Carta aos adolescentes.

Hoje soube da história de uma adolescente que sofre de maus tratos do namorado.
A miúda (ou criança…) tem 16 anos. O namoro dura há 4 meses, e aquilo que começou por ser um namoro normal tornou-se numa relação perfeita. Mas afinal, só é perfeita para ele. – “Ele só é assim ciumento porque gosta muito de mim. A culpa foi minha, porque eu é provoquei!” (…)
16 anos e já sabemos onde “isto” vai acabar…
Ela deixou de poder sair com as amigas. Ele controlou-lhe o telemóvel, o e-mail, persegue-a nas redes sociais, e agora, terminando o verão, ela diz-me que não quer regressar à escola.
Quando começaram a namorar ele aparecia na escola dela para ver com quem falava, com quem andava, onde se sentava. Até os professores foram alvo do seu ciúme. Agora, ela não quer voltar, mas não sabe que é por ter vergonha desta situação. Ela não sabe como resolver este problema. Ela acredita que gosta dele e que são felizes. E que tudo o que precisam é um do outro.

“Minha querida, tu não precisas dele. Ele é que precisa de ti.” – Disse-lhe. Mas não a demovi. Zangou-se comigo. Disse-me que não tenho nada a ver com a vida dela e que já é adulta para cuidar de si própria.

Lembrei-me deste texto que não fui a tempo de lhe mostrar.

Espero que este texto te vá parar à mãos, e o leias com atenção.
Espero que transformes o teu futuro.
Que vás para a escola e continues o 10º ano (eu sei que tem sido difícil com a falta de apoio familiar que tens).
Que termines o curso como planeaste.
Que nunca desistas.
E lembra-te: o maior trunfo que tens nas mãos de momento é a opção de escolha.
Pensa nisto.


«O teu namorado de 16 anos não é nervoso, é uma besta

Enviar-te 35 mensagens durante o dia a dizer que te ama e a perguntar onde estás não é uma prova de amor. É uma prova de que ele é um controlador e que, se tu deixas que ele o faça e não pões um travão a tempo, a coisa só vai ter tendência para piorar ainda mais.

Fazer-te perguntas sobre dinheiro não é indício de estar atento aos tempos difíceis em que vivemos, e reflexo de uma educação de poupança. Falar muitas vezes disso indica, isso sim, que um dia ele vai querer controlar o teu dinheiro. Aliás, se dependesse dele, era ele que geria já a tua mesada. Quanto gastas. Quando gastas. Em que gastas. Quando deres por ti, estarás a pedir-lhe autorização para comprar coisas para ti.

Pedir a password do teu e-mail ou da tua conta de Facebook não é sinal de que vocês nada têm a esconder um do outro. Não é sinal de que, entre vocês, tudo é um livro aberto. Mesmo que ele insista em dar-te a password dele. Isso é um sinal de desconfiança permanente. E um passo grande para o fim da tua privacidade. Sabes o que é privacidade,

certo? É uma zona tua, onde mais ninguém entra. A não ser que tu queiras.

Os comentários sobre a roupa que usas ou o novo corte de cabelo não revelam um ciuminho saudável. Revelam que é ciumento. Ponto. Pouco lhe importa se tu gostas daquele top, daqueles calções ou daquelas calças apertadas. Entre os argumentos usados, talvez ele diga que já não precisas de te vestir assim, porque isso atrai a atenção de outros rapazes e tu já tens namorado. Se não fores capaz de lhe dizer, na altura, que te vestes assim porque te apetece, não para lhe agradar, pensa que este é o mesmo princípio que leva muitas sociedades a obrigar as mulheres a usar burka… Não é exagero. Controlar o que tu vestes é exatamente a mesma coisa.

Perguntar-te a toda a hora quem é que te telefonou ou ver o teu telemóvel, à procura das chamadas feitas e atendidas e das mensagens enviadas e recebidas não é um reflexo de pequeno ciúme. É um sinal de grande insegurança. Faças tu o que fizeres, dês tu as provas de amor que deres (na tua idade, o amor ainda tem muito para rolar, mas tu perceberás isso com o tempo), ele sentirá sempre que é pouco. E vai querer mais, e mais. E tu terás cada vez menos e menos.

Apertar-te o braço com mais força num dia em que se chatearam e lhe passou qualquer coisa má pela cabeça não é um caso isolado e uma coisa que devas minimizar porque ele estava nervoso. Aconteceu daquela vez e é muito, muito, muito provável que volte a acontecer. Um dia ele estará mais nervoso. E a marca no teu braço será maior. E mesmo que ele «nunca tenha encostado um dedo» em ti, a violência psicológica pode ser tão ou mais grave do que a física.

Gostar de ti mas não gostar de estar com os teus amigos não é amor. É controlo. E é errado. O isolamento social é terrível.Continuar a telefonar-te insistentemente depois de tu teres dito que queres acabar a relação, ou encher-te o telemóvel com mensagens a pregar o amor eterno, não significa que ele esteja a sofrer muito. Significa, sim, uma frustração em lidar com a rejeição. E se pensares em voltar para ele, pensa que da próxima vez que isso acontecer ele vai telefonar-te mais vezes. E enviar-te mais mensagens.

Guardares estas coisas para ti não é um sintoma da tua timidez. Não quer dizer que sejas reservada. É uma estratégia de defesa tua. E um pouco de vergonha, à mistura, não é? E que tal partilhares isso? Ficarias espantada com a quantidade de amigas tuas que passam por situações semelhantes.

Talvez a sua filha não leia isto. Mas que tal mostrar-lhe a revista, para ela pensar um pouco?» – ISTO NÃO É O QUE PARECE, Paulo Farinha, DN, 19 Junho 2013

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