Coisas que aprendi com os meus avós

Coisas que aprendi com os meus avós

Coisas que aprendi com os meus avós

Tive a sorte de poder ter os meus quatro avós comigo até já ser adulta.

Hoje só posso beijar e abraçar dois deles, mas os outros dois continuam muito presentes na minha vida (de tal forma que nunca apaguei os seus contactos do telemóvel, nem quando comprei um novo).

Ao longo dos anos fui acumulando conhecimento que eles me passavam sem mo imporem. Nunca nenhum deles exigiu de mim fosse o que fosse, quis que aprendesse algo antes do tempo, me pressionou a ser diferente, a acreditar em algo só porque eles acreditavam. Desde que fosse bem-educada, coisa que sempre fui, tudo estava em paz.

E sempre esteve.

Com a presença deles aprendi:

Que o sabor de uma boa sopa caseira (e cacau quente) é impossível de copiar.

Que um elogio na hora certa pode fazer-nos ganhar o dia.

Que nunca somos crescidos demais para receber uma notinha na Páscoa “para as amêndoas”.

Que as melhores piadas são as que contamos em silêncio e, mesmo assim conseguimos arrancar uma gargalhada ao outro.

Que os filhos são o nosso bem mais precioso.

Que o trabalho é importante e, sem ele, dificilmente daremos valor ao descanso.

Que faz falta saber ouvir (mesmo quando já nos contaram três vezes a mesma coisa, uma ao telefone, outra no dia anterior).

Que há cheiros que ficam para sempre (como o do aftershave do meu avô ou da laca que a minha avó usava).

Que queremos ser para os nossos filhos melhores pais (se possível) que o que eles foram para os seus.

Que há erros que se cometem por amor, não por maldade.

Que as saudades não passam com o tempo (apesar do que nos teimam em fazer crer).

Que esse tempo ajuda a esquecer coisas que não tinham valor, mas também levam pessoas importantes… que não é fácil ir vendo os amigos desaparecer, os dias a passar, o corpo a ceder.

Que a solidão dói, que a presença importa.

Que o nosso mundo se torna cada vez mais pequeno.

Que os netos e bisnetos ajudam a esquecer a idade.

Que é sempre tempo de nos surpreendermos, de mudar um bocadinho.

Que nunca é tarde para dizer o quanto gostamos – e que é importante não deixar de o dizer.

Que a saúde vale ouro e só nos damos conta disso quando ela começa a ir embora.

Que há histórias que merecem ser contadas.

Que há chamadas que não podem ficar para amanhã.

Que nunca mais teremos ninguém com um amor igual por nós. Nem seremos capazes de amar mais ninguém como os amámos (e amamos) a eles.

Queridos avós, sorte de quem ainda os tem (e os teve um dia).

Honrar a sua existência, a sua memória e o que somos graças a eles pode não mudar nada lá fora, mas aqui dentro fica tudo cheio de luz, de um quentinho que só o amor provoca.

É importante relembrar.

É essencial dizer-lhes o que nos são.

Sempre.

1 thought on “Coisas que aprendi com os meus avós
  1. Adorei, especialmente hoje, faz anos hoje que perdi o meu avô. Era um homem extraordinário, muitas recordações, muitas saudades, ajudou a criar me, era outro pai. Sem palavras.
    Obrigado.

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