Continuas aí: És mais que uma mãe

Nove meses de barriga a crescer.
Preparas-te o melhor que consegues, sonhas, planeias, arrumas. O dia chega e tornas-te mãe.
O teu mundo vira-se de cabeça para baixo (uma tontura boa) e as prioridades são restabelecidas.
Lidas primeiro com as visitas na maternidade, depois em casa.
Lavas roupa de bebé vinte vezes ao dia, mudas fraldas, mal tens tempo de comer ou dormir, fazes um esforço para não falhar em nada e o tempo passa.
O bebé vai crescendo. Papas, sopas, pão. Senta-se, gatinha, sorri, bate palmas e gargalha.
Enche-te o coração, numa adoração crescente que nunca pensaste ser possível.
Sem saberes muito bem como dás contigo a ter de organizar o teu tempo de modo a encaixar festas de aniversário dos colegas da creche (como é possível que não haja um único fim de semana em que não se comemore um aniversário?), actividades extra curriculares, o ballet, a natação, o futebol ao sábado de manhã.
Organizas-te com o teu marido, quem faz o quê, quem leva onde.
Ajudas a fazer trabalhos de casa mesmo antes de os miúdos aprenderem a ler, depois acompanhas às aulas de inglês, ao karaté.
As máquinas de roupa continuam a existir e mesmo que tenhas ajuda tens tendência para dar um jeitinho à casa antes de a empregada chegar.
Na escola, tal como no médico, o teu nome é quase que apagado.
Desde aquele dia quente em que o teu filho veio ao mundo, passaste a ser mãe e é assim que te chamam. “Ó mãe, ela hoje comeu muito bem”, “Mãe, não se esqueça de trazer o fato de treino que na quinta-feira há a aula de ginástica”.
Levas os miúdos ao Jardim Zoológico, ao Planetário, ao Portugal dos Pequeninos, ao bailado, a concertos, aos museus, aos jogos de futebol, assinas a autorização para irem com a turma ao teatro.
Nem na pausa para café no trabalho as coisas são diferentes, há sempre uma colega a perguntar “quando é que vão ao segundo?”. Claro que se tiveres dois a pergunta vai aumentando até as pessoas se aperceberem de que não têm nada a ver com isso. Ou seja, nunca. E aquele colega que gosta de pôr o dedo na ferida: “Noite difícil com os miúdos, hã? Não estás com grande cara”.
Passas a ser mãe.
É assim que te vês, é assim que os outros te definem.
Vacinas, percentis, a roupa que parece deixar de servir num sopro, os pesadelos a meio da noite, as discussões entre os irmãos ou os dias em que estão em sintonia tal que se tornam “impossíveis”.
É fácil deixares-te levar. Mas há um facto que custa a aceitar: os miúdos sobrevivem sem ti. A sério.
Têm o pai (com sorte são uma dupla imbatível, mas mesmo assim gostas de ser tu a controlar tudo), os avós, os padrinhos, os tios, os amigos, os pais dos colegas.
Podem não estar tão bem vestidos, comer às horas que planeaste ou cumprir as tarefas como se estivesses presente, mas eles ficam bem. Tu talvez tenhas um pouco mais de dificuldade, mas também te adaptas.

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Aprende a delegar. Delega a ida às aulas de música, alguns banhos, a escolha da roupa, os passeios no domingo à tarde.
Tira um tempo para ti. Há quanto tempo não o fazes? Há quanto tempo não sais com os teus amigos para beber um copo? Dançar? “Ah, isso é tudo muito bonito, mas não tenho mesmo ninguém com quem os deixar”. É verdade, pode acontecer, mas aí…
Serve um copo de um bom vinho, liga a música no máximo e dança. Os miúdos que dancem contigo, se ainda não estiverem na fase de achar que tudo o que fazes os envergonha. Saltem para o sofá e dancem descalços. Parece mais possível assim?
Deixa as tarefas para depois, elas não vão a lado algum. Abre aquele livro que está a ganhar pó na mesa-de-cabeceira e lê.
Esquece um pouco o mundo, os problemas no trabalho ou como é que vais ajudar os miúdos a subirem as notas a Química.
Veste aquela roupa que te faz sentir bonita, põe um bom perfume, maquilha-te, se for algo que deixaste de fazer.
Valoriza-te. Não consegues encaixar tempo para ir regularmente ao ginásio? De certeza que arranjas meia hora para ir correr à beira-rio um dia ou outro. Ou levar a bicicleta que está a ganhar ferrugem na garagem.
Põe uns headphones, aumenta o volume da música e corre.
Sorri, sente o vento na pele, o sol a queimar, a chuva a deixar-te com pele de galinha.
Canta. Escolhe um filme e vai ao cinema. Janta fora com o teu marido.
Namora. Namora muito. Só os dois, sem interrupções de três em três minutos, pedidos de ajuda para cortar a carne, birra porque “odeio esse peixe, tenho sono, não quero mais”.
Conversem. Sem ser sobre os miúdos, para variar.
Chega a casa e olha-te no espelho. Procura-te. Afinal, continuas aí. Não deixes que o mundo te engula. Se fores mais do que apenas mãe todos ficam a ganhar. Tu, em primeiro lugar, os miúdos (“uau, quem és tu e o que é que fizeste à minha mãe?”), as tuas relações. Todas elas.

Há tempo para tudo, espaço para tudo e, por mais difícil que às vezes pareça, é importante não esquecer que continuas aí. E que fantástica que tu és.

(Fica aqui um enorme obrigada à minha sobrinha Leonor que, do alto dos seus dois anos, depois de ter conhecido a prima achou que “tia” já não servia para me caracterizar e passou a chamar-me Marta. Ajudou-me a não me esquecer de quem sou. Obrigada, meu amor).

 

 

imagem@gisele bündcheninstagram

O M do seu nome passou a significar também M de Mariana, o nome da filha de quase três anos, e M de mãe, este sim verdadeiramente maiúsculo.
Guionista

Sonhava ser escritora mas, aos onze anos, uma professora de língua portuguesa garantiu-lhe que ninguém em Portugal jamais poderia considerá-lo uma profissão digna desse nome

1 thought on “Continuas aí: És mais que uma mãe

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