Conhecimento de Estufa

Vivemos por viver. De semana para semana. É a nossa realidade. Vivemos numa estufa de ambiente controlado. São esperados resultados. Para ontem, se possível. Somos pequenos ratos de laboratório que se preparam para a corrida do século. Optimiza. Aprende. Visiona. Inova. Executa. Ganha. Vence. Conquista.

Faz duas semanas estava eu sentado na sala com a minha pequena irmã. Sempre irrequieta, lá vai ela fazer um desenho. Tem uma predilecção pelas Artes Visuais. Mostra-me o desenho. Tem jeito, diria. Pelo pouco que eu percebo, para além do espectável senso comum e de umas aulas de Educação Visual passadas de cabeça em branco, diria que tem potencial. Nisto, pede-me para ligar a televisão. Os fatídicos três minutos que decorreram entre uma acção e outra deixam-na aborrecida. Faço o que ela me pede e passo pela honrável tradição do zapping. Canais infantis? Ainda hoje continuo à procura deles. É verdade, passei por alguns desenhos animados, entretanto. “Aprender a ler, aprender a contar, aprender as formas, aprender as cores, aprender inglês, aprender os animais”.

Concluo, portanto, que entrámos na secção da preparação universitária.

Para onde foi o Popey? A Pantera Cor-de-Rosa? Para onde foi a Rua Sésamo? Para onde foi a brincadeira? O entretenimento apenas por diversão? Certo que todos os papás sorriem: “o meu filho tem um conhecimento extenso e variado. Tem apenas três anos.” Receio que o resultado esperado da reprodução humana seja agora a criação de pequenos seres de carne e osso com a maior capacidade de demonstração de competências possível. Crianças não.

Atentai, tenho perfeita noção que o mundo cada vez mais se torna num local de competitividade. O conhecimento é suposto ser adquirido a partir de tenra idade e, logo que possível, recriado e utilizado de forma inovadora de modo a contribuir, assim, para o funcionamento da matemática social. Mas creio que nos esquecemos um pouco da nossa essência e da razão da procura de conhecimento: a felicidade. Lamento informar mas não quero ser, nem irei criar, quando for a altura de tal, pequenas galinhas presas num viveiro cujo único objectivo será parir ovos estudiosos sob a luz artificial de um candeeiro de secretária. Quero aprender, sim. Mas este ritmo incessante a que nos é induzida a informação rouba-nos o tempo de sermos jovens. Contra mim falo. Também eu faço muita coisa. Mas faço-o nunca deixando de ter tempo para mim e para os outros. Para pensar. Para sentir. Para ser.

Somos pequenas árvores. Precisamos de água e solo fértil. São essenciais para o nosso crescimento.  Mas precisamos igualmente de tempo. Paciência. De respirar e sentir o sol. Algo que nos é retirado cada vez mais. A sociedade tratou de colocar-se sob a forma de um militar furioso que grita às pequenas árvores. Diz-nos o grau de inclinação que devemos alcançar. A percentagem de nutrientes nas nossas raízes. A quantidade de raios solares que absorvemos na última hora. Tudo informação pertinente, mas profusamente distribuída.

Tenho um professor do qual gosto e respeito muito. Um professor que nos leva a casa quando as aulas terminam tarde. Um professor que nos abre a sua porta e nos atende o telemóvel prontamente. Um professor que nos dá do seu tempo. Verdadeiramente. Curiosamente é a disciplina onde tenho melhor nota. Fui criado numa família onde me habituei a este ambiente. Sei muitas coisas e quero saber ainda mais. Não porque gosto muito dos livros da escola ou porque estou necessariamente muito atento nas aulas. Mas porque em casa sempre me deram do seu tempo e atenção. Sempre responderam às minhas perguntas. Sempre me motivaram a procura por conhecimento de forma natural e realista. Sempre me deixaram ser quem sou.
Se nos dermos a nós próprios o tempo de sermos humanos mais facilmente teremos tempo de sermos génios.

Por Diogo Lopes, 
para Up To Lisbon Kids®

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