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Como podes confiar nos adultos?

Como podes confiar nos adultos?

Querida filha,

Sei que te educámos para acreditares em nós, para nunca pores em causa o que dizemos, mas… às vezes dou por mim a perguntar como é que é possível que as crianças não deixem de confiar nos adultos.

Dizemos-vos que o Pai Natal e o Menino Jesus existem, que quando cai um dente vem a Fada dos Dentes, que na Páscoa o Coelhinho anda todo contente a esconder ovos de chocolate pelo jardim. Vais acabar por perceber que o Pai Natal não existe, o menino Jesus é uma conversa que dá pano para mangas, a fada dos dentes somos nós e o coelhinho da Páscoa é uma invenção dos gulosos.

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O mesmo acontece com outras coisas simples, como por exemplo:

– Passamos meses a fio a apontar para as pequeninas coisas, a chamar a atenção para elas. Quando vocês crescem um pouco e começam a esticar o dedinho para que sejamos nós a vê-las apressamo-nos a dizer “não se aponta, que é feio”.

– Quando dizemos que não, a justificação às vezes é simplesmente “porque eu estou a dizer que não”, mas quando é a vossa vez de o fazer não aceitamos um não como resposta. Queremos justificação, queremos argumentos, mas no fim acabamos por não os aceitar. Quando é ao contrário exigimos que sejam aceites sem a menor hesitação.

– Cantamos para que comam mais depressa, “come a papa, Joana, come a Papa” e tantas outras variações, mas se na hora da sopa começam a cantar lá terão de ouvir o “não se canta à mesa”.

– Insistimos e voltamos a insistir que só se atravessa a estrada com o sinal verde, só se passa para o outro passeio pela passadeira e depois, à primeira oportunidade, olhamos para um lado e para o outro (com sorte) E avançamos sem medos.

Sei que nós, os adultos, às vezes fazemos coisas estranhas. Outras vezes regemo-nos pelo “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”, porque temos de vos passar a mensagem certa quando ela ainda é absorvida sem filtros.

Agimos por bem, sempre.

Só queremos que cresçam para serem pessoas educadas e atentas ao que se passa à vossa volta.

Que sejam imaginativos, criativos e que questionem muito – faremos o melhor para responder a todas as perguntas (mesmo que as nossas ainda não tenham sido todas respondidas).

Se podem confiar em nós?

Podem e devem.

Porquê?

Porque a mãe está a dizer que sim e pronto.

O M do seu nome passou a significar também M de Mariana, o nome da filha de quase três anos, e M de mãe, este sim verdadeiramente maiúsculo.
Guionista

Sonhava ser escritora mas, aos onze anos, uma professora de língua portuguesa garantiu-lhe que ninguém em Portugal jamais poderia considerá-lo uma profissão digna desse nome

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