E o que se passa é que, devido à nova política de “tolerância zero”, todos os imigrantes ilegais apanhados a atravessar a fronteira sem documentos ou em raids de fiscalização, e que se façam acompanhar dos filhos menores, serão levados para responderem por um crime federal.

A tolerância zero que separa pais e filhos

A tolerância zero que separa pais e filhos

Nos últimos dias têm-nos chegados inúmeras imagens, reportagens e relatos sobre o que se passa na fronteira do México com os Estados Unidos da América. E o que se passa é que, devido à nova política de tolerância zero, todos os imigrantes ilegais apanhados a atravessar a fronteira sem documentos ou em raids de fiscalização, e que se façam acompanhar dos filhos menores, serão levados para responderem por um crime federal. E os seus filhos serão também eles levados, em fila indiana, para tendas no deserto (onde no exterior se fazem sentir mais de 38º) ou para gaiolas de arame, sem saberem o paradeiro dos pais. Sem saberem se voltarão a vê-los. Sem saberem onde estão ou o que está a acontecer, na maioria dos casos.

Nestes campos de retenção onde as crianças aguardam um veredicto chegaram, desde Abril, mais de duas mil crianças. Antes desta política da administração Trump, o que acontecia era a deportação (dos pais e dos filhos) para os países de origem se não houvesse registo de reincidência.

A minha preocupação aqui não é política, a minha preocupação é de mãe.

E ao ver crianças de dois anos a chamarem pelos pais, pelas mães, a chorarem em desconsolo e desespero, não consigo aceitar que isto aconteça. E muito menos no tão chamado país das oportunidades. No país que encabeça a lista dos mais desenvolvidos. No país que é feito de tantas culturas, de pessoas com as mais variadas origens.

Estas crianças estão a chegar da Guatemala, das Honduras, do México, de El Salvador. Estas crianças falam, na sua maioria, espanhol. Nunca ouviram falar inglês.

E estão longe dos pais.

Não imagino o que será ter de tomar a decisão de deixar tudo para trás e arriscar. Para poder procurar um futuro melhor para os meus filhos, para lhes proporcionar paz, segurança, educação. Para sobreviver. Estas pessoas fogem da guerra, da violência armada, da fome, da pobreza extrema, da instabilidade política, da perseguição religiosa. Estas pessoas só querem poder ser pessoas, viver uma vida digna. E muitas arriscam, levando os filhos consigo.

E tantas vezes não conseguem chegar mais longe.

Bem sei que a chegada de milhares de pessoas às fronteiras levanta problemas. Nós por cá, pela europa, temos sido confrontados com a situação dos refugiados e muito se tem falado, discutido, criticado e as soluções a que se tem chegado parecem insuficientes. A mim pouco me importa a política, a mim importa-me o lado humano.

Importa-me que se separem os pais dos filhos.

Houve inclusivamente pais a tirarem a própria vida porque não concebiam a ideia de viver sem os filhos. Porque o que acontece quando forem condenados ao tal crime federal? É tudo tão complexo e injusto e nós somos apenas humanos. Cometemos erros.

“Mas os pais são criminosos!”. Aos olhos da lei até pode ser, mas então precisamos procurar soluções para que não seja preciso cometer um crime para se procurar uma vida melhor (e aqui o crime em causa é andar dias a fio sob um sol abrasador, carregando apenas os filhos, a roupa do corpo e uma esperança cega de que vai valer tudo a pena, muitas vezes pagando por documentos que nunca chegam a existir, tantas vezes extorquidos ao máximo…).

Estamos em 2018 e não é razoável que eu tenha de mudar de canal porque a minha filha percebe que algo se passa e pergunta onde está o pai daquela menina que está a chorar.

E por isso abraço-a. E repito-lhe como somos sortudas. E tento explicar que lá fora há quem tenha vidas diferentes, caminhos diferentes, pessoas a cometerem actos de loucura, de amor, de coragem, para tentarem ter aquilo que damos como garantido.

Abraço-a tanto quanto posso e prometo que se algum dia chegar a nossa vez de tomar decisões, tentarei tomar a melhor. Para que nunca tenhamos de viver separadas quando o natural é andarmos mão na mão.

Haverá sempre alguma coisa que se possa fazer.

Em relação que se passa nos EUA, ao que se passa em Itália e na Grécia, em Espanha. Por todo o mundo.

Informem-se, se acharem que é importante ajudar.

Mas, acima de tudo, abracem os vossos filhos.

Porque num destino paralelo, a esta mesma hora, do outro lado do oceano há quem tenha os seus filhos arrancados dos braços, sem piedade. Quem sabe se para sempre.

O M do seu nome passou a significar também M de Mariana, o nome da filha de quase três anos, e M de mãe, este sim verdadeiramente maiúsculo.
Guionista

Sonhava ser escritora mas, aos onze anos, uma professora de língua portuguesa garantiu-lhe que ninguém em Portugal jamais poderia considerá-lo uma profissão digna desse nome

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