Covid-19 ou como reaprendemos a estar juntos

Covid-19 ou como reaprendemos a estar juntos

Covid-19 ou como reaprendemos a estar juntos

Os últimos meses têm sido desafiantes para todas as famílias, em todo o mundo.

Este vírus tem sido democrático na sua proliferação, não o sendo, no entanto, a forma com uns e outros podem enfrentá-lo.

Por aqui, e aqui é a minha casa, temos a sorte de ter, para começar, isso mesmo – uma casa. Temos a possibilidade de estar em isolamento, temos condições financeiras para continuar a providenciar uma vida relativamente normal à miúda cá de casa. Temos a possibilidade de estar em teletrabalho e a capacidade, hercúlea, de gerir a vivência de uma criança de cinco anos que passou a estar confinada em sua casa.

Não está a ser fácil para ninguém.

Nem para quem vive sozinho, independentemente da sua idade, nem para quem vive acompanhado, para quem fica em casa e quem tem de sair. Quem está na linha da frente, quem está nos cuidados básicos, quem tem de prestar o serviço de educação à distância às crianças, seja em que moldes for.

Se para os adultos tem sido um ajusto diário, que dirá para as nossas crianças.

Falo da Mariana, que é um poço de energia, curiosa por natureza, consegue estar parada pouco tempo, é muito física e não vive sem o exterior. Não vive, entenda-se, porque cresceu assim, com essa possibilidade e com pais que a acompanharam em actividades ao ar livre, brincadeiras no jardim, corridas na relva, de bicicleta, skate ou patins.

Consegui manter este contacto com o exterior, nem que fosse apenas nos passeios higiénicos, para que ela continuasse em contacto com o mundo lá fora, continuasse a ver outras caras, mesmo que à distância e vivesse um pouco fora de casa. 30 minutos de cada vez.

Optei por criar uma rotina semelhante à escola, com um quadro de planificação para que ela sentisse que controlava parte do seu dia, mas aprendi a ser flexível, a deixá-la ser criança e, acima de tudo, a permitir-lhe aprender a brincar.

A minha filha deu-me uma enorme lição ao adaptar-se lindamente à nova forma de viver.

Senti-a com muitas saudades dos colegas e amigos, mais compreensiva relativamente ao não contacto com outros membros da família e tive a sorte de podermos estar juntas nesta aventura.

O meu trabalho permite-me estar em casa e é onde habitualmente trabalho. Significou uma adaptação menor para mim do que para a maior parte das pessoas, que teve de se habituar a trabalhar a partir do local onde anteriormente existiam apenas como “eu” ou família. Percebi, logo nos primeiros dias, que dificilmente conseguiria trabalhar da forma que necessitava, num projecto muito exigente, e estar a cem porcento com a minha filha. Alguma das duas ia ceder. E eu não queria que cedesse nenhuma. Por isso optei por estar com a minha filha a 95% durante o dia, aproveitando a sua autonomia para os momentos em que tinha mesmo de estar a trabalhar. Depois de ela dormir, começava o meu dia de trabalho e assim tem sido. Poucas horas de sono, mas uma mãe presente e mais contente durante o dia. E uma profissional mais realizada, apesar de cansada.

No projecto onde me insiro somos três mães.

A nossa líder não tem filhos mas temos a sorte de nos ter apoiado e entendido ao longo deste processo. Temos sido verdadeiras guerreiras. Leoas. Temos enfrentado batalha atrás de batalha, sem baixar os braços. Temos estado exaustas, temos descansado pouco, temos pouca memória do que é ter 12 horas inteirinhas para trabalhar.

Mas, e falo por mim, estou a viver das melhores experiências da minha vida. Disse-o desde o início. É estranho, não é? Para quem me conhece talvez não seja…

Por mais duro que esteja a ser, por mais que tenha conseguido fazer apenas duas das cinco coisas que queria ter feito profissionalmente nestes meses, tenho estado com a minha filha todos os dias. Durante todo o dia.

E isso só acontecia nas férias, em que – Deus não permita o contrário – todos os dias tinham de ter uma actividade, algo relevante, porque a miúda não pode estar tanto tempo em casa. Engraçado como as coisas mudam, não é?

Mas eu, ao longo destes meses, tenho mimado muito a minha filha.

Tenho conversado com ela. Tenho podido observar em primeira mão a forma como interage com os colegas nas aulas via Zoom. Como se comporta. Como se dirige à educadora. E como participa. Acompanhado as actividades propostas, tenho brincado muito… Tenho aproveitado para ensinar uma ou outra coisa. Temos lido muito. Dançado e saltado também.

Não é um mar de rosas, mas vai custar-me muito voltar à realidade de só estar com ela de manhã e à tarde, quando sai da escola.

Nunca mais na nossa vida (tenho a esperança de que esta experiência seja coisa de uma vez na nossa longa vida) teremos a oportunidade de desfrutar uns dos outros como agora.

A escola reabre a 1 de Junho e as dúvidas são avassaladoras. Tenho aprendido a viver um dia de cada vez, porque tudo muda muito rapidamente e não tenho de tomar nenhuma decisão agora.

Há muitas questões a ponderar, mas haverá tempo para decisões definitivas.

Até lá, sinto-me muito feliz por ter permitido à minha filha brincar com os amigos depois de ter saído da sala ou do recreio. Por a ter deixado correr no salão com os amigos, jogado às escondidas na casa de banho, pedido bolachas ao senhor Adriano, ter simplesmente corrido escada acima, escada abaixo pela escola.

A ter deixado subir à árvore que há ao lado da igreja (junto à escola), que ela trepou, onde se arranhou, onde ganhou coragem para tentar mais uma vez. Por termos saído da escola em grupos de quatro, cinco, seis, sete, todos pela rua, os miúdos a correr ao sol, ou a fugir da chuva. A fazerem corridas nas arcadas dos prédios, a partilharem chapéus de chuva, ou um livro na papelaria. Fico muito feliz por ter permitido que estas sejam das memórias mais presentes que a Mariana guarda do seu tempo na escola: o ser criança com os seus iguais, os seus amigos.

Porque não sei como será a escola do amanhã, fico feliz por a de ontem ter sido o que ela merecia.

MÃE DE UMA MENINA, É PARA E POR ELA QUE ESCREVE SEMANALMENTE, PASSANDO PARA PALAVRAS OS MAIORES SEGREDOS DO VERBO AMAR.

Autora orgulhosa dos livros Não Tenhas Medo e Conta Comigo, uma parceria Up To Kids com a editora Máquina de Voar, ilustrados por aRita, e de tantas outras palavras escritas carregadas de amor!

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