Carta a um bebé que vai crescer sem a mãe.

Carta a um bebé que vai crescer sem a mãe.

Querida Maria,

Não me conheces mas tenho ouvido falar muito de ti.

Os teus avós e o teu pai têm feito os possíveis para que o teu início de vida seja o mais normal possível, dadas as circunstâncias. Mas o que já deves desconfiar é que não é natural que o ritmo do coração que ouves quando estás a tentar dormir, e às vezes não consegues, não seja o mesmo que te carregou durante nove meses. É no colo da tua avó que adormeces e te acalmas, comes, começas a sentir o mundo à tua volta e não no da tua mãe.

Não tens noção da diferença e ainda bem que assim é, porque partiria o coração da tua mãe saber que lhe sentes mais falta ainda do que o que é biologicamente esperado.

Nasceste há três semanas, um pouco antes do tempo previsto, porque a tua mãe não aguentou mais as dores. Nunca tinha sido mãe e diziam-lhe que a hora tinha chegado. Mas no fundo, ela sabia, sempre soube, que alguma coisa estava errada.

Meses antes de nasceres sentia dores fortes nos ossos, e queixou-se aos médicos, que desvalorizaram dizendo que eram apenas os ossos a alargar.

As pontadas nas costas eram de tal ordem que foram feitos exames e a tua mãe teve de fazer hemodiálise porque um dos rins estava a falhar. Era normal, disseram, acontece em muitas gravidezes. Impotente, a tua mãe aguentou, que poderia ela fazer? O que tinha a seu favor era apenas o instinto e ela não sabia que o seu instinto podia tudo.

Mais para o fim do tempo ela começou a perder as forças. O teu pai, desesperado, levou-a ao hospital e pediu ajuda. Não podia ser normal, aquilo não eram apenas contrações. No bloco operatório foi feita uma cesariana de urgência e a felicidade de te trazerem ao mundo foi manchada pelo choque pelo do que os médicos encontraram. Infelizmente havia tumores nos ovários, a tua mãe tinha um cancro que estava espalhado por todo o corpo. Sem forças, abriu apenas os olhos para te ver pela primeira vez. E te ouvir chorar. Esse facto tranquilizou-a e deixou-a lutar por si, definitivamente. Mas o tempo tinha passado e a situação era crítica e a tua mãe teve várias paragens cardiorrespiratórias.

Foste para a incubadora até teres autorização para ires embora, o que aconteceu mas a tua mãe ficou. Está medicada para aguentar as dores até que a sua hora chegue, porque agora não há nada que possam fazer por ela a não ser esperar.

O teu pai divide o tempo entre ti e a cabeceira da tua mãe, que lhe custa abandonar, porque não a quer deixar sozinha, porque não sabe quando será a última vez que lhe pode segurar na mão e segredar-lhe ao ouvido que estás bem, que ficas bem, que vai cuidar de ti como ela cuidaria.

Mas a tua mãe ainda não quer ir embora, acredito eu porque precisa de te sentir mais uma vez, mesmo que isso não seja possível pelo perigo que existe para ti ao entrares naquela ala do hospital. Está em suspenso e por mais cansada que esteja acredita num milagre, o milagre de acordar e poder ver-te crescer.

Mas o milagre que ela pede és tu, minha querida. Conseguiste crescer saudável apesar de tudo, nasceste e estás fora de perigo.

Infelizmente a tua mãe não tem todo o tempo do mundo e chegará o dia em que ela já não vai estar cá, muitíssimo mais cedo para ti do que para qualquer um dos amigos que terás na escola.

E tu, minha querida Maria, tens a sorte de ter a família do teu pai por perto, já que a da tua mãe não consegue viajar para Portugal para conhecer a neta nem para se despedir da filha. E todos farão os impossíveis para que cresças feliz e saudável e desta vez o destino há-de estar do seu lado.

Estás aqui também para lembrar a todas as mães, mesmo aquelas que ainda têm os seus pequenos bebés na barriga, que o seu instinto raramente está errado. Que devem lutar até terem uma resposta satisfatória. Que se não as ouvem num médico, deverão bater a todas as portas até que sejam ouvidas.

Não sabemos o que podia ter sido diferente caso o cancro da tua mãe tivesse sido diagnosticado mais cedo. Nunca saberemos. Mas sabemos que a tua mãe sabia que algo estava errado e podia ter lutado mais, se a tivessem deixado.

Por isso, a maior herança que terás dela é essa força, essa garra. É a lembrança de que mesmo medicada, afastada do mundo e de tudo o que acontece fora das quatro paredes do quatro onde ela ouve as malditas máquinas apitarem todos os dias, o seu coração bate fora do seu peito.

E assim será para sempre.

Que faças com esse coração sempre o bem, querida Maria, porque nem todos nós somos fruto de um milagre – mas graças a ti deixaremos de tomar tudo como garantido.

Prometo.

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