que supostamente deveria ocorrer desde cedo e de forma constante), e que anda naturalmente a par com a depressão, vai provocando um afastamento dos parâmetros sociais naturais nos seres humanos, tais como a relação com o próximo, como se faz essa relação, como comunicar com o outro, como lidar com o conflito, como gerir o mesmo, como lidar com a relação amorosa com o outro, etc. Por outro lado, junta-se ainda o aumento da falta de acompanhamento de alguns pais, nalguns casos e não tão poucos assim, a alienação parental completa, cujas razões são diversas, umas compreensíveis outras nem por isso, mas que no fim, todas têm repercussões no desenvolvimento emocional e psicológico da criança e jovem.

A verdade é que os problemas referidos acerca das crianças e jovens são cada vez mais verificados e comprovados. Isto traz-nos uma preocupação acrescida não só do ponto de vista da saúde mental e emocional destas crianças e jovens, mas também, da reflexão de como será a sua inserção num mundo cada vez mais exigente, mais implacável e mais limitativo. Parece que após um longo período ditaturial, a noção de direitos do cidadão na sociedade que foi felizmente conquistado, veio dissociado da noção de obrigação do cidadão para com mesma.  A verdade é que na construção da identidade humana ( personalidade), as regras, normas, limites têm uma função avassaladoramente importante, construtiva, orientadora e securizante. Saber aceitar o não de alguém, de algo, tem o mesmo valor que saber dizê-lo. Mas a sociedade, de forma inconsciente, tem vindo a desresponsabilizar as crianças e jovens, fazendo com que as normas sociais, limites éticos, responsabilidade para com o espaço vital de cada um, respeito pela diferença, motivação para o trabalho, cumprimento de regras, resistência à frustração de não conseguir as coisas à primeira, entender que nem sempre quando nos esforçamos vamos conseguir, pareça coisa de ficção científica. O que para uns (pré-ditadura e talvez a primeira geração pós 25 de Abril) conquistar algo exigia determinação, esforço, dedicação, sacrifício, sabendo que nada seria imediato, nalgumas crianças e jovens  da actualidade recente (grande maioria) a quem chamo de “geração pipoca” ( pois tudo tem de ser feito/adquirido de forma imediata),  querem tudo para ontem, com pressa, sem resistência à frustração por não terem logo o que desejam, sem que façam esforço para tal, sem que trabalhem para tal, sem que se sacrifiquem para tal.

Apesar das dificuldades, trabalho ( tal como muitos dos meus colegas) todos os dias para que estas crianças e jovens sejam amanhã adultos felizes, realizados e trabalhadores e  para que cada vez mais os pais se disponibilizem para entender de que este não é o caminho ideia para os seus filhos hoje, cidadãos amanhã.

Por Patrícia Câmara Pestana, para Up To Kids®

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