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Carta ao maldito cancro

Maldito Cancro,

Ditam as regras de boa educação que se deve começar uma carta de outra forma, mais amistosa e cordial, mas sei que me compreendes.

Sabes que jamais conseguiria dirigir-te uma palavra amigável, não depois daquilo que vi quando visitei a ala pediátrica do Instituto Português de Oncologia. Não depois de ter passado horas na sala de espera com dezenas de pessoas que aguardavam a sua vez para serem admitidas para tratamento, simplesmente porque tu existes.

Graças a ti a minha filha não irá conhecer três dos seus bisavós, graças a ti a minha filha teve de se despedir, sem o saber, de um dos bisavós que teve a sorte de ainda conhecer. Não satisfeito apontaste armas novamente, mas posso deixar-te já o aviso que bateste à porta errada. Nesta luta-se e irá lutar-se até que te tenhas arrependido de aparecer.

Não sei se te apercebes do que roubas a milhares de famílias neste país. Do desespero que causas a tantos pais que se sentem impotentes por estares dentro do corpo dos seus filhos. Pais que rezam, pais que choram, pais que acreditam, pais que perdem a fé, pais que lutam, mas que nunca deixarão de amar. De estar. Pais e famílias inteiras arrancadas da sua normalidade porque tu decidiste aparecer. Pais que choram a perda dos seus filhos, dos seus afilhados, sobrinhos, amigos. Perdas essas tão fora de tempo, tão injustas, tão inglórias. Filhos que que têm de se despedir dos seus pais todos os dias porque não sabem quando será a última vez que podem segurar-lhes as mãos, dar-lhes um beijo na testa, segredar-lhes o quanto gostam deles ao ouvido.

Diariamente há crianças que lutam sem o saber. Há crianças que o sabem e que não percebem como ser crianças tendo de lutar. Há adolescentes que comparam as suas vidas com as dos amigos, que só gostavam de poder estar na escola em vez de numa lista de espera por um transplante. Há pais que acordam de manhã e têm mais com que se preocupar do que com o facto de não terem ouvido o despertador.

Penso que te apercebes, mas que és tão ganancioso que não te importas. Só queres mais e mais…

Mas nem sempre ganhas. Nem sempre consegues aquilo que queres.

Porque também há famílias a quem a fé foi restaurada com uma remissão, a quem foram devolvidos os entes queridos apesar de ti. Que venceram.

Há bebés que sorriem e que não têm noção de que poderão ter uma vida como os outros bebés apesar de teres batido à sua porta.

Há tantos vencedores que têm histórias com final feliz para contar. Felizmente não lhes roubaste tudo.

A todas as famílias que lidam com este maldito invasor, muita força. Que a fé, a força e o amor nunca vos faltem.

A todas as famílias que tiveram de seguir em frente, continuar as suas vidas, quando a sua vontade era de baixar os braços, um abraço enorme. Aos que por momentos tiveram de baixar os braços e chorar, desesperar e perder a fé, eu compreendo. Compreendo muito bem, mas o maldito C não merece que as vidas que foram poupadas não sejam aproveitadas. E por isso gostaria que se agarrassem ao que de bom a vida tem para se reerguerem. E a vida tem tantas coisas boas quando nos permitimos pensar nelas.

Aos sobreviventes e às suas famílias deixo um suspiro de alívio, um sorriso no rosto, uma reflexão sobre a nova oportunidade que lhes foi dada.

Portanto, maldito cancro, não te esqueças de uma coisa: juntos podemos mais que tu.

Chegará o dia em que só existirás nos manuais de história da medicina, em que teremos sido capazes de te erradicar do mundo.

Até lá prometo-te que a humanidade irá dar-te luta.

Poderá chorar e perguntar porquê mas irá acreditar.

Irá amar.

E as novas gerações irão enfrentar-te de frente.

E vais perder.

Promessa de(sta) mãe.

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